Stefano Rellandini/ Reuters
Stefano Rellandini/ Reuters

Para Amos Gitai, a pandemia exige uma reflexão sobre nosso modo de viver

'É normal se preocupar com os problemas imediatos mas, às vezes, em tempos de crise, é bom aproveitar o momento para tentar encontrar um pouco de perspectiva', argumenta o cineasta israelense

Agências, AFP

21 de maio de 2020 | 14h00

O diretor de cinema israelense, Amos Gitai, autor de filmes sobre extremismo e conflitos em seu país, enxerga a pandemia de coronavírus como uma "guerra contra um inimigo invisível" que exige uma "pausa" para repensar nosso modo de vida, contou em entrevista à AFP.

O cineasta estava em Nova York para exibir alguns de seus filmes no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) quando a pandemia de covid-19 começou a se espalhar da Ásia até a Europa e América.

Nascido em 1950 em Haifa (norte), dois anos depois da criação do Estado de Israel, o cineasta viveu várias guerras, entre elas a do Kippur em 1973. Foi ferido quando viajava em um helicóptero que foi atingido por um míssil sírio e ficou à beira da morte.

Deste trauma nasceu uma nova vocação artística para quem estava decidido a seguir os passos do pai e se tornar arquiteto: o cinema documental e de ficção.



 

Distância crítica

Amos Gitai faz parte dos 200 artistas e cientistas que assinaram a petição "Não à volta da normalidade", iniciada no começo de maio pela atriz francesa Juliette Binoche e que pede uma "revisão profunda dos objetivos, valores e das economias" de nossas sociedades e, principalmente, do capitalismo.

"É normal se preocupar com os problemas imediatos mas, às vezes, em tempos de crise, é bom aproveitar o momento para tentar encontrar um pouco de perspectiva", confessa Gitai, que se revolta com os excessos do capitalismo e do consumo exacerbado que, segundo ele, destroem o planeta.

"A primeira coisa é garantir uma boa saúde, mas é preciso se perguntar qual é a mensagem indireta deste vírus para a humanidade de um modo mais geral, por exemplo, a destruição do meio ambiente", opina.

No "mundo do depois", é preciso tentar não voltar aos modos de vida que "destroem a Amazônia" e os espaços verdes, continua. "É preciso manter o ânimo e as boas energias, pois precisaremos quando as coisas retomarem seu rumo".

O cineasta está tentando se manter "produtivo" durante o confinamento e trabalha em um livro, exercício que o silêncio e a ausência de mobilidade impostos favorecem, segundo ele. Também lê e, mesmo estando confinado na França, de onde não conseguiu voo para Israel, acompanha assiduamente a atualidade de seu país.

Amos Gitai mantém relações conflituosas com as autoridades israelenses, especialmente com a direita política. Em setembro de 2018, criticou o governo de Benjamin Netanyahu por considerar, segundo o diretor de cinema, que a "cultura é propaganda". Com a permanência do primeiro-ministro no poder pelo governo de união aprovado no domingo, teme pela "sociedade aberta" israelense e suas instituições.

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