'Palma é o prêmio máximo', dizia Anselmo Duarte

Vencer no Festival de Cannes, segundo o ator e diretor, é como ganhar a Copa do Mundo

Luíz Carlos Merten e Luiz Zanin, de O Estado de S. Paulo,

07 de novembro de 2009 | 10h48

Em entrevista aos críticos de cinema de cinema do jornal O Estado de S. Paulo, Luíz Carlos Merten e Luiz Zanin, em 1997, Anselmo Duarte, que morreu neste sábado, 7, falou sobre sua ida a Cannes e relembrou o festival de 1962, quando O Pagador de Promessas, filme que dirigiu, recebeu a Palma de Ouro.     

 

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Confira abaixo a conversa entre os cineastas e os críticos:

 

Estado - Qual é a sua programação oficial em Cannes, na edição especial do 50° aniversário do festival?

Anselmo Duarte - Ainda não tenho a programação detalhada, mas sei que vou ficar lá de 9 a 13, a convite do festival, para participar da entrega da Palma de Ouro especial ao Bergman. Essa Palma é para ser entregue a um grande cineasta vivo que nunca recebeu o prêmio. Não premia um filme, mas um autor, um cineasta. E vai ser atribuída por todos nós que já recebemos o prêmio. Embora este seja o 50° festival, foram atribuídas somente 27 Palmas. Eu sei porque fiz a conta. Dessas 27 Palmas, só 18 diretores estão vivos, incluindo eu. Fomos os votantes para a Palma especial.

 

Como foi feito o convite para integrar esse júri?

Anselmo -Foi feito pelo delegado-geral do festival, Gilles Jacob, em outubro do ano passado, quando passei por Paris depois de haver participado do Festival de Biarritz. Durante todo esse tempo ficamos trocando correspondência. Era fax a toda hora para a minha casa. Jacob enviou uma relação de 11 possíveis nomes de vencedores para o prêmio especial. Entre outros ele sugeria Woody Allen, Bernardo Bertolucci, Milos Forman, Godard, Peter Greenaway e Alain Resnais, para quem eu dei o meu voto, mas o vitorioso foi mesmo o Bergman e lá em Paris eles divulgaram que ele ganhou por unanimidade. Não engoli muito bem essa história toda. Em primeiro lugar, achava que o vencedor do prêmio especial não devia ser necessariamente um cineasta vivo. Os mortos também deveriam entrar na votação, para receber o prêmio postumamente. Também não gostei muito de ele ter enviado uma lista de sugestões. Parece uma maneira de conduzir a premiação. Tudo isso eu falei para ele numa troca de fax.

 

Enfim, o vitorioso é Bergman, mas parece que ele não vai. Recebemos um telegrama de agência internacional no jornal dizendo que ele se recusa a abandonar sua ilha de Faro para ir a Cannes receber homenagens.

Tenho aqui uma cópia do fax que recebi do Jacob falando justamente isso. Ele esclarece que queria convidar oficialmente o Bergman, mas a informação vazou para um jornal de Estocolmo e o Bergman, quando soube, foi logo dizendo que está muito ocupado, sem tempo de ir a Cannes. Temos um problema que não sei como será resolvido, mas, de qualquer maneira, estarei lá dia 11 para a homenagem do festival aos premiados e a um grande que nunca recebeu o prêmio.

 

Como vitorioso, o que você acha da Palma de Ouro?

Não é porque eu ganhei, mas acho que é o maior prêmio de cinema do mundo. O Oscar tem mais cobertura da mídia, mas é um prêmio exclusivo do cinema americano. Em Cannes competem cinematografias do mundo inteiro. Tem um clima de Copa do Mundo. Quando voltei de Cannes com a Palma, desfilei em carro aberto e os locutores das rádios saudavam-me como se eu tivesse trazido mais um caneco para o Brasil.

 

Sua Palma, que seria motivo de alegria, trouxe-lhe muitos dissabores. A que você credita isso?

À inveja. Afinal, é o prêmio de cinema mais importante do mundo e eu ganhei. Outros tentaram chegar lá e não conseguiram. Então, usaram a influência que o Cinema Novo tinha na imprensa da época para esculhambar-me. Disseram que era um absurdo o prêmio sair para um filme tão acadêmico, insinuaram que eu havia vencido porque era namorado da Christiane de Rochefort, que na época era assessora de imprensa do festival e tinha considerável influência lá dentro.

 

Uma das histórias é que teria havido um impasse do júri entre concorrentes da França e da Itália, o que teria aberto o espaço para a vitória do seu filme.

Esse tipo de coisa eu só ouvi no Brasil. A imprensa dos demais países não explicou a premiação desse jeito. Disseram que havia concorrentes fortíssimos, que também poderiam ter vencido, mas que a vitória do Pagador era merecida. Era mesmo um ano excepcional, dos melhores da história de Cannes. Havia filmes do Buñuel, do Antonioni e do Robert Bresson, títulos como O Anjo Exterminador, O Eclipse e Le Proces de Jeanne DArc, mas, do que eu sei, se houve alguma divisão do júri foi entre o meu filme e o Electra, do Cacoyannis, que era um concorrente fortíssimo.

 

François Truffaut fazia parte do júri.

E eu protagonizei com ele um dos fatos que mais me marcaram. O Oswaldo Massaini, produtor do Pagador, fez eu entregar um presente ao Truffaut, um disco com músicas do Brasil, que ele havia levado para Cannes. Estamos no hall do hotel, ele vê o Truffaut e diz: "Vai lá, entrega para ele. " No impulso, eu fui e entreguei. O Truffaut ficou uma fera, perguntou se eu era concorrente, atirou o disco longe e disse que ele era jurado, que era uma coisa comprometedora. Eu fiquei desconcertado, sem saber o que fazer. Mas o Truffaut foi muito generoso. No dia seguinte, passa o Pagador, termina a sessão e quem eu vejo me fazendo o sinal positivo do polegar, dizendo que o filme era o máximo? Truffaut. Naquele momento eu tive certeza de que poderia ganhar.

 

Uma das coisas impressionantes da sua vitória em Cannes é que você parece que tinha certeza mesmo que ia ganhar. De onde veio isso?

A Cristhiane (de Rochefort) dizia para eu não ter grandes esperanças, que eu estava competindo com a nata do cinema mundial, que seria muito difícil vencer, mas eu acreditava no sucesso do Pagador. Anos antes, um filme do Dassin sobre um Cristo moderno, Aquele Que Deve Morrer, havia despertado polêmica no festival. Eu tinha essa coisa de querer vencer em Cannes, já tinha vivido na França, ia muito ao festival. Procurava um tema. Quando vi a peça do Dias Gomes, tive a certeza de que aquele era o meu material. Até hoje acho que fiz o filme certo. Se tivesse de refazer o Pagador, não mudaria nada.

 

Mas o filme teve duas versões. Pouca gente sabe, mas existe uma versão do Pagador feita para Portugal.

A diferença entre as duas versões é só um ator. Geraldo Del Rey faz o Bonitão na versão brasileira e o papel é interpretado por Américo Coimbra na portuguesa. Eu rodava com o Geraldo e depois repetia a cena, exatamente igual, com o Américo. É a única diferença. O resto é tudo igual.

 

Qual a versão exibida em Cannes?

A do Geraldo, claro.

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