Palestras promovem DVDs do cinema soviético

Um dos pais da moderna crítica de cinema no País, o baiano Walter da Silveira, radicalizava ao dizer que a suprema realização da revolução russa foi no cinema, com a obra de Sergei M. Eisenstein. O cinema dos revolucionários russos ganha, a partir de terça-feira, um ciclo no Sesi/Fiesp, da Avenida Paulista, para assinalar o lançamento do novo e espetacular pacote de DVDs da Continental. O ciclo leva o sugestivo título de "O Cinema Revolucionário Soviético, de Eisenstein a Tarkovski". É formado por 15 títulos - os mesmos do pacote.Eisenstein possui o maior número de filmes na programação. São seis: entre eles "O Encouraçado Potemkin" (os puristas pronunciam Potiônkin), quase sempre considerado um dos melhores, senão o melhor filme de todos os tempos. Mas a estrela do programa, a jóia rara, é "Eu Sou Cuba", que Mikhail Kalatozob realizou no começo dos anos 60, logo após o triunfo da revolução na ilha de Fidel Castro. O resto do programa é completado por filmes de Pudovkin, Dziga Vertov e o raríssimo "Aelita", de Yakov Protazanov. Não entenda mal esse resto: Pudovkin é tão grande teórico e realizador quanto Eisenstein. "A Mãe" é uma obra-prima do mesmo calibre de Potemkin. Numa liberdade, política e poética, do organizador do evento, Eduardo Beu, o ciclo chega até "Andrei Roublev", de Andrei Tarkovski, nos anos 60, quando ninguém mais se atreveria a considerar a então União Soviética revolucionária.Grande pacote, grande ciclo. Para torná-lo ainda mais atraente, Beu encomendