RT Features
RT Features

'Patti Cake$' mostra toda a força das mulheres

Produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, longa de Geremy Jasper celebra o poder de atrizes extraordinárias

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2017 | 06h02

Geremy Jasper indigna-se com o que lhe diz o repórter. “C’mon. Gimme a break. Eles disseram mesmo isso?” No Festival do Rio, após a exibição de Patti Cake$ para a imprensa, muitos críticos comparavam a protagonista do filme a uma ‘Precious branca’. “É tão idiota como dizer que todo filme de boxe repete Rocky, Um Lutador.” Jasper tem motivos de sobra para estar feliz com seu longa de estreia - uma produção da RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira. Desde sua apresentação em Sundance, em janeiro, Patti Cake$, que estreou na quinta, 30, virou o que a crítica chama de ‘crowd pleaser’, o popular filme que atrai as multidões.

+++ 'Me Chame Pelo Seu Nome' e outros dois filmes de Rodrigo Teixeira indicados ao 'Oscar independente'

Difícil, senão impossível, não se envolver com a história de Patricia Dombrowski, ou Killa P, ou Patti Cake$. Branca, obesa e pobre, exprime sua revolta em versos veementes. Seu sonho é ser reconhecida como (grande) rapper, mas tudo conspira contra a garota que vive na parte menos favorecida de New Jersey. A cidade, do outro lado do Rio Hudson, já é a Nova York dos pobres e Patricia ainda sofre por desempenhar uma função que não gosta, numa lanchonete na qual a única coisa boa é sua amizade com o indiano Jehri. Ele a estimula mesmo nos momentos em que Killa P - a matadora - participa de disputas de rua com os afro-americanos que dominam a vizinhança, e o rap.

+++ Além de 'Com Amor, Van Gogh', muito terror entre as 13 estreias do cinema

Na entrevista abaixo, Jasper, dublê de músico e diretor de clipes, diz que nunca sonhou ser um cineasta de verdade, mas isso foi só até descobrir Federico Fellini. Na acurada descrição de seu meio pobre, eventualmente sórdido, Patti Cake$ possui inesperada abertura para voos poéticos.

Essa mudança de tom foi um risco que o diretor se propôs assumir, e venceu. De cara, o filme começa feérico, no mundo de sonho idealizado por Patricia. A ruptura que a traz para o mundo real a confronta com a mãe devoradora de homens, e bêbada, além de cantora que não chegou lá, e a avó que a apoia. A grande descoberta é a do anarquista e misterioso Basterd, um músico que tem seu estúdio improvisado numa cabana no parque. A cabana, em si, é uma personagem à parte, pelo que revela de redimensionamento possível para o sonho de Patricia, aliás, Patti, aliás, Killa P.

No limite, o grande confronto é quando ela participa de uma ‘rap battle’ com o campeão do pedaço. Mais importante que saber se Patricia vence, ou não, é descobrir que ela (re)assume o controle de sua vida. Isso inclui chegar a um entendimento com a mãe. A australiana Danielle MacDonald foi preparada quase dois anos pelo diretor para virar uma rapper frente às câmeras. É maravilhosa, e o seu volume físico é que leva algumas pessoas a pensar nela como Precious - a personagem de Gabourey Sidibe no filme de Lee Daniels. Por melhores que sejam os homens, é um filme de mulheres. Danielle, Bridgett Everett, a mãe, e Cathy Moriarty, a avó. Cathy rouba a cena. Se o Oscar for honesto, Michelle Pfeiffer, por Mãe, Assassinato no Expresso do Oriente, ou os dois, e Cathy, por Patti Cake$, estarão se digladiando pelo Oscar de coadjuvante no ano que vem.

ENTREVISTA - GEREMY JASPER - DIRETOR

Nascido em New Jersey, Geremy Jasper atravessou a ponte (para Nova York) e obteve reconhecimento como músico e, agora, diretor de Patti Cake$.

Como surgiu a personagem?

Sou de New Jersey e cresci no meio que o filme descreve. Lá, todo mundo sonha em atravessar a ponte. Conheci muitas Pattis, e, quando me decidi a fazer o filme, tive o privilégio de ser selecionado pelo Sundance Lab, que me permitiu escolher a atriz e trabalhar com Danielle MacDonald por dois anos, até transformá-la numa rapper.

Qual o recorte da música no filme?

O filme abraça vários estilos de rap, de diferentes épocas. A ideia sempre foi que Patti se expressasse, e desse vazão à sua revolta pela música.

Por que virar cineasta?

Comecei como músico, e a música dá a você mais controle. Mas descobrir (Federico) Fellini foi visceral. Ele abriu minha cabeça. Depois, foi o Sundance e um produtor como Rodrigo (Teixeira). Ele te estimula a ser criativo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.