Para Roberto Farias, MP do Cinema não soube atrair TV

O cinema nacional perdeu a oportunidade de obter investimentos das grandes redes abertas de televisão e as operadoras de TVs por assinatura (cabo, microondas e satélite). A avaliação é do cineasta e diretor de televisão Roberto Farias ao lamentar a falta de jogo de cintura por parte da equipe que articulou a medida provisória que trata da política para o cinema brasileiro.Farias acredita que se os empresários do setor de radiodifusão fossem chamados para a negociação direta, os resultados poderiam ter sido melhores. A decisão unilateral de impor uma contribuição de 4% da receita bruta dos emissoras de televisão, o que resultaria em R$ 260 milhões por ano - segundo previsões dos cineastas -, mobilizou os empresários do setor que conseguiram arquivar a proposta contida na MP.Num artigo publico no site www.cinemabrasil.org.br, Farias expôs as críticas à condução do processo que resultou na MP. O cineasta e diretor da série Brava Gente, da TV Globo, assegurou que a desejada contribuição de 4% sobre a receita deveria ter sido colocada nos anos 50, quando surgiu a televisão. "O desenvolvimento da televisão teria sido outro", lembrou Farias. "Agora é tarde. Tomar essa medida, hoje, seria o mesmo que colocar na rua milhares de profissionais de televisão."Farias acredita que a retomada das conversas passa pela eventual oferta de incentivos fiscais ao setor de radiodifusão. O cineasta acha que o grupo que alinhavou a MP dispunha de mecanismos que pudessem resultar em acordo com as emissoras de televisão. Segundo ele, as TVs não investiram no cinema nacional "pela mesma razão que nossos maiores empresários também não o fizeram". "O negócio não tem a mínima garantia para concorrer com o produto estrangeiro", assegurou. "Os custos são superiores às receitas."Para o cineasta, outra providência a ser adotada é a especificação no ingresso da parcela que representa o preço do produto que será visto pelo público e aquilo que representa os encargos. Farias defendeu inclusive um aumento da contribuição financeira dos grandes estúdios cinematográficos internacionais como forma de custear as produções nacionais.O cineasta também desdenhou o modelo preparado para a Agência Nacional do Cinema (Ancine). Segundo Farias, a proposta é uma volta ao passado, quando a Embrafilme era uma empresa ágil e sem dinheiro para investir e o Instituto Nacional do Cinema (INC), que detinha recursos em caixa não podia destinar recursos para produções cinematográficas. "O sonho de Leon Hirzmann era transformar a Embrafilme num banco de fomento", recordou Farias. "Perdemos essa oportunidade mais uma vez."Segundo ele, o modelo de autarquia desenhado na MP impede que a Ancine tenha mais agilidade no trato para com os interesses nacionais. Farias lamentou também que os compromissos assumidos no congresso nacional de cinema, realizado em Porto Alegre, não foram considerados pelos cineastas de "notório saber", que integraram o grupo que cuidou da política para o cinema nacional. "Não discuto a honestidade de propósitos dos amigos cineastas que estiveram à frente desse processo que se encerra", afirmou Farias. "A televisão deveria ser nossa aliada, mas não foi conquistada. Fico estarrecido com isso. Negociadores do porte do Barreto (Luiz Carlos Barreto), do Cacá (Diegues) e do Gustavo (Dahl), teriam de encontrar outra saída."

Agencia Estado,

18 de setembro de 2001 | 18h31

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