Patrice Leconte filma Cambodja sem palavras

Sem dúvida, o mais controvertido filme dos primeiros dias do Festival de Locarno, Dogora, de Patrice Leconte monopolizou as conversas de café dos criticos de cinema, uns considerando o filme ?sublime? ou ?poema sinfonico?, enquanto outros partiram para a demolição comparando-o a espetáculos de som e imagem, de Jean-Michel Jarre, Philippe Glas ou filmes de turismo publicitário. Para o grande público não houve dúvidas, pois Dogora foi aplaudido, já que a primeira reação provocada nos expectadores é a de que suas cores e sua musica de fundo (um coro semelhante ao da Vozes Bulgaras) ressaltam a pobreza e miséria no Cambodja, onde foi filmado. As cenas de triagem do lixo pelas crianças e adultos pobres, de trabalho de megaoficinas de costura de confecção de jeans poderiam ser versões coloridas das fotos da miséria de Sebastião Salgado. Dopado pela música de Etienne Perruchon, cantada numa linguagem artificial, e pelas imagens que parecem animar um baile da pobreza cambodjana, os expectadores saem como hipnotizados. Entretanto, a magia ou hipnose dura apenas algumas horas ou um dia. Retornando ao seu estado normal, ressurge a insidiosa pergunta, se Dogora é realmente cinema ou uma simples ilustração musical. Sem diálogos, sem palavras, numa seqüência de imagens abstratas ou sem nitidez, principalmente crianças, com a beleza e o exotismo dos rostos infantis orientais ou a passagem das motos, veículo de transporte familiar, Dogora não é exatamente um filme, mas um produto audiovisual. Bonito, que se poderia acreditar encomendado pela Unesco ou pela comissão de direitos humanos da ONU. Frustante, por deixar a impressão de uma anestesia audiomusical.Feito em quatro semanas, com uma só câmera conduzida por Patrice Leconte, Dogora é superficial e nada tem de engajado como se poderia imaginar. É o próprio Patrice Leconte quem cria a decepção, revelando com toda sinceridade, não ter tido essa intenção ao fazer o filme e nem uma posição sobre os efeitos da globalização nos países pobres, limitando-se a dizer que as cenas poderiam ter sido filmadas na periferia parisiense ou nas favelas do Rio. Porém, sem acrescentar que não produziriam o mesmo efeito exótico do Cambodja. Patrice Leconte, diretor de filmes sérios como Senhor Hire, Ridicule, O Marido da Cabeleireira, é mais conhecido por filmes cômicos como os Os Bronzeados, Venha me Visitar, Moro numa Vizinha. Lançado em 78, Os Bronzeados eram uma alegoria do Clube Mediterrâneo, em plena moda, por ter criado o turismo ativo com animações. Homem de cinema, Patrice Leconte decepcionou ao se negar a fazer qualquer declaração sobre os chamados ?intermitentes?, empregados franceses temporários do cinema, teatro, musica e diversões, que na luta por direitos sociais, paralisaram o Festival de Avignon e tumultuaram o Festival de Cannes.

Agencia Estado,

07 de agosto de 2004 | 15h19

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