Palm Springs faz balanço do cinema mundial

O Festival Internacional de Cinema de Palm Springs poderia ser apenas um entre tantos não fosse um significativo diferencial: há cinco anos, sua principal atração consiste na exibição dos candidatos a uma indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Assim, o primeiro festival de peso no cenário internacional, em sua 14.ª edição, patrocinado pela empresa de telefonia Nortel Networks, tem como cenário um reduto no deserto californiano para ricaços aposentados que, entre banhos piscinas e campos de golfe, podem começar o ano em contato com o melhor da produção internacional do ano anterior. Pelo menos teoricamente, já que subjetivos critérios de seleção de cada país podem prestigiar, sobretudo, filmes que supostamente teriam o poder de atingir com mais impacto o coração dos acadêmicos. Enquanto Sundance, Roterdã e Berlim, festivais que ocorrem entre janeiro e fevereiro, têm como missão iniciar a colheita dos melhores títulos do ano que se inicia, Palm Springs oferece revisão do ano que passou de olho na maior festa da indústria do cinema. O encerramento do festival de Palm Springs tem coincidido com a entrega do Globo de Ouro, o que também faz sentido, já que os dois eventos deságuam no Oscar. Este ano, dos 54 candidatos a uma indicação para o Oscar, Palm Springs exibiu 45. Ficaram de fora representantes da Argentina, Afeganistão, Líbano, Egito e Luxemburgo, entre outros. O motivo, segundo a diretora de programação Jennifer Stark, é apenas um: o não envio de cópias. Entre os 200 títulos distribuídos por várias mostras, o Brasil foi representado por cinco. Na seção principal, marcou presença com Cidade de Deus: na imprensa local e no boca a boca, entrou para o rol dos filmes que "têm de ser vistos", ganhou duas sessões extras e teve casa cheia (em cinema de mil lugares) numa sessão de perguntas com a co-diretora Kátia Lund no sábado. O diretor Fernando Meirelles estava em Los Angeles, preparando-se para a festa do Globo de Ouro. O Brasil ainda foi representado por Copacabana (Carla Camurati), Tainá (Sergio Bloch, Tania Lamarca), Dois Perdidos numa Noite Suja (Jose Joffily) e Janela da Alma (João Jardim e Walter Carvalho, que participou de seminário sobre fotografia). O sonho de ficar entre os "cinco nominados" mostra o elo que une os representantes de safra tão diversificada e que alinha filmes de orçamentos modestos de Chade, Argélia, Tunísia, Bangladesh, ao lado de megaproduções carregadas de efeitos especiais e exuberante direção de arte, como Índia, com Devdas, China com Hero (Zhang Yimour) e Itália com Pinóquio (Roberto Benigni), que entram na briga com os filmes mais caros já realizados em seus países. Pelo menos no caso da Itália, o orçamento não compensa - entre as poucas unanimidades da mostra destaca-se o fracasso do delírio de retorno à infância de Benigni, que transformou Pinóquio em um dos personagens mais irritantes da literatura infantil e já adaptados para o cinema. Na conquista do coração dos acadêmicos de Hollywood, todas as apostas são válidas - mas é evidente a opção por filmes com crianças e adolescentes - Chade, Bangladesh, Venezuela, País de Gales, Tunísia, Noruega -, sem falar nas crianças armadas de Cidade de Deus. Os dramas familiares também têm boa representação - presença do pai, ausência do pai, etc. Já o vácuo criado pela transição do comunismo para o capitalismo também conta com diversificadas abordagens pelo cinemas do Leste Europeu, e uma das mais interessantes vem da Romênia - a sátira de costumes Filantropica. Sem mostra competitiva, o Festival de Palm Springs tem apenas um prêmio oficial, concedido por uma representação de críticos (Bulgária, França, Estados Unidos, Canadá e Brasil) filiados à Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema). E o prêmio foi para a produção finlandesa Um Homem sem Passado, deliciosa fábula sobre a capacidade de um homem se reinventar, dirigido por Aki Kaurismaki e exibido nos festivais BR do Rio e São Paulo. O prêmio John Schlesinger para primeiro filme ficou com o israelense Broken Wings. Entre os preferidos do público não esteve nenhum filme latino-americano. Durante 12 dias, o festival que mobiliza mais de 70 mil pessoas e organiza encontros e seminários teve como maior trunfo a primeira exibição pública fora da China de Hero, de Zhang Yimou, delirante extravagância visual em torno de artes marciais nos moldes de O Tigre e o Dragão, de Ang Lee. E teve como nota política a publicação de uma carta aberta do diretor búlgaro Kostadin Bonev, que se recusou a submeter ao que considerou "humilhantes condições exigidas pelo consulado americano" para obter visto a fim de acompanhar seu filme Warming Yesterday´s Lunch. Além de ficar oito horas na fila diante do consulado - e no inverno -, teria de deixar suas impressões digitais para serem enviadas a Washington, entre outras exigências. O diretor preferiu não insistir. Aliás, as dificuldades de se obter um visto para a América são citadas em três filmes - Nada Mais de Cuba, Lilya-4 Ever da Dinamarca e Small Voices das Filipinas. O resultado do Oscar sai no dia 23 de março.

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