Paul Verhoeven externa suas obsessões católicas na Mostra Internacional de Cinema

Estupro em 'Elle' e imaginário gay em 'O Quarto Homem' mostram autor que cultiva a provocação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2016 | 23h21

E a 40.ª Mostra, neste ano de data redonda, tornou-se autorreferente, promovendo programas que remetem à sua história. Foi assim que trouxe Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch, para acompanhar a exibição do novo longa do mais cool dos autores dos EUA, Paterson – e Stranger than Paradise até reestreou nas salas (nesta quinta, 3). A Mostra também trouxe O Decálogo, memorável êxito do polonês Krysztof Kieslowski, neste ano de foco na Polônia. E houve, claro, Paul Verhoeven.

Para acompanhar a apresentação de Elle, o novo e complexo thriller do autor holandês, a Mostra resgatou O Quarto Homem, que já participara do evento nos anos 1980. Eram os tempos heroicos da Mostra. Havia a censura do regime militar e vinha da Holanda aquele filme transgressor, de um autor que não se impunha limites. Trinta e tantos anos depois, Verhoeven passou por Hollywood sem vender a alma. Nesta sexta, 4, seus dois filmes estarão na repescagem do Cinesesc – O Quarto Homem, às 16h40, Elle, às 20h40.

Elle é, acima de tudo, ‘ela’ – Isabelle Huppert. Nenhuma outra atriz saberia fazer a personagem Michèle com essa frieza glacial. Antes mesmo que apareça a primeira imagem, Elle é som. Copos quebrados, respiração ofegante. Um estupro – que Verhoeven, inicialmente, não apresenta. Só mais tarde as imagens voltarão, e de forma irônica, quando Michèle imagina como teria sido, se tivesse reagido. Estuprada, ela se recompõe. Recolhe os cacos, toma banho, deita-se, mas, por via das dúvidas, agora carrega um martelo para a cama. Muda as fechaduras e só bem mais tarde, num jantar com amigos – o ex, a sócia de cujo marido é amante –, conta o que houve.

Nada mais ‘verhoeveniano’. Uma vida fragmentada que retoma seus fios. Michèle tem problemas na firma, com o filho, com a mãe, o pai, com o ex e o amante. Soçobraria, se não fosse esse distanciamento que lhe permite manter tudo sob controle. É aquilo que se chama de ‘bitch’. É Isabelle Huppert, uma atriz superlativa. É Paul Verhoeven, finalmente entronizado como o grande diretor que sempre foi. Até Cahiers du Cinéma, numa grande entrevista que foi capa, curvou-se perante o diretor. Até Tropas Estelares, seu filme mais discutido, de 1997, na época detestado como ‘fascista’, hoje é visto como a obra que antecipou a direitização em processo no mundo.

E chegamos a O Quarto Homem, grande sucesso de Verhoeven no circuito de arte-ensaio. Um escritor gay cai na malha de uma mulher-aranha que pode ou não ter matado seus três maridos, e ele se arrisca a ser o quarto. Humor negro, realidade versus fantasia, alucinações. Cristo na cruz, blasfêmia. Sobre as obsessões católicas de Verhoeven, cabe lembrar que ele escreveu um livro também polêmico, Jesus de Nazaré, em que, entre outras coisas, sustenta que Maria não engravidou do Espírito Santo, mas de um soldado romano que a estuprou. Há oito anos, Verhoeven tenta fazer um filme de seu livro. O estupro de Elle talvez seja sua vingança pelo ainda não filmado de Maria.

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