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Passageiros traçam retrato sobre situação do Irã no filme 'Táxi'

Longa fala da justiça na república dos aiatolás e condição da mulher

Luiz Carlos Merten - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

06 de fevereiro de 2015 | 18h32

BERLIM - Na coletiva do júri, um jornalista já havia perguntado ao presidente Darren Aronofsky se seria possível avaliar da mesma maneira que os demais concorrentes um filme como o de Jafar Panahi. O autor iraniano participa da competição com Táxi. Até pelas condições particulares do seu confinamento no Irã, os filmes de Panahi estão cada vez mais pessoais. Se nos filmes anteriores da fase atual ele filmava entre quatro paredes, agora sai. Interpreta um motorista de táxi. Pelo seu carro desfilam personagens que retratam a sociedade iraniana contemporânea.

Aronofsky disse que seria injusto olhar Táxi de forma diferenciada. O filme está na seleção, e é o que basta. O táxi de Panahi é coletivo. Entra um homem que fala sobre roubos e defende medidas drásticas. O governo devia enforcar todos os ladrões. Uma passageira, que se identifica como professora, o recrimina por dispor com essa facilidade da vida humana. A discussão fica bem animada até que ambos saem e fica outro homem que identifica o diretor e se apresenta como um fornecedor de DVDs piratas que já foi em sua casa. Sem ele, Panahi não teria visto Meia-noite em Paris, de Woody Allen, interditado no Irã.


Os passageiros desfilam - uma mulher cujo marido sofreu um acidente e ele grava um vídeo para garantir que ela tenha seus direitos reconhecidos pela família dele; duas idosas que, de maneira um tanto surreal, carregam um aquário com peixes; e a sobrinha do diretor, uma menina que realiza um vídeo para a escola e que recrimina o tio por aparecer de forma tão pouco glamourosa (como motorista!), sem pensar nas consequências para a reputação dela perante os colegas. Fala-se de tudo - da justiça na república dos aiatolás, da condição da mulher, de cinema, pirataria, mercado. Quanto do filme é encenado, improvisado? São todos atores, Panahi integra não profissionais? Faz parte do mistério de Táxi. O filme foi muito aplaudido. Merecidamente. 

Também foi muito aplaudido o filme brasileiro que abriu a seção Panorama. Sangue Azul foi projetado simultaneamente em quatro salas. Houve debate com o diretor Lírio Ferreira. O filme conta a história de um casal de irmãos incestuosos. Separados pela mãe, reencontram-se quando ele volta à ilha em que nasceu como astro de circo. Lírio contou que autores como Andrei Tarkovski e Federico Fellini lhe ensinaram a amar o cinema. Mas por mais felliniano que seja o circo de Sangue Azul, é o da infância do diretor. Lírio pesquisou várias ilhas em busca da paisagem certa. Fernando de Noronha impôs-se, por seus recortes vulcânicos.

O filme termina muito bem com o profeta (Ruy Guerra), que conta a história da ilha, introduzindo o mito. Árido Movie, também de Lírio, terminava com outro profeta (José Celso Martinez Corrêa), falando da água, hoje um tema crucial da vida brasileira. O diretor citou um terceiro ator/personagem emblemático, Paulo César Pereio, que faz um papel importante em Sangue Azul. Lembrou que em 1964, há 51 anos, Guerra, como diretor, e Pereio, como ator, participaram da Berlinale com um clássico do Cinema Novo, Os Fuzis

Atores emblemáticos também fizeram a força do concorrente britânico, 45 Years/45 Anos, de Andrew Haigh. Ex-montador, principalmente de Ridley Scott (Gladiador e Falcão Negro em Perigo), Haigh assina um filme intimista centrado na relação de um casal.

Há cinco anos, marido e mulher - interpretados por Tom Courtenay e Charlotte Rampling, atores míticos - iam fazer uma grande festa para comemorar a união, mas ele foi parar no hospital e a festa foi adiada para os 45 anos do título. Tudo se passa em uma semana. A festa será no sábado, mas no começo da semana ele recebe a notícia de que o corpo de uma ex-namorada que morreu numa avalanche foi encontrado intacto. A neve conservou-a eternamente jovem. O fato perturbador o leva a repensar tudo - o ardor juvenil, os verdes anos. O que restou de tudo aquilo? 45 Anos pode não ser um grande filme, mas é bom. E seus atores são imensos. Courtenay e Charlotte enriquecem os papéis com densidades, sutilezas e a força de sua(s) presença(s).

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