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Paolo Virzi volta-se para o próprio passado para alimentar a ficção de 'Noite Mágica'

O diretor investiga os bastidores do cinema italiano, que conhece tão bem. Nele, um importante produtor é assassinado e três jovens roteiristas são suspeitos do crime.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 03h00

Pode ser que a expressão carregue alguma força negativa e seja considerada incorreta. “Fare il nero”, fazer o negro, a sombra. Paolo Virzi chegou muito jovem a Roma, querendo viver o sonho do cinema. Havia acompanhado de longe, de Livorno, o apogeu, conheceu a decadência dos maestros. Foi fazer o negro para Dino Risi, uma espécie de escritor fantasma do grande nome da comédia italiana. “Estava cheio de entusiasmo, o idealismo da juventude, você sabe. E Dino tinha um prazer sádico em destruir meus sonhos. Dizia para Vittorio (Gassman), para Ugo (Tognazzi) – ‘Esse garoto vai apanhar muito, se continuar acreditando na ilusão do cinema.’ Era um gênio, Dino.”

Paolo Virzi conversa pelo telefone – mais uma vez – com o Estado. Da última vez, estava no interior dos EUA, filmando Ella e John. Agora é para falar de Noite Mágica, que integra a programação da 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Como já vem se tornando tradição, o Festival Varilux do Cinema francês encerra o primeiro semestre e o segundo começa enfileirando uma sucessão de outras manifestações cinematográficas nacionais – temáticas? Na sequência do Festival Latino, até quinta, começa no domingo o Festival de Cinema Judaico, que engrena com a Mostra Árabe e a Festa 8 ½ do Cinema Italiano. São Paulo, capital da diversidade.

A ‘festa’, de 8 a 14 de agosto, deve trazer à cidade Marco Tulio Giordana para apresentar a versão restaurada de O Melhor da Juventude. As atrações estão listadas abaixo. O filme de Paolo Virzi integra a seleção de inéditos. O diretor investiga os bastidores do cinema italiano, que conhece tão bem. Um importante produtor é assassinado. Três jovens roteiristas são suspeitos do crime. Teriam usado sua ‘expertise’ como escritores para tentar o assassinato perfeito. Giancarlo Giannini faz o produtor, os estreantes Mauro Lamantia, Giovanni Toscano e Irene Vetere formam o trio. “Era absolutamente necessário que os protagonistas fossem desconhecidos do público. Fizemos um casting intenso. Os garotos vieram de escolas e grupos de teatro; ela, do liceu.” E Giannini? “Giancarlo é um grandíssimo ator, e para falar a verdade virou um sobrevivente no cinema italiano. Seus grandes filmes com La Wertmüller pertencem à história dos anos 1970. Trabalhou com (Luchino) Visconti em seu último filme, O. Seria um típico papel para Gassman, Tognazzi, mas já se foram. Um personagem maior que a vida exige um ator capaz de expressar a desmedida.”

Virzi ou o próprio Giannini basearam-se em produtores de verdade para criar o personagem? “O filme está inspirado em muitas lembranças minhas, e dele. Foi divertido voltar-me para memórias de juventude, para um cinema que não existe mais.” O produtor tem algo a ver com figuras lendárias como Carlo Ponti, ou Dino De Laurentiis? Além de terem forjado impérios no cinema italiano, foram casados com estrelas do porte de Sophia Loren e Silvana Mangano? “Nada que mereça ser destacado especificamente, mas, sim, eu diria que nossa observação, de Giancarlo e minha, impregnou o filme. As cenas estavam escritas e, às vezes, na hora de filmar, Gian me dizia ‘Você se lembra, Paolo?’ E desfiava alguma história interessante que valia resgatar. Mas você está reduzindo muito o arco de possibilidades. Silvio Clementelli, Mario Cecchi Gori, Goffredo Lombardo, que herdou o império herdado do pai, Gustavo, a Titanus, que produziu os maiores filmes de Visconti. Tivemos grandes diretores, figuras míticas na Itália, e o filme, mesmo quando quer ser crítico do personalismo e autoritarismo dos grandes produtores, também respira uma espécie de nostalgia. Porque esses homens, por mais negociantes que fossem, tinham paixão pelo negócio e sabiam estar lidando com grandes artistas.”

As mudanças no cinema viram o tema da conversa. Justamente no dia da entrevista – por telefone – havia saído a lista dos filmes que compõem a competição da Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza, da qual, este ano, Paolo Virzi é jurado. “Teremos uma competição forte, cheia de grandes diretores. Roman Polanski, Olivier Assayas, James Gray, Hirokazu Kore-eda. O festival disponibiliza que a gente comece a ver os filmes antes. O clima de um festival é sempre muito agitado, muito intenso.” E a representação italiana? “Teremos novos filmes de Mario Martone, que vocês certamente já conhecem no Brasil, e também de Pietro Marcello e Franco Maresco, que podem ser menos conhecidos, mas muito interessantes.” O júri será presidido por uma mulher, Lucrécia Martel. Qual é a expectativa de Virzi? “Lucrecia fez La Ciénaga, O Pântano, que é um grande filme. Você viu Loucas de Alegria. Gosto muito da energia das mulheres. Creio que teremos uma temporada gostosa em Veneza.”

Diretor Marco Tulio Giordana vai fazer masterclass em SP

Foi em 1995, quando se completavam 20 anos do assassinato de Pier Paolo Pasolini, que Marco Tulio Giordana fez seu longa Pasolini, Um Crime Italiano. Em 2000, com Os 100 Passos, reconstituiu outra tragédia italiana, a luta de um jovem político siciliano contra a Máfia. Três anos mais tarde, já como um grande do cinema de seu país, dirigiu A Melhor Juventude.

O filme com Luigi Lo Cascio e Alessio Boni segue dois irmãos na conturbada Itália dos anos 1960 aos 2000. Ideais revolucionários, terrorismo, a crise da esquerda, a ascensão da direita. 

Adhemar Oliveira adquiriu os direitos para sua distribuidora Arteplex lançar nos cinemas a versão restaurada. Segundo ele, o filme tem tudo a ver com o momento brasileiro. O Melhor da Juventude não apenas integra a seleção da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. Giordana virá a SP e, em 7 de agosto, ministra masterclass, cujo local ainda está sendo acertado. Fique atento. / L.C.M.

 

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