Para maias, novo filme de Gibson os retrata como selvagens

Assim como seu épico sangrento sobre a morte de Cristo, a nova produção de Mel Gibson, Apocalypto, que fala sobre o colapso da civilização Maia, está irritando membros desta cultura, mesmo antes da estréia.O filme A Paixão de Cristo foi acusado por algumas pessoas de ser anti-semita - muito antes do rompante de Gibson contra um policial judeu em Malibu.Agora, ativistas do setor indígena da Guatemala, que abrigou grande parte do império Maia, construtor de cidades elaboradas nas selvas do sul do México e da parte norte da América Central século atrás, dizem que Apocalypto é racista. Representantes de Gibson não se manifestaram sobre o caso.AcusaçõesFoi exibido na Guatemala o trailer de Apocalypto, que será lançado na sexta-feira nos Estados Unidos, mas líderes dizem que as cenas mostrando maias amedrontadores, com adornos de ossos, lanças e sacrificando humanos promovem estereótipos em relação à sua cultura."Gibson reproduz, em Technicolor com grande orçamento, uma noção ofensiva e racista de que o povo maia era bruto entre si muito antes da chegada dos europeus e que por isso merecia, de fato precisava, de resgate", disse Ignacio Ochoa, diretor da Fundação Nahual, que promove a cultura maia.No seu auge, os maias construíram grandes cidades na região Peten, na Guatemala, mas a civilização entrou em declínio depois do século 8. Algumas pessoas dizem que o motivo foi o abuso dos recursos naturais.A cultura maia não é considerada tão violenta como a do império Azteca, seu vizinho, mas alguns arqueólogos dizem que os sacrifícios humanos eram comuns nos anos antes da conquista espanhola.Mais da metade da população da Guatemala descende dos maias originais. Eles enfrentam discriminação frequente e a maioria vive na pobreza, com pouco acesso a educação e a serviços sociais.IrrealMais de 200 mil pessoas, a maioria maias, foram mortas durante os 36 anos de guerra civil na Guatemala, que terminou há uma década. Alguns grupos de direitos dizem que o Exército tentou eliminar os maias.Lucio Yaxon, ativista maia dos direitos humanos, de 23 anos, disse que o trailer do filme é irreal."Basicamente o diretor está dizendo que os maias são selvagens", disse Yaxon, que fala Kaqchikel, um dos 22 idiomas maias, bem como espanhol.Mas Richard Hansen, arqueólogo que Gibson consultou para fazer o filme, afirma que o diretor tentou garantir autenticidade e precisão histórica.O filme é falado em Maia Yucatec e a estrela é um dançarino de origem indígena dos Estados Unidos chamado Rudy Youngblood. O uso de atores indígenas recebeu elogios de grupos latinos e indígenas nativos dos EUA."Estou um pouco apreensivo sobre como os maias vão reagir", disse Hansen, que dirige um projeto arqueológico no norte da Guatemala. "Mas Gibson está tentando fazer uma manifestação social."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.