DIVULGAÇÃO
DIVULGAÇÃO

Para especialista, longa de cunho racista tem importância histórica

Professor Melvyn Stokes destaca 'O Nascimento de uma Nação' pela contraofensiva dos movimentos negros

Entrevista com

Melvyn Stokes

João Villaverde / BRASÍLIA, O Estado de S. Paulo

29 Março 2015 | 03h00

A base para os movimentos populares de luta pela afirmação dos negros nos Estados Unidos é a manifestação organizada em diversas capitais americanas há 100 anos, como reação ao lançamento nos cinemas de O Nascimento de uma Nação. Essa é a tese do professor inglês Melvyn Stokes, um dos maiores especialistas em história social do cinema do mundo.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Stokes, que é doutor e professor da Universidade de Londres, afirmou que o filme tem uma importância histórica inigualável, não apenas por seus feitos dentro da arte (ter sido o início do domínio de Hollywood sobre o mundo), mas principalmente por conta da contraofensiva dos movimentos negros.

"Em Boston, naquele ano, houve uma grande manifestação popular, que aumentou a conscientização da sociedade sobre o problema do racismo. Isso por causa de um filme! Foi o início da luta negra nos EUA, que evoluiria até o auge, 50 anos mais tarde, com o movimento liderado por Martin Luther King", disse Stokes.

Stokes contou também que o filme fez muito sucesso na América Latina, apesar do racismo do longa, porque tratava-se de um grande acontecimento cultural.

Leia a seguir a entrevista concedida ao Estado por telefone.

Como "O Nascimento de uma Nação" chega aos 100 anos?

Ter um presidente negro na Casa Branca, neste momento, mostra o quanto a sociedade americana e mundial avançou nesse último século. Quando o filme foi lançado, em 1915, ele foi exibido dentro da Casa Branca, para o então presidente Woodrow Wilson, que era branco e integrante da elite americana. As coisas mudaram muito e o cinema, com os avanços técnicos criados naquele momento, e a própria polêmica que tomou o filme, ganhou a forma como ele é percebido até hoje.

A Netflix americana colocou o filme a disposição dos assinantes, no início desse ano, e as reações nas redes sociais foram muito grandes. Até hoje o filme é muito criticado.

Onde ele é exibido há grandes manifestações. Em 2004, um cinema em Los Angeles informou que exibiria o filme. Houve ameaças anônimas de que o local seria queimado se o filme fosse exibido. Quando ele entrou na lista de filmes de importância histórica e que deveriam ser guardados na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em 1992, também houve enorme revolta. Isso é natural, porque o filme é, de fato, extremamente racista. É muito difícil dissociar a importância que ele tem para o cinema mundial e para Hollywood, em particular, por seus avanços técnicos e de linguagem, da questão do racismo. Os americanos até hoje convivem com questões sociais muito complexas.

O lamentável episódio de Ferguson é um exemplo, não?

Exatamente. Os crimes de ódio racial, como o policial branco que assassinou o jovem negro em Ferguson no ano passado, ainda existem por lá. Então nesse contexto, apesar dos avanços, uma exibição de O Nascimento de uma Nação é sempre algo delicado.

Como o filme foi recebido em 1915?

De duas formas: havia uma sensação geral de que se tratava de um grande acontecimento cultural, porque ele é o primeiro grande longa metragem nos Estados Unidos e isso é inegável. Mas foi igualmente importante a manifestação contrária ao filme. Houve muitos, muitos tumultos. Em Boston, naquele ano, houve uma grande manifestação popular, que aumentou a conscientização da sociedade sobre o problema do racismo. Isso por causa de um filme! Foi o início da luta negra nos EUA, que evoluiria até o auge, 50 anos mais tarde, com o movimento liderado por Martin Luther King.

A primeira grande polêmica da história do cinema, então?

Exatamente. Griffith usou todas as técnicas que ele mesmo tinha desenvolvido nos anos anteriores e incorporou muitos avanços do cinema italiano e francês, que tinha sido dominante do momento em que o cinema foi criado, em 1895, até justamente 1914, um ano antes de O Nascimento de uma Nação, quando a Europa entra em guerra. O caminho estava aberto para o cinema americano e este filme foi o início. Se você assistisse ao filme em 1915 provavelmente seria em um grande teatro, em capitais grandes, com uma orquestra completa interpretando a trilha sonora. Foi, aliás, o primeiro filme americano a ter uma trilha própria. De repente, o cinema estava virando arte. O público foi completamente atiçado pelo filme. Mas, apesar de toda a importância, continuo vendo de forma muito crítica: o filme é muito racista.

Ele já tinha feito mais de 300 filmes naquele momento, antes de começar a fazer longas metragens. Depois de 1915, ainda faria 10 filmes longos. Nem antes e nem depois Griffith foi racista. O que explica "O Nascimento de uma Nação"?

STOKES: Griffith era um sulista, filho de uma família extremamente conservadora e rural, cheias de preconceitos. Seu pai foi combatente da Guerra Civil americana e a família sempre carregou a mágoa da derrota para o Norte. Griffith nasceu em 1875, era um homem do século XIX desenvolvendo uma arte que é por excelência do século XX. Em "O Nascimento de uma Nação" quis fazer um filme grandioso, histórico, e deu seu lado da história. A polêmica foi tão grande, dado o racismo, que ele tentou de alguma forma se desculpar. Seu filme seguinte, Intolerância (1916), seria isso.

Como foi a recepção no resto do mundo?

Ele saiu em meio à Primeira Guerra Mundial e na Europa, os soldados eram brancos e negros. Havia uma convivência que quebrou barreiras raciais. O filme foi proibido na França, inclusive. Somente seria lançado sete anos depois, em 1923, e mesmo então foi cercado de polêmica e manifestações. Na Alemanha ele também só chegaria na década de 1920. Na Inglaterra o filme saiu em setembro de 1915 e fez muito sucesso. Também foi assim na América Latina. No Brasil, o filme foi exibido para os muito ricos, com ingressos caros.

Mais conteúdo sobre:
Cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.