Paraty vai ganhar seu festival de cinema

Ela é do tipo que não consegue ficar parada. Ana Maria Nascimento e Silva vive agitando projetos que, invariavelmente, terminam se concretizando. Ela produziu os filmes do marido, o diretor Paulo César Saraceni (O Viajante e o documentário sobre a Banda de Ipanema, que considera muito político, "o belíssimo resgate de uma época", os anos 1960 e 70). Ana Maria, que é atriz, busca agora um texto para representar no teatro. Há um ano lê, avidamente, tudo o que lhe cai às mãos. Sonha com uma escadaria, uma entrada triunfal em cena, aplausos. "Ator é assim mesmo, narcisista; precisa de reconhecimento", diz. Como o texto está difícil de achar, Ana Maria corre atrás de outro projeto que já está quase se concretizando.De 30 a outubro a 3 de novembro ela vai fazer o Paracine 2002 - 1.º Festival de Paraty. A idéia lhe veio um dia em que visitava a cidade litorânea, no Estado do Rio. "Paraty é tão linda, tão cinematográfica, tantos filmes importantes foram feitos lá." Num ímpeto, ela teve a idéia - e por que não fazer um festival de cinema para valorizar essa beleza toda? Para resgatar e homenagear tantas figuras ligadas à cidade? O festival começou a surgir assim. Para começar, um festival pequeno, de curtas-metragens de diretores brasileiros. "Quando crescer a gente amplia o formato e vira um festival de longas", explica. Tudo bem: um festival de curtas. Já existem eventos semelhantes em São Paulo, Belo Horizonte e no Rio. Era preciso um diferencial e quem o deu foi o marido de Ana Maria, Saraceni.Veio dele a idéia de fazer do Paracine um festival sem bitola. Vale tudo: digital, película, super-8. O importante é o filme na tela. A única distinção será entre documentário e ficção. A captação é livre, a projeção também. Ana Maria conversa pelo telefone com a reportagem do Estado. Passa o aparelho para Sarraceni. Ele conta que, "como todo mundo", está muito interessado nessa história do digital. Acha que o suporte vai mesmo mudar o cinema, democratizá-lo. Concorda com Patrick Siaretta, da TeleImage, que deu uma entrevista ao Estado, na semana passada. O tema era o digital na TV e no cinema. Siaretta acredita que durante um bom tempo a captação de imagens ainda será feita em digital e película, mas não tem dúvida de que a projeção será digitalizada logo. Quando se fala que o futuro é digital, ele acredita que a sala digital está mais próxima.Tenda de ponta - Sarraceni concorda. E, por isso mesmo, incentivou Ana Maria a bolar esse festival sem bitola e, no qual, a projeção terá de ser feita em digital e no sistema tradicional, para película. Ana Maria sonha com alguma coisa de ponta. "Quero construir uma tenda moderníssima na praça central de Paraty para fazer essas projeções."Ela já antecipa o que será esse oásis de tecnologia encravado no centro histórico de Paraty. "Coisa de ponta", anuncia. E vai adiante: "Quero mostrar ali dentro os 26 filmes que foram rodados na cidade e nas praias próximas."Por volta de 1970, em plena ditadura militar, Nelson Pereira dos Santos instalou-se em Paraty, até para fugir à repressão que corria solta no eixo Rio-São Paulo. E fez filmes como Azylo Muito Louco e Como Era Gostoso o Meu Francês. Saraceni também fez Anchieta José do Brasil em Paraty, um pouco mais tarde (1977). E, em 1982, Bruno Barreto fez da cidade o cenário para a sua adaptação do romance de Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, que teve o italiano Marcello Mastroianni no papel do turco Nacib, perdido de amores pela dengosa Gabriela que Sônia Braga interpretava com charme e malícia, repetindo a personagem responsável por sua consagração, na TV. "O Mastroianni se apaixonou pela cidade; Paraty é muito internacional", diz Ana Maria.Quando cita esses filmes e as pessoas que os fizeram, novas idéias lhe surgem e Ana Maria explica que quer prestar homenagens a Leila Diniz, a Sônia Braga, a Ney Latorraca. O risco é fazer um festival caro. Ela descarta de cara. "Vamos começar com o curta justamente por isso, para baratear." O orçamento do evento é pequeno: R$ 250 mil. Ana Maria o inscreveu na lei estadual de incentivo à cultura, do Rio, e Lei Roaunet. Espera conseguir muitas parcerias. "O caminho é esse, a parceria", revela. Na semana passada, teve uma reunião com empresários de Paraty. O encontro ocorreu na Igreja de Santa Rita, do século 16, que ainda funciona como templo religioso, mas por seu valor histórico também é museu. Ana Maria estava aflita. Falava de costas para a imagem da santa. Santa Rita compreendeu: ela saiu do encontro com a promessa de muitos quartos-dia nas melhores pousadas de Paraty, para abrigar os convidados nacionais e estrangeiros.Já tem alguns desses convidados na cabeça: a crítica francesa Sylvie Pierre, autora de um livro sobre Glauber Rocha e enamorada pelas coisas do Brasil, o diretor da RAI-3, Marco Giusti. Ana Maria é uma agitadora cultural, não uma predadora. Ela não quer retirar coisas da cidade em proveito próprio. Pensa num retorno que beneficie a população. "Mostrar os filmes dos quais eles participaram já é uma coisa bonita, mas eu penso em muito mais: oficinas de criação, de artesanato. O importante é plantar uma semente." Com apoio da Prefeitura de Paraty, ela pede que os interessados em aprovar o 1.º Paracine entre em contato com as próprias secretarias de Turismo e Cultura da cidade.O Paracine é sua prioridade, mais até do que o sonhado retorno ao palco. Mas há outro projeto no qual ela também está empenhada. Paulo César, seu marido, roda no ano que vem a adaptação que está fazendo do romance escrito por seu irmão, Sérgio Saraceni. Ângelo é o título. É uma história da família Saraceni. Ângelo era o avô dos dois, um italiano que ia ser semimarista mas descobriu o amor e veio para o Brasil com a mulher amada, avó de Paulo César e Sérgio. "É um filme sobre a paixão, meu cinema é movido a paixão", define Saraceni. "Vai ser um filme lindo, que vamos fazer em parceria com a RAI, usando atores brasileiros e italianos. Eu vou estar no filme e, por enquanto, a Isabella Rossellini é a única estrela internacional que está confirmada."Isabella é filha de Roberto Rossellini, um dos ícones de Paulo César Saraceni. "Mas põe aí: a prioridade número um, agora, é o Paracine. Esse festival precisa ocorrer."

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