Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Patrick Stewart volta ao cinema na saga 'X-Men'

Ator, que ficou conhecido como o Capitão Picard, de 'Jornada nas Estrelas', volta a encarnar o Professor Xavier em 'Dias de um Futuro Esquecido'

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2014 | 16h00

A primeira viagem de Patrick Stewart a São Paulo foi em 1962, quando era ainda um jovem ator da tradicional companhia londrina Old Vic, sob a direção da atriz Vivien Leigh (E o Vento Levou...). Daquela época, lembra que a cidade era pequena e interessante, “com prédios cor de creme”. 

Stewart voltou na semana passada à capital paulista, durante a turnê de X-Men: Dias De Um Futuro Esquecido. “Encontrei uma cidade completamente mudada, com prédios imensos, mais cinza, em que o trânsito é tão absurdo que me advertiram a usar helicóptero”, disse ele em conversa com o Estado. “Taí um poder que gostaria de ter, me teletransportar”, brincou ao ser questionado sobre qual poder gostaria de ter caso fosse um mutante. 

Oposto a seu personagem na saga X-Men, o professor Charles Xavier, líder e mentor dos mutantes na Terra, capaz de ler e controlar a mente das pessoas, Stewart deseja algo palpável. “Não queria ler a mente dos outros. Uma das coisas que James (McAvoy) expressa tão poderosamente no filme é a dor e a confusão que há quando a gente sabe o que as pessoas pensam”, respondeu. “Às cinco da manhã de hoje, saímos de um voo de nove horas de Londres. Isso só reforça esta sensação de que só gostaria de me teletransportar. Nem precisaria ter uma nave como a Enterprise”, brincou ele, que ganhou fama mundial ao viver, nos anos 1980 e 1990, o capitão Jean-Luc Picard de Star Trek: A Nova Geração. Diante da resposta, o colega James McAvoy, que em Dias de um Futuro Esquecido vive o Professor Xavier 50 anos mais jovem e, em uma das cenas atua ao lado de Stewart em uma espécie de encontro consigo mesmo, brincou: “Você é o prático. E eu aqui falando de aceitação, tolerância...”

O desejo de Stewart pode fazê-lo parecer pragmático, mas, a julgar pela simpatia ao tratar com centenas de jovens fãs de X-Men que o perseguiram na semana, seu verdadeiro poder é o de ser simpático - e empático. 

Durante uma entrevista coletiva, Stewart parecia de fato disposto a conversar e não a dar respostas prontas. Em meio a brincadeiras sobre o quanto está empolgado com a Copa do Mundo, a alegria em conhecer o técnico Luiz Felipe Scolari, quebrou o protocolo: “Se pudesse voltar no tempo, voltaria àquele dia de maio de 1962, para relembrar como foi, e onde foi, a apresentação em São Paulo. Só lembro que foi especial. Se vocês puderem descobrir algo sobre isso, e o que os jornais disseram, por favor, me contem. Vou ficar feliz.” 

Em 1962, Stewart se apresentou no Teatro Municipal, e o grupo recebeu elogios do público e da crítica pela montagem de A Dama das Camélias, clássico do francês Alexandre Dumas, no qual a também inglesa Vivien Leigh, então à frente da cia., vivia a cortesã Margarita Gautier. Quando conversou com o Estado, o ator não se recordava de que já havia estado no mais tradicional palco da cidade. “Lembro que eu tinha somente 22 anos e era um jovem iniciante, que não tinha um grande papel. Ninguém vai achar nada sobre mim nos jornais, mas gostaria de saber o que disseram, pois foi um espetáculo que me marcou”, comentou o ator, que passou dez anos na Royal Shakespeare Company.

A apresentação não apenas marcou a carreira de Vivien como ainda a história do Municipal. “Amo o cinema, mas o teatro é minha vida”, comentou certa vez o ator, em entrevista à BBC. E foi justamente o teatro que o preparou para seus grandes personagens das telas. Do capitão Jean-Luc Picard (na série para a TV e vários filmes da saga) ao Professor Xavier (de X-Men). 

