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Para refletir sobre o que virou o caso 'Aquarius'

O que pode estar em jogo na comissão que vai apontar candidato do Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2016 | 16h00

Reúne-se amanhã à tarde, na sede da Cinemateca Brasileira, na Vila Clementino, em São Paulo, a comissão que vai escolher o candidato do Brasil para concorrer a uma vaga no Oscar. Volta e meia tem havido polêmica nessas comissões. Anos atrás, uma revista deu-se mal ao tentar desmascarar a farsa que teria montada para garantir que determinado filme – Abril Despedaçado, de Walter Salles – fosse escolhido. Este ano, a atividade da comissão vem sendo colocada em xeque por um motivo rigorosamente inverso – desde que um de seus integrantes se manifestou contra o filme de Kleber Mendonça Filho Aquarius, há suspeita de que a comissão vá descartar o longa nacional que virou emblema dos protestos contra o agora presidente efetivo, Michel Temer.

Vamos logo esclarecendo que a comissão é formada por gente de idoneidade reconhecida. Por que, então, a suspeita? Tudo começou em maio. Aquarius integrou a seleção do Festival de Cannes, o maior do mundo. No País, iniciou-se o processo que culminou, depois, com o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef. A equipe de Aquarius aproveitou a visibilidade – o festival é um dos eventos mais midiatizados do mundo –para protestar nas escadarias do ‘palais’. Há todo um protocolo a seguir no tapete vermelho de Cannes. O diretor Mendonça Filho, a produtora Emilie Lesclaux e os atores (Sonia Braga, Maeve Jinkins etc) atropelaram esse protocolo e sacaram cartazes com palavras de ordem do tipo – “Um golpe está acontecendo no Brasil.” As imagens foram exportadas para o mundo todo e, na sequência, a coletiva de Aquarius virou, pelo menos parcialmente, um acontecimento político.

Começou ali, também, por parte do governo, uma série de trapalhadas na área da cultura. O presidente, que ainda era interino, ameaçou extinguir o Ministério da Cultura, e voltou aterás. Interveio na Cinemateca Brasileira, e voltou atrás. A todas essas, no quadro de polarização que dividia a sociedade brasileira, as redes sociais passaram de apoio e repúdio ao que o diretor Mendonça Filho definiu como ‘um gesto’, não propriamente um protesto, de sua equipe (e dele próprio). Aquarius foi selecionado para inaugurar o Festival de Gramado, em agosto – e Sonia Braga recebeu o Troféu Oscarito por sua extraordinária carreira. Houve réplica e tréplica. Os desafetos do diretor o acusaram de haver colocado o filme fora de concurso – como parte da homenagem a Sonia – por medo de ser desqualificado pelo júri. Nesse quadro, estourou como uma bomba a impropriedade do filme até 18 anos.

Mendonça Filho protestou que era perseguição deliberada para prejudicar a carreira comercial de Aquarius. Recebeu diversos apoios, e o que fez o governo? Recuou, como tem recuado, e a impropriedade ficou em 16 anos. Toda essa exposição transformou Aquarius numa espécie de manifesto. Em Gramado, a exibição foi precedida de gritos de ‘Fora, Temer’, que prosseguiram durante todo o festival. Efetivado o impeachment, empossado o presidente, o filme, já estreado – em 89 salas, em 1.º de setembro –, seguiu no centro do furacão. No primeiro fim de semana, faturou mais de 50 mil espectadores e com a média de 600 espectadores por sala se converteu na segunda maior bilheteria brasileira do ano, atrás somente de Os Dez Mandamentos, sobre o qual pesa a suspeita de fraude – os ingressos massivamente vendidos, as salas teoricamente lotadas chocavam-se com as imagens dos cinemas vazios, ou quase.

Para a segunda semana, e com o circuito aumentado para 110 salas – o público da primeira semana ficou em 95 mil espectadores –, Aquarius não apenas teve casas lotadas como passou a ser aplaudido em cena aberta e no final das sessões, quando o grito de guerra de ‘Fora, Temer’ colou definitivamente ao filme. Neste domingo, 11, Aquarius estreia na mostra Contemporary World do Festival de Toronto e Sonia Braga, na sequência, terá um encontro com o público na série In conversation with... Ela será uma das sete personalidades do cinema beneficiadas por esse tipo de tratamento no evento canadense, considerado vitrine do Oscar. Nas próximas duas semanas, Aquarius estará estreando na Bélgica, na Suíça e na França. Nos EUA, estreia em 14 de outubro, com direito a abertura solene dia 13 no Angelika Film Center, de Nova York.

E na segunda (amanhã), às 2 da tarde, aqui em São Paulo, Aquarius estará disputando com outros 15 filmes a indicação brasileira para o Oscar (leia a lista completa abaixo). Diretores importantes, como Gabriel Mascaro, de Boi Neon, e Anna Muylaert, de Mãe Só Há Uma, anunciaram que estavam retirando seus filmes da disputa em solidarierdade, ou respeito, ao filme de Kleber Mendonça Filho, reconhecendo sua superioridade. Criou-se uma situação de fato, e de direito – se Aquarius vencer, alguém sempre poderá objetar que a comissão foi pressionada (pelo clamor dos cinemas: que outro filme da lista é aplaudido desse jeito?); se perder, sempre haverá a suspeita de tramoia para desqualificar Aquarius, não importa em favorecimento de quem. Agora é o crítico falando. Não há filme como Aquarius na lista.

CONCORRENTES

A Despedida, de Marcelo Galvão

Mais Forte que o Mundo, de Afonso Poyart 

O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum 

Pequeno Segredo, de David Schurmann 

Chatô - O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes 

Uma Loucura de Mulher, de Marcus Ligocki Júnior

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho 

Nise - O Coração da Loucura, de Roberto Berliner 

Vidas Partidas, de Marcos Schetchman 

O Começo da Vida, de Estela Renner 

Menino 23: Infâncias perdidas no Brasil, de José Belisario Cabo Penna Franca 

Tudo que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado

Campo Grande, de Sandra Kogut 

A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade  

Até que a Casa Caia, de Mauro Giuntini

O Roubo da Taça, de Caito Ortiz 

 

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