Pantaleão e suas visitadoras ocupam os cinemas

Apaixonado por cinema e futebol, o diretor peruano Francisco Lombardi vive dias difíceis. Em plena Copa do Mundo, está rodando seu 12.º longa-metragem. Tem ainda três semanas de filmagem pela frente e nenhuma esperança de assistir aos jogos que restam. O novo filme entrelaça seis histórias diferentes e se passa durante a derrubada do governo Fujimori, embora nenhuma delas tenha relação direta com o episódio. É a segunda realização do diretor depois de Pantaleão e as Visitadoras, que estréia nesta sexta-feira nos cinemas de São Paulo e do Rio. Quem quiser conhecer melhor a obra do cineasta, pode recorrer também à retrospectiva que está sendo exibida dentro do Cinesul, no Centro Cultural Banco do Brasil, até domingo.Adaptado do romance homônimo do escritor peruano e Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, foi o grande vencedor do Festival de Gramado de 2000, tendo conquistado sete prêmios, incluindo os de melhor filme pelo júri, pela crítica e pelo público. O mesmo romance havia sido adaptado para o cinema em 1975, sob o patrocínio do próprio Vargas Llosa, que atuou como co-diretor em parceria com o cineasta espanhol José María Gutiérrez. Tanto o escritor quanto Lombardi consideram essa primeira versão frustrante sob todos os pontos de vista.Pantaleão e as Visitadoras ganhou contornos de comédia dramática na nova versão. Sustenta-se em um dilema moral. O Exército peruano decide criar um serviço de prostituição para os soldados a fim de dar um basta ao alto índice de estupros nas zonas militarizadas, e coloca seu melhor oficial para cuidar do assunto. Militar exemplar e burocrata de primeira, Pantaleão Pantoja (Salvador del Solar) contrata a antiga cafetina local (Pilar Bardem), converte as prostitutas em "visitadoras" e otimiza administrativamente o serviço. Sua ruína é La Colombiana (Angie Cepeda), uma morena de formas generosas por quem acaba se apaixonando.Contorno dramático - Lombardi foi convidado a adaptar Pantaleão e as Visitadoras por uma emissora de televisão peruana. O programa faria parte de uma série sobre literatura latino-americana. A natureza epistolar do romance era um dos obstáculos mais difíceis de superar na sua opinião. À medida que avançava no trabalho de adaptação, no entanto, o diretor viu que poderia ir além de um telefilme. "O livro é uma troca de cartas formais entre Pantaleão e seus superiores, o que resulta em um humor peculiar e cheio de ironia", diz, por telefone, de Lima, em um dos raros intervalos da rodagem de seu novo filme. "Ele é um homem obcecado pelo trabalho de militar e incapaz de fazer qualquer outra coisa. Esse contorno dramático da história me pareceu mais interessante do que a paródia."O filme foi um sucesso de grandes proporções no Peru e em alguns países da América Latina, como o Chile. Em 2000, ano de sua estréia peruana, foi o campeão de bilheteria do ano, com 740 mil ingressos vendidos. A título de comparação, no ano anterior, o arrasa-icebergs Titanic atraiu 900 mil pessoas aos cinemas do país. E, no ano posterior, outra grande produção americana,O Sexto Sentido, ficou em primeiro lugar. A passagem pelos cinemas chilenos também foi digna de nota. "Ficamos seis meses em cartaz nas salas de lá", enumera. "E em primeiro lugar nas bilheterias."A razão dessa popularidade? Sem considerar a boa adaptação, Lombardi aponta para o fato de ser um filme simples e de contar com dois astros das novelas de televisão latinas, o peruano Salvador del Solar e a colombiana Angie Cepeda. Esta última, especialmente, é apontada pelo diretor como um dos principais combustíveis desse sucesso. E as razões saltam aos olhos assim que ela ocupa a tela com seus contornos atraentes e sensuais. "Cheguei a ela por meio dos noticiários", conta ele. "Havia lido que ela estava cansada de fazer novelas, que queria desafios diferentes. Quando a encontrei, propus o papel. No início, ficou um pouco ressabiada com a necessidade de fazer nus e tudo mais. Mas depois que viu meus filmes, ficou mais tranqüila."É a segunda vez que Lombardi adapta uma obra de Mario Vargas Llosa. O primeiro foi La Ciudad y Los Perros (1985), que projetou a carreira do cineasta tanto no Peru como em âmbito internacional. Segundo o diretor, La Ciudad y Los Perros foi o romance que despertou seu interesse pela literatura. "Eu lia alguns livros por obrigação", disse. "Mas quando li esse, aos 16 anos, descobri a literatura. Descobri que era algo muito próximo da minha vida. Apaixonei-me. Por isso, virou minha referência literária." Essa identificação, no entanto, vai um pouco além das descobertas juvenis. Lombardi aponta o humanismo e o desprezo pela hipocrisia do poder militar como pontos de intersecção mais fortes com Vargas Llosa. "Mario é um libertário por natureza", elogia.A paixão pelo futebol Lombardi desenvolveu ao longo de sua vida. Chegou a ser presidente do Sporting Cristal, um dos principais clubes de Lima, de 1993 a 1997. Até o fim de 2001, fazia parte da diretoria do time. Decidiu abandonar o cargo depois de perder a final do último campeonato. "Havia prometido a mim mesmo que se não ganhássemos, eu me retiraria", contou. "É um misto de frustração e de abrir espaço de tempo para os meus projetos de cinema."Quanto à Copa, Lombardi estava torcendo pela Argentina, por ser, como ele mesmo disse, "comprometido com a forma como o técnico Carlos Bielsa arruma seu time". Por isso, sentiu-se frustrado com a eliminação dos co-irmãos latino-americanos. "Times como a Itália (já eliminada pela Coréia) de Trapattoni, que jogam se defendendo, foram beneficiadas pela sorte", lamentou, em entrevista exclusiva. "O Brasil de Scolari não faz muito meu estilo, mas estou gostando de ver Ronaldo (o Fenômeno) melhorando a cada jogo."

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