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Panorama francês por seus novos nomes

Ciclo que vai até domingo exibe as mais recentes tendências do país

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2010 | 06h00

A nova onda deu notoriedade instantânea a diretores como Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, para citar apenas três anos. Chabrol morreu este ano; Godard completa 80 anos em 3 de dezembro. Estão saindo em DVD Viver a Vida, considerado um dos maiores filmes de Godard, um estudo em 12 quadros sobre a prostituição, interpretado pela então mulher do cineasta, Anna Karina; e também Nas Garras do Vício, Le Beau Serge, primeiro longa realizado por Chabrol.

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Godard e Chabrol foram críticos antes de virar cineastas. O primeiro foi sempre mais radical na defesa do cinema de autor, mas até Chabrol, na sua fase mais comercial, cunhou uma expressão para definir o que fazia. Não importa o que, mas importa como. Ou seja - ele podia fazer qualquer tipo de filme, mas o faria de seu jeito e, por isso, mesmo em seus filmes mais comerciais ele nunca deixou de ser autoral, e quase sempre (sempre!) crítico em relação à burguesia de província. Os novos diretores que integram o ciclo na Cinemateca representam tanto o cinema comercial quanto o autoral. São quatro filmes, três deles assinados por mulheres.

Uma delas já está virando veterana em festivais - Mia Hansen-Love. Ela tinha 18 anos quando o cinema irrompeu em sua vida, pela mão de Olivier Assayas, que lhe deu um papel em Fin d’Aout, Début Septembre. Dois anos depois, o papel foi maior em outro filme de Assayas, Les Destinées Sentimentales. A união não foi apenas artística. Passaram a viver juntos. Vale para Assayas o que Patrice Leconte dizia de François Truffaut - ele fazia filmes para dar vazão a seu amor pelas mulheres e também para ir para a cama com algumas de suas atrizes favoritas. Leconte não diz isso com maledicência, é a própria biografia de Truffaut que o confirma. Assayas, antes da união com Mia Hansen-Love, foi casado com Maggie Cheung e ela estrelou alguns de seus melhores filmes (Irma Vep e Clean).

Tout Est Pardonné, Tudo Perdoado, foi o primeiro longa de Mia, em 2007. O filme foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes. Dois anos depois, veio Le Père de Mes Enfants, O Pai de Meus Filhos, com o qual Mia foi indicada para diversos prêmios César, o Oscar francês (e ganhou alguns). Mia adora tratar de relacionamentos. Tudo Perdoado mostra um homem que vive com a mulher e a filha em Viena. Ele é um pai dedicado e marido apaixonado, mas tem um problema. É drogado. O casamento desmorona e o personagem de Paul Blain se envolve com uma junkie.

Talvez não seja mera coincidência. Três anos antes que Mia fizesse seu filme vencedor do Prêmio Louis Delluc, Assayas já havia contado, em Clean, a história de uma mãe drogada - e Maggie Cheung recebeu o prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel. Relações familiares também estão no centro de A Cabeça de Mamãe, de Carine Tardieu, sobre garota que vive com a mãe. Ela é depressiva crônica, sempre envolta numa espécie de melancolia. Um dia a garota descobre uma foto da mãe quando jovem e ela está exuberante, sorridente, ao lado de um homem. A protagonista cai no mundo atrás dele, convencida de que só sua volta poderá mudar o comportamento da mãe. Chloe Coulloud e Karin Viard são as intérpretes dos papéis, mas também está presente Jane Birkin, que já esculpiu uma lenda pessoal como cantora e atriz. Ex-mulher de Serge Gainsbourg, ela foi premiada em Cannes pelo papel difícil em Anticristo, de Lars Von Trier.

Os outros dois filmes que integram a programação são - Nas Cordas, de Magaly Richard-Serrano, com Richard Anconina e Maria de Medeiros, sobre treinador de boxe que ensinou o esporte para a filha e a sobrinha, desde que eram pequenas, e 7 Anos, de Jean-Pascal Hattu, sobre mulher cujo marido vai preso. Durante anos, ela o visita. Carente, deixa-se seduzir por estranho - e o amante é justamente um guarda da penitenciária. Forma-se um triângulo. Um quarto personagem é o sobrinho da protagonista, interpretada por Valérie Donzelli, um garoto que tem especial interesse por caixas de fósforos. O filme é sobre afetos desencontrados - e o direito que uma mulher delega aos homens de ser ferida por eles. É no mínimo curioso que, numa programação tão marcada por mulheres, esse seja o único filme realizado por um homem.

Chabrol

De volta a Chabrol e Godard, que foram esses jovens talentos há 50 anos, pode-se dizer que ambos estavam mais preocupados em subverter códigos narrativos e apontar caminhos. O filme de Chabrol, sobre um jovem da cidade grande que volta para o interior e encontra o melhor amigo em processo de degeneração pelo alcoolismo, trata de uma transferência de salvação. É considerado o filme ‘cristão’ de Chabrol e dialoga com A Sombra de Uma Dúvida, de Alfred Hitchcock. Viver a Vida de alguma forma também dialoga com O Martírio de Joana d’Arc, de Carl Theodor Dreyer. É o filme que faz a prostituta, Naná, chorar. Ao fazê-lo, ela revela sua alienação diante da própria condição. Naná acredita que é possível vender o corpo sem perder a alma. Esse engano vai lhe custar caro.

Novo Cinema Francês - Hoje, 18h30, A Cabeça de Mamãe, de Carine Tardieu; 20h30, Nas Cordas, Magaly Richard-Serrano.Cinemateca Brasileira. Largo Senador Raul Cardoso, 207, 3512-6111. R$ 8. Até 28/11.

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