"Pânico 3" encerra trilogia de Wes Craven

Wes Craven é um dos mais importantes diretores de fantasias de horror da atualidade. Adquiriu essa reputação depois que fez A Hora do Pesadelo, lançando Freddy Krueger, o criminoso de rosto derretido e unhas afiadas que irrompe nos sonhos de adolescentes para matá-los. Freddy deu origem a uma série e tornou-se um dos personagens emblemáticos dos anos 80, a década do pós-moderno, dos simulacros, que instituiu a praga do fake que até agora infesta o cinema. Craven conheceu novo e retumbante sucesso com Scream, que no Brasil se chamou Pânico. O terceiro filme da série estréia amanhã. Deve arrebentar nas bilheterias. A garotada adora a série Pânico. Horror com detalhes sanguinolentos e muito humor, essa é a fórmula. Pânico 3 passa-se em Hollywood durante as filmagens de Stab 3 - De Volta a Woodsboro, produção que levanta questões perturbadoras e, finalmente, esclarece os acontecimentos que sacudiram a calma dessa cidade, nos dois primeiros filmes. Os personagens estão todos de volta - Sidney Precott, interpretada por Neve Campbell, Gale Weathers (Courteney Cox), Dewey Riley (David Arquette), Parker Posey (Jennifer Jolie) e muitos outros. Toda a trama gira em torno da rodagem do filme.Sidney e Dewey não apenas se confrontam com os atores que os interpretam na tela como enfrentam o perigo real, quando surge o assassino de máscara. Numa entrevista por telefone para a reportagem, Wes Craven faz questão de dizer que sua trilogia não é caça-níqueis. Ele não fez o 2 porque o primeiro caiu nas graças do público jovem, nem o 3 só porque os dois anteriores viraram mania dos adolescentes de todo o mundo. "Pânico foi concebido desde o início como uma trilogia", diz o diretor. E acrescenta: "Essa é a parte realmente perturbadora; ela leva o público a conhecer a fundo a realidade atrás da realidade atrás da realidade: nada é o que parece ser".É a chave para se penetrar no universo de Pânico. A realidade por trás da aparência, o rosto por trás da máscara. Craven define o espírito da trilogia - "O primeiro filme estabelece as regras; o segundo, subverte as regras; no terceiro não existem regras - vale tudo". Na verdade, desde o primeiro filme, Craven e o roteirista Kevin Williamson (que assina a produção do 3) vinham subvertendo os clichês do gênero horror, tal como foram estabelecidos por produções como as das séries A Hora Do Pesadelo e Sexta-Feira 13, com o mascarado Jason.Sendo um filme dentro de um filme, qualquer um dos episódios de Pânico tem sempre alguém (diretor, roteirista ou crítico) para teorizar sobre os códigos de horror. Quem morre por que, essas coisas. O primeiro Pânico ironizava esses clichês. Dizia, por exemplo, que o moralismo próprio do gênero condena à morte adolescentes que fazem sexo ou usam drogas. O filme subvertia as próprias regras - a adolescente que fazia sexo com o namorado sobrevivia à matança. Subvertia num primeiro momento para segui-la depois, desta maneira deixando desnorteado o público, que não sabe mais o que esperar.No terceiro filme, não existem regras, mas coexistem elementos de outras famosas séries. As mortes de Halloween eram deflagradas por um garoto que cometia um assassinato, ia para um instituto psiquiátrico, saía e recomeçava a matar, escolhendo para vítima principal justamente a irmã. Esse conceito do irmão assassino é novamente fundamental em Pânico, sendo de ressaltar que só mesmo numa fantasia de horror Hollywood poderia tolerar tamanho desrespeito à unidade familiar, uma das regras básicas sobre a qual se assenta o edifício hollywoodiano.Como o diretor não se cansa de dizer, a série Pânico confirmou sua crença de que thrillers de horror ou suspense oferecem ótimas oportunidades para se desenvolver personagens. "Eles vão fundo na psicologia", diz o diretor, que acrescenta: "Os jovens de hoje possuem temores bem reais e específicos de sua geração; precisam encontrar alguma maneira de encarar e processar esses medos de forma lúdica e divertida". O que Craven nunca quis foi ficar preso na camisa-de-força do gênero. "Sempre achei que tinha capacidade para fazer outro tipo de filme; o problema era convencer os produtores". Craven tanto fez para convencê-los que conseguiu, por contrato, o direito de fazer, simultaneamente com a série Pânico, um filme de outro gênero completamente diferente - um melodrama. Dirigiu Música do Coração, que candidatou Meryl Streep ao Oscar de melhor atriz deste ano. Baseado numa história real, o filme tinha qualidades humanas surpreendentes num diretor de fantasias para assustar e Meryl estava realmente magnífica. Na entrevista, Craven disse que agora se considera livre para ousar (e voar). E garante: "Pânico 4 nem se o público exigir; o filme foi concebido como trilogia e, portanto, termina com o 3."

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