Para ele, apesar da aparente contradição, o caminho era natural. “Hoje, que já fiz todos esses trabalhos, sinto isso mais forte ainda. Todos os anos, na Royal Shakespeare Company, em que vivi todos aqueles reis, imperadores, príncipes e heróis trágicos, foram nada mais que uma preparação para me sentar na cadeira da Enterprise”, declarou ele ao site Canoe, ao ser questionado sobre a guinada que sua carreira deu. 

É esta fleuma de líder e sábio que Stewart empresta a seus personagens e esbanja em suas entrevistas. Por mais que X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido possa ser apenas mais um capítulo da franquia que leva milhões de fãs aos cinemas do mundo, impossível não ser impactado pela presença de atores como Stewart e Ian McEllen. Na trama, os dois, que já dividiram o palco em numerosas montagens teatrais (de Esperando Godot a No Man’s Land) vivem Charles Xavier e Erik Lehnsherr (Magneto). Inimigos de outras aventuras (como X-Men 2 e X-Men: O Confronto Final ), desta vez eles têm de se unir para salvar os mutantes. 

“Já fiz filmes de ação que foram bons, mas que tiveram seus percalços. Aceitei fazer X-Men porque o Bryan Singer (diretor dos dois primeiros episódios da saga e deste último) me convenceu de que não seria só mais uma franquia para fazer milhões e iria além do usual em suas questões”, afirmou o ator, definindo sua entrada em um projeto que já consome 14 anos de trabalho. 

Confirmando o caminho natural a que Stewart se refere, foi justamente o perfil de líder e conciliador que imprimiu ao capitão Picard que chamou a atenção dos produtores de X-Men. “Se eu for definir o que realmente é X-Men, e principalmente este novo filme, diria que sua metáfora mais proeminente é a capacidade de exercer a tolerância, de entendermos uns aos outros, de lutar pela paz”, afirmou o Sir inglês diante de uma plateia lotada de jornalistas e fãs que cresceram lendo as aventuras dos personagens de Stan Lee e Jack Kirby.

História. Publicada pela primeira vez em setembro de 1963, a série em quadrinhos conquistou fãs em todo o mundo e ganhou a primeira versão no cinema em 2000, com X-Men: O Filme. Desde então, foram sete longas, milhões arrecadados. Seja o não tão incrível X-Men: O Confronto Final (que tem direção de Brett Ratner), ou o ótimo Dias de Um Passado Esquecido, todos têm na figura de Charles Xavier, o milionário telepata fundador do Instituto Xavier para Jovens Superdotados, uma figura paterna, capaz de liderar os X-Men (liga que o professor criou para defender a Terra) nas diversas batalhas. 

Em sua passagem pelo Brasil para promover o lançamento da nova produção, que estreia em 22 de maio, Stewart esteve sempre acompanhado do ator escocês James McAvoy, que também interpreta o professor Xavier, mas na juventude. 

Os dois são a peça-chave para ajudar Wolverine (Hugh Jackman) a voltar no tempo e tentar convencer Mística (uma estonteante Jennifer Lawrence) a não matar Dr. Bolivar Trask (Peter Dinklage), cientista que quer criar um exército de robôs, os Sentinelas, capazes de destruir todo e qualquer mutante.

A capacidade de Patrick Stewart, mesmo aos 74 anos, de se comunicar com o público jovem é notável. “Não é incomum que crianças, adolescentes e jovens se sintam, às vezes, excluídos do mundo à sua volta. E talvez inseguros, sem confiança. Eu também me senti assim na infância. E descobri, ao longo do tempo, que muitos grandes atores também passaram por isso. Viam no palco um lugar mais seguro que o mundo”, observou ele ao ser questionado sobre o fascínio que a saga X-Men exerce sobre os mais jovens. “O que eu adoro nos primeiros episódios da série, e até em First Class, é que havia crianças, estava sempre acontecendo alguma aula. E eles estavam ligados a professores extraordinários, como Halle Berry (Tempestade), Anna Paquin (Vampira) e Wolverine (Hugh Jackman). Muito do apelo que estes filmes têm para os jovens é que eles podem se identificar com eles.”

McAvoy concorda: “A adolescência, particularmente, é um período muito difícil. Às vezes, nos sentimos fechados em um armário, como se tivesse algo secreto e escondido. Em um filme como este, percebemos que, às vezes, o herói vem de lugares e situações bem improváveis. E, ainda, que o personagem mais inesperado pode nos dar 

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