Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Patrícia Pillar estrela o filme 'Unicórnio', do diretor Eduardo Nunes

Atriz também fala sobre política e a supersérie global 'Onde Nascem os Fortes'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2018 | 06h00

Patrícia Pillar chega - aquela beleza - para conversar com o repórter sobre Unicórnio, que estreou em salas de todo o Brasil na quinta, 16. O repórter e ela sentam-se quando o diretor Eduardo Nunes está se despedindo. Ela o beija - “Meu diretor mais querido...” É o segundo longa de Nunes, que mantém um jeito tímido, de garoto. Suas atrizes e produtoras o adoram. E ele faz filmes exigentes e difíceis, num mercado, o brasileiro, que cultiva a comédia, quanto mais descompromissada melhor. Seus filmes são, os mais belos (visualmente) do cinema brasileiro atual. Sudoeste, com Simone Spoladore, conta a história de uma mulher, do nascimento à morte, em um só dia. Unicórnio, adaptado de dois contos de Hilda Hilst - Matamoros e O Unicórnio -, fala de mãe e filha. Mas será só isso, ou será mesmo isso?

Uma mulher e uma garota numa casa. A filha espera o pai, mas de repente fala com ele num cenário que parece produto de imaginação. A mãe parece resignada, mas surge esse estranho que mexe com as emoções dela. A casa é detalhada ao extremo, mas como é interpretar uma personagem que não tem uma construção realista? Que é, e não é, ou não é o que parece? “Eduardo escreveu um roteiro que, na verdade, era uma peça literária, muito bonita, mas não preenchia os brancos. Para entender essa mulher, essa mãe, eu fui à própria Hilda (Hilst). Hilda tinha uma ligação muito forte com a natureza. O próprio unicórnio, com quem minha filha se relaciona na trama (a garota é interpretada por Bárbara Luz, filha dos atores Inês Peixoto e Eduardo Moreira, do grupo mineiro Galpão), tem uma dimensão mítica, metafórica. Representa a pureza, a força e, se a gente pensar nisso como religião, pode ser o divino.”

Eduardo Nunes adora trabalhar o tempo. Em Unicórnio, ele cria uma aparente atemporalidade. As roupas parecem anacrônicas, de época, mas certos detalhes - os brincos da garota - remetem à modernidade. E Nunes é ousado - o que representa o prego na árvore? “É o sexo, inclusive por causa daquela seiva, que escorre.” O repórter brinca. “Vocês, hein?” No outro dia, o Estado entrevistou Gabriela Amaral Almeida, diretora de O Animal Cordial. Um amor de pessoa, mas faz um filme sanguinolento daqueles, que termina numa verdadeira chacina num restaurante. E agora Nunes - saidinho, o garoto, com suas representações de sexo. “É o fluxo da vida”, ele diz.

O curioso é que Patrícia saiu dessa representação não concreta da existência para um trabalho fortemente ancorado no real - a supersérie da Globo Onde Nascem os Fortes, de George Moura e Sergio Goldenberg e direção de José Luiz Villamarim. “Ali, era mais que uma representação realista. Não fazia uma mãe, mas a mãe. Coisa de tragédia grega. Emoções no limite. Foi um trabalho maravilhoso, mas essa história de atuar num registro extremo, maior que a vida, te deixa exausta. E gravamos muito tempo in loco, no sertão, impregnados pela aspereza da paisagem. Fiquei exausta, mas repetiria tudo de novo.” Diz que carrega o sertão no sangue - “Minha avó materna era de Quixadá. Me sinto em casa no sertão. São pessoas que me comovem, no jeito que são, na dificuldade, no sofrimento, na solidariedade.”

É o desafio que a atrai, como atriz. Fazer coisas novas, que exijam. E lhe permitam investigar na natureza humana, no outro, aquilo que muitas vezes não consegue compreender em si mesma. Patrícia Pillar, de 54 anos, está bela como nunca. Uma mulher madura, plena. Seu segredo de felicidade? “Dar e receber amor.” Está amando, então? “Você está querendo saber demais”, brinca. Sucesso no cinema, na TV, Patrícia sente vontade de voltar ao teatro, sua primeira casa. Tem um projeto, mas também não quer falar. “Deixa se realizar.” Patrícia trabalhou com o diretor Hamilton Vaz Pereira na fase dele pós-Asdrúbal Trouxe o Trombone. Vaz Pereira dirigiu-a em diversas peças nos anos 1980. No fim da década, seu maior sucesso foi ao lado de Raul Cortez - O Lobo de Ray-Ban. E, em 2004, foi dirigida por Aderbal Freire-Filho em A Prova. Na época, a crítica saudou o retorno de Patrícia ao palco, depois de mais de uma década de afastamento. Será o caso, agora, de novo?

Impossível falar com essa mulher sem que a política entre na conversa. Se há uma coisa que Patrícia Pillar não tem dúvida, é em quem vai votar em 8 de outubro, para presidente. “No Ciro, claro.” Ela fala de Ciro Gomes, candidato pelo PDT, com quem foi casada de 1999 a 2011. Patrícia não é como certas mulheres que guardam rancor dos ex-companheiros. Fala dele com respeito e admiração - “Ciro é o candidato mais preparado e o que tem uma proposta para o Brasil. O grande problema desse país é a desigualdade. Governar o Brasil não é coisa para amadores.”

Contador de histórias. Bárbara Luz, a jovem de Unicórnio, é filha de dois atores mineiros – Inês Peixoto e Eduardo Moreira, do Galpão. Bárbara tem um encanto todo dela, especial. Sua personagem vive com a mãe numa casa próxima à floresta. A garota leva uma vida meio fantasiosa. Liga-se a um unicórnio, um daqueles cavalos que têm um chifre na testa. A convivência com a mãe é abalada pela chegada de um estranho. A garota espera o retorno do pai, mas, de repente, conversam numa espécie de instituição psiquiátrica. Quem está internado/a – o pai ou a filha?

O diretor Eduardo Nunes não é exatamente um contador de histórias. Prefere criar climas. É o primeiro a brincar – “Meu roteiro não passaria em nenhum curso especializado.” Como criador de climas, utiliza o tempo e pode se tornar chato, ou assim parecer. Há controvérsia. Grandes atores e atrizes do cinema brasileiro querem trabalhar com ele e Patrícia Pillar, a mãe em Unicórnio, o chama de “meu diretor mais querido”. O filme, adaptado de Hilda Hilst, tem algo do mistério que impregna a literatura da autora. Hilda e sua relação com a natureza, com o pai.

As imagens são lindas e o unicórnio, animal mítico, tem forte carga simbólica. No começo dos anos 1970, Robert Altman fez Imagens, com Susannah York também às voltas com um unicórnio. Nunes jura que não viu a obra cultuada de Altman. Ambos têm essa fascinação pelas imagens. Se você entrar nelas poderá achar o fio para decifrar essa fábula sobre o crescimento. E a morte.

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