Para rever a obra intimista de Walter Hugo Khouri

A estratégia de começar uma retrospectiva de Walter Hugo Khouri ((1929- 2003) por seus últimos filmes é tão interessante quanto arriscada. Interessante porque, mesmo entre cinéfilos, Paixão Perdida e As Feras são seus filmes menos conhecidos. Arriscada, porque não figuram exatamente entre os melhores da filmografia do autor. O Khouri consagrado, apesar do conceito sujbetivo, é aquele de Noites Vazias e As Amorosas. Anos de consenso e revisão os apontam como aqueles momentos em que o diretor melhor conseguiu levar a cabo seu projeto. Porque se pode dizer o que for de Khouri, menos que filmasse aleatoriamente, ao sabor de inspiração do momento ou de conveniências políticas ou de mercado. Filmava da melhor maneira possível - isto é para se entender e entender o mundo. É uma démarche própria de artista, seja ele cineasta, escritor, músico ou pintor. Faz primeiro para si mesmo, sem nunca esquecer que aquilo - livro, tela, música ou filme - só se completa no destinatário, no público, mas este nunca é visado de forma direta. Quer dizer, Khouri é um autor, no melhor sentido do termo. Tinha suas idéias, suas obsessões, e as perseguia. Escrevia, escolhia elenco, dirigia, participava, ao máximo possível, do ciclo completo dessa arte coletiva que é o cinema. Paixão Perdida e As Feras, lançados em 1999 e 2001, respectivamente, eram antigos projetos. No primeiro, reaparece Marcelo, o personagem problemático de Khouri, que tendemos a interpretar como seu alter ego. Aparece, na verdade, em dose dupla, Marcelo e Marcelinho, pai e filho, dando corpo, ainda uma vez, a esse tema preferencial de Khouri - a rivalidade masculina diante da mulher. Já As Feras foi um trabalho que se arrastou por anos, e teve de enfrentar problemas com a produção, entre outros contratempos. Khouri já falava desse comentário sobre a Lulu de Wedekind no início dos anos 90. Só veio a concretizá-lo no final da década, uma produção atormentada que se reflete no resultado. É interessante comparar esses filmes com os "canônicos" Noite Vazia e As Amorosas, segundo uma escolha pessoal. Noite Vazia é um daqueles filmes felizes, destinados a ficar, até mesmo por seu título, cheio de sentido. De fato, em meados da década de 60 (é de 1964), Khouri buscava compreender a alienação da metrópole a partir de dois amigos que buscam mecanicamente uma noite de sexo. Na época, ficaram famosas as cenas ousadas de Gabriele Tinti e Mario Benvenutti contracenando com Odete Lara e Norma Bengell. Hoje tudo parece inocente, e fica o que realmente conta: um retrato em preto-e-branco cheio de rigor de São Paulo e seus habitantes desencantados. Essa linha de pesquisa estética sobre a alienação poderia ter se somado, com lucros, à do cinema político, que então prevalecia nos meios "cultos". O que houve foi uma separação irredutível, mais uma dessas oportunidades perdidas pela cultura brasileira, que, sabe Deus, não pode se dar a esse tipo de luxo. De qualquer forma, sempre é bom sonhar com um país onde Glauber Rocha e Walter Hugo Khouri poderiam trocar idéias civilizadamente. Como isso não se deu, pelo menos em níveis razoáveis, Khouri fez As Amorosas, filme brilhante que, entre outras coisas, defende, pela boca do personagem de Paulo José, seu direito aos assuntos de foro pessoal. Era um recado, avant la lettre, para as "patrulhas ideológicas" (a expressão ainda não fora cunhada por Cacá Diegues) e afirmação de uma individualidade. Que se sedimentou ao longo de toda uma carreira, com seus momentos melhores e outros nem tanto. Mostra Walter Hugo Khouri - Quarta, "Encontrando Marcelo"/ 2004, de Sérgio Martinelli. Quinta, "As Feras"/2001. Sexta, "Paixão Perdida"/99. Sábado, "Paixão e Sombras"/77. Domingo, "As Amorosas"/68. De quarta a sábado, às 20h30; dp,omgp, às 19h. Grátis - retirar senha com uma hora de antecedência. MIS - Auditório. Av. Europa, 158. Jd. Europa, tel. 3062-9197. Até 30/5.

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