Para Ruy Guerra, cinema deve expressar sua cultura

O cineasta brasileiro Ruy Guerra disse nesta quarta-feira que o cinema e as demais manifestações culturais da América Latina devem se esforçar para trabalhar "com estruturas e materiais dramáticos próprios". Guerra apresentou hoje, no 53.º Festival de Cinema de San Sebastián, no norte da Espanha, seu filme O Veneno da Madrugada, baseado em uma obra do romancista colombiano Gabriel García Márquez. O filme é um dos 19 de 11 países que competem este ano na Seção Oficial do festival.Em entrevista à EFE, o diretor, nascido em Moçambique e que vive no Brasil há 40 anos, explicou que levar o livro "A má hora: O Veneno da Madrugada" ao cinema trouxe dificuldades técnicas devido à necessidade de realizar "planos-seqüência", nos quais a cena inteira é feita em uma única tomada.Na versão cinematográfica da obra de García Márquez, personagens de um povoado que sofre com a chuva e com a lama declaram guerra uns aos outros, estimulados por conflitos antigos e em meio a um ambiente no qual se sucedem mensagens anônimas com verdades e mentiras. Guerra explicou que fez uma filmagem "desestruturada", com histórias que transcorrem de formas diferentes, porque "precisava conseguir unidade no tempo e no espaço". O cineasta disse ainda que Gabriel García Márquez, depois de ver o trabalho terminado, o chamou para dizer que ele havia destroçado seu livro, mas havia conseguido "fazer um filme magnífico". Filme para exportaçãoRuy Guerra defendeu a idéia de que, apesar dos elementos "universais" da dramaturgia, os expoentes da cultura latino-americana, entre eles os cineastas, deveriam "fugir da submissão a regras externas que fazem com que eles entrem em conflito com suas culturas locais".Na realização de um filme, disse Ruy Guerra, "é preciso buscar os valores culturais da história que está sendo contada, os sentimentos, até encontrar uma estrutura particular". O cineasta reiterou sua rejeição aos filmes feitos "apenas para exportação".Além disso, ressaltou que não lhe interessa fazer "filmes que tenham distorções culturais" com a única esperança de uma boa comercialização. "Minha ambição é fazer os melhores filmes brasileiros no Brasil. Não me interessa fazer um filme belíssimo espanhol ou americano no Brasil", disse. "A música brasileira conquistou o mundo sendo cada vez mais brasileira", garantiu Ruy Guerra, que ressaltou que "o cinema de cada país também deveria ser assim". Concordando com a opinião de outros diretores, Guerra afirmou que "a última esperança" dos grandes festivais de cinema é o de San Sebastián. "Os outros estão completamente dominados pelo ´show-bussines´, enquanto que este mantém a resistência cultural para oferecer filmes que não se encaixam no padrão comercial". O Veneno da Madrugada, uma co-produção entre Argentina, Brasil e Portugal, é a quarta obra de García Márquez que Guerra leva ao cinema. Antes, ele havia dirigido Erendira, Fábula de la Bella Palomera e Me Alugo Para Sonhar.

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