Paranoia de guerra inspira longa do venezuelano Joel Novoa

Exibido em Gramado, ‘Escavo de Dios’ é tão eficiente como filme de ação quanto intrigante por suas ideias

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 02h00

GRAMADO - Assim como o documentário Mamaliga Blues, de Cássio Tolpolar, exibido na Mostra de Cinema Gaúcho, poderia integrar a programação do Festival de Cinema Judaico, Esclavo de Dios, de Joel Novoa, poderia estar muito bem na Mostra Mundo Árabe de Cinema, que começou nesta quarta-feira, 13, em São Paulo. Um comando do Mossad, serviço de inteligência israelense, caça na Argentina o terrorista que está programado para cometer um atentado, convertendo-se num soldado de Alá. O diretor é venezuelano, filho do também diretor José Ramón Novoa, e transfere para a América do Sul o clima de guerra do Oriente Médio.

Escravo de Deus é tão eficiente como cinema de ação quanto intrigante por suas ideia. O protagonista é um homem que leva vida dupla. Ahmed converte-se em Javier Hattar. Vira médico num hospital em Caracas, casa-se, tem um filho, mas vive à espera do momento em que será chamado para se imolar por Alá. O filme nos leva a compartilhar sua dualidade e, a partir de certo momento, o dilaceramento interior, pois Ahmad/Javier é um humanista que ama sua família e não quer derramar sangue. Em seu encalço, Davi, o agente do Mossad na Argentina, é um homem ético.

Assistindo a cenas mais intensas de Esclavo de Dios é difícil não pensar no que diz Hany Abu-Assad, diretor de Omar – que abriu a Mostra Mundo Árabe – na entrevista que você pode ler no portal do Estado, no texto de abertura do evento na cidade. Abu-Assad fala da paranoia, do que significa ser herói e traidor. É o diretor de Paradise Now, e Escravo de Deus traz para o contexto latino temas como religiosidade, sacrifício e ética que estão em Paradise Now e também em Munique, de Steven Spielberg.

O 42.º Festival de Gramado tem prosseguido com suas homenagens. Na terça, foi entregue o Troféu Oscarito a Flávio Migliaccio e o ator e diretor – o eterno Xerife da série com o Shazan Paulo José – contou como garoto, na escola, a professora perguntou o que ele queria ser quando adulto. Ela não aceitou sua resposta (“Quero ser Oscarito”), mas agora, tanto tempo depois, com o prêmio na mão, Migliaccio podia dizer que conseguiu. O festival exibiu o concorrente uruguaio, El Hijo del Padre, de Manuel Nieto, com produção executiva do argentino Lisandro Alonso. O filme conta a história de um garoto que participa de greve na universidade, mas seu pai morre e ele precisa ir à decadente fazenda da família, no interior do Uruguai. Muda tudo – o tom, a história, o conflito –, um pouco como no deslumbrante Jauja, de Lisandro Alonso, premiado em Cannes, em maio.

Dos experimentais Compêndio, de Eugenio Puppo e Ricardo Carioba, e especialmente do belíssimo Sem Título # 1, de Carlos Adriano, o mínimo que se pode dizer é que merecem estar no festival de curtas de Zita Carvalhosa, que começa na quarta-feira, em São Paulo. Na verdade, o paulistano é que merece o acesso a obras tão ricas e intrigantes.

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