Patrícia Melo roteiriza Rubem Fonseca

De tanto ouvir os críticos e o público brasileiros chamarem-na de autora de romances policiais, Patrícia Melo promete, para breve, sua primeira grande contribuição ao gênero. Ela vai escrever um romance com um crime e todos os personagenas e situações daí decorrentes - a vítima, os suspeitos, o detetive. Existem crimes nos romances que ela escreve, mas não ocupam o centro dos livros que a escritora define como "narrativas urbanas". Quem matou, quem morreu nunca importa muito. Patrícia usa o crime como pretexto para sondar a inescrutável sordidez da alma humana. Patrícia fala sobre cinema, literatura, sobre adaptações no bar da Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos. Daqui a pouco ela participa de um bate-papo com leitores, nesse local.Patrícia adora esses encontros com leitores. Acha que são estimulantes. É uma autora que vende bem e soma, à de escritora, tarefas como a de roteirista. O assunto desta reportagem, por sinal, é o que não deixa de ser uma curiosidade. Patricia adaptou o romance Buffo & Spalanzani, de Rubem Fonseca, e o filme de Flávio Tambellini integrou a programação da 3.ª Semana de Cinema: Brasil & Independentes. Buffo foi exibido hoje na mostra dos independentes. Estréia nos cinemas em agosto. Invertendo a mão, Rubem Fonseca adaptou o romance O Matador, de Patrícia Melo, que deu origem ao filme O Homem do Ano, com Murilo Benício, em rodagem no Rio. Quem dirige é o filho de Rubem, José Henrique Fonseca. Mais ação entre amigos, impossível.Ela vende bem, trabalha como roteirista, mas faz questão de dizer que consegue viver "modestamente" de sua literatura. E, embora justamente a literatura seja o subtexto de toda conversa que se possa ter com Patrícia, o assunto aqui é ela no cinema (ela e o cinema). Desde que se entende por gente, Patrícia lê literatura policial. Conhece bastante a escola inglesa, a americana. Não esconde a preferência pelos americanos e, dentro deles, por Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Se você apertar mais um pouco, ela consegue ser ainda mais restritiva. Gosta mesmo é de Chandler. O criador de Philip Marlowe escreveu para cinema, mas, só para lembrar a história divertida, Alfred Hitchcock não gostou muito do roteiro de Chandler para Pacto Sinistro. Achava que ele era um grande escritor, mas não um grande roteirista. Hitchcock chamou um profissional do roteiro, Czenzi Ormonde, para consertar o que lhe parecera insatisfatório em Chandler.Vem de longe a admiração de Patrícia por Rubem Fonseca. Ela já era uma leitora fiel quando foi chamada para adaptar O Caso Morel, que quase virou filme de Suzana Amaral. Em 1995, quando adaptava O Caso Morel, ela já havia lançado Acqua Toffana. O livro, composto de duas novelas, foi o primeiro a valer a Patrícia a etiqueta de "dama jovem do mistério" - que ela nega, pois não se considera adepta da literatura de enigmas, como era, por exemplo, Agatha Christie. Morte, sexo e violência ocupam o centro dessas narrativas. Depois, veio o segundo livro, O Matador - que agora vira filme, com outro título, e no qual a autora aprofunda a temática da violência.Banalização do mal - Por meio da história do matador de periferia, Patrícia foi fundo no que chama de banalização do mal pegando carona em Hannah Arendt. Sempre ocorreram crimes na história da humanidade, mas hoje a TV, o rádio, o jornal, a Internet, tudo isso banaliza a violência e coloca as pessoas, todas as pessoas, em contato com ela no dia-a-dia. A menos que você se isole, os meios de comunicação estarão sempre despejando toneladas de informações sobre a violência urbana, sobre crimes, em você. Esse é um tema que interessa à autora de O Matador, mas há outro - o acaso que dirige o destino do ser humano.Ela conta que pouca gente percebeu, quando surgiu O Matador, que a abertura do livro dialoga com O Cobrador - de Rubem Fonseca. Essa ausência de informação dos críticos e resenhistas pode incomodá-la, mas você não vai ver Patrícia Melo polemizando com jornalistas. Isso é completamente avesso ao temperamento da escritora. A curiosidade, agora, é saber como Fonseca vai dialogar com a obra de Patrícia para fazer a sua leitura de O Matador. Adaptar, explica Patrícia, é selecionar o que vai para o filme. Nenhum livro pode ser filmado na íntegra. É sempre necessário selecionar, por necessidade de tempo, para adequar o original às intenções do roteirista e do diretor.Buffo & Spalanzani, o filme, não é o romance de Rubem Fonseca, mas a leitura que dele fizeram Patrícia e o diretor Flávio Tambellini. O importante, para ela, é que gostou do filme e o próprio Fonseca gostou, também. "Ficamos os dois aplaudindo de pé, numa pré-estréia; os maiores tietes do Flávio (Tambellini, o diretor)." Ela diz que, mais que um policial brasileiro, Tambellini queria fazer um policial carioca. Patrícia acha que o diretor achou as locações, o tom e fez um filme muito bem-feito. E não adianta dizer, por exemplo, que certos diálogos soam muito artificiais, o que é um problema recorrente no cinema brasileiro de gênero. Ela diz que, se existe esse artificialismo, o problema é dela. "É porque quis ser fiel ao Rubem, aproveitando ao máximo os diálogos dele; não é a melhor solução, quando se trabalha para cinema; talvez não devesse ter sido tão reverente."Mas, enfim, é absolutamente certo que ela admira o autor de Buffo & Spalanzani. Acredita muito na sua capacidade, acha que ele vai fazer um belíssimo trabalho em O Homem do Ano. Tem evitado ir ao set. Já conversou bastante com Rubem, com o diretor José Henrique Fonseca. Acha o set de filmagem uma coisa muito tensa, muito bagunçada. Não quer aumentar ainda mais a confusão no de O Homem do Ano. O que a une a Fonseca, além da admiração sem limites pelo grande escritor? "Somos todos gente da Conspiração", ela diz, rindo.A Conspiração é a empresa produtora de Andrucha Waddington, o diretor do melhor filme brasileiro do ano passado - Eu Tu Eles. A Conspiração produz O Homem do Ano e também Cachorro!, o trabalho anterior de José Henrique Fonseca, que integra a trilogia da produtora sobre Nélson Rodrigues (Traição). Ainda a Conspiração produz o próximo filme de Andrucha, Duas Mulheres e um Cadáver, baseado na peça de Patrícia. A ex-roteirista de TV - autora de programas educativos na Globo, da minissérie Colônia Cecília, na Band, e que deu início ao núcleo de dramarturgia do SBT com uma minissérie, nunca realizada, sobre Anita Garibaldi - também fez a adaptação para cinema de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, que virou filme - inédito - de Miguel Faria Jr. E, antes do livro para fazer jus à sua fama de autora policial, lança outro, que já está escrevendo, sobre ciúme. O interesse pelo tema não é só artístico, mas pessoal. "Sou muito ciumenta", revela.

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