Paris aplaude cinema brasileiro

Pela ampla e prestigiosa repercussão alcançada este ano, o Festival de Cinema Brasileiro de Paris, lançado em 99 pela associação cultural franco-brasileira Jangada, se afirmou de vez como uma das principais vitrines para a produção nacional no estrangeiro. "O poder de irradiação artística e cultural que a capital francesa exerce no mundo potencializa os esforços de toda promoção variada e bem articulada - como esta do filme brasileiro - que for realizada a partir de Paris visando ao mercado europeu e de outras regiões do planeta", declarou ao Estado o brasilianista francês Jean Sarzana, escritor e organizador dos salões parisienses do livro e do audiovisual e um dos benfeitores do festival. A fundadora e presidente da Jangada, a cineasta carioca Katia Adler, radicada em Paris há 18 anos, não ocultava no domingo sua euforia diante dos números: reduzido este ano de 15 dias para uma semana e transferido para um cinema maior (o Arlequin, em Montparnasse), o festival termina nesta terça-feira, registrando o dobro de público em relação ao ano anterior, ou seja cerca de 6 mil espectadores. Para as três sessões de domingo, por exemplo, com os filmes Caramuru, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Janela da Alma e Lavoura Arcaica, compareceram mais de mil pessoas e muitas delas tiveram de se sentar no chão por falta de cadeiras. "Em relação aos aplausos, estamos também batendo os recordes, pois nunca os filmes, seus diretores, atores e produtores foram tão festejados, aclamados como agora", informa Katia animada com os resultados. Seu incontido entusiasmo se explica também pelo fato de que a direção do Arlequin reiterou-lhe o convite para acolher de novo o evento no próximo ano, com maiores facilidades e uma sala suplementar e maior, destinada às projeções dos filmes que mais se destacaram no mercado brasileiro na temporada. Ao lado da receptividade do público e da crítica, outro dado que ilustra o reconhecimento do festival está na presença de profissionais do setor. O diretor do Mercado de Filmes de Cannes, Jerôme Paillard, veio a Paris acompanhar a manifestação e sondar as possibilidades de se tornar um dos distribuidores de produções brasileiras na Europa. "O cinema brasileira atual atingiu uma qualidade de conteúdo e de forma admiráveis, com a vantagem de que, despojando-se da ´Síndrome do Engajamento Miserabilista´, ele exprime agora, sem complexo de culpa, a dimensão hedonista do Brasil que tanto acalenta o imaginário europeu", avaliou Paillard ao ser recebido no festival. Essa avaliação foi zelosamente anotada na hora por Elenora de Martino, responsável pelos projetos culturais da BR-Petrobras, hoje o principal suporte do renascimento do cinema nacional, tendo financiado 38 longas em 2001, devendo esse número se elevar a mais de 40 este ano. Na prática, a confirmação dos bons prognósticos em relação à Europa era dada logo depois por Tarcisio Vidigal, diretor da Brazilian Cinema Promotion e do Grupo Novo, órgãos que promovem e asseguram a comercialização de filmes nacionais no exterior. Ele concluía então negociações com as distribuidoras francesas ID, MK-2 e Corifilms para a distribuição na França e em toda a Europa de várias películas brasileiras e registrava os pedidos de opção para as que estão em fase de preparação ou simplesmente no estágio do roteiro. "Daqui a pouco, o público francês verá mais os nossos filmes do que os brasileiros", brincou. Mas nem tanto, porque nas próximas semanas, segundo suas estatísticas, nada menos do que 11 produções brasileiras estarão sendo apresentadas e/ou reapresentadas simultanemente em Paris e nas grandes cidades francesas: Eu Tu Eles, Lavoura Arcaica, Cidade de Deus, O Invasor, Policarpo Quaresma, Abril Despedaçado, Copacabana, Domésticas, Caramuru, Madame Satã e Bufo e Spallanzani. Mário Peixoto - Além disso, as emissoras de televisão, como Arte e Canal Plus, já expressaram interesse pela exibição de documentários brasileiros, entre os quais Tainá, Janela da Alma e Onde a Terra Acaba. Este, por sinal, de Sérgio Machado, constituiu, a grande surpresa do festival ao revelar para os franceses uma síntese da vida e da obra de Mário Peixoto, o pioneiro do filme nacional de qualidade com o seu belo e mudo Limite, cuja exibição em Paris é disputada agora por diversos distribuidores. "Foi o festival da virada em Paris", garantiu o sóbrio Guel Arraes. Como os demais diretores e produtores brasileiros presentes, ele está convencido de que, com o volume de criações alcançado pelo cinema brasileiro, chegou a hora de se intensificarem os esforços para que a vitrine aberta em Paris por Jangada seja reproduzida em outros centros europeus, no Japão e na China.

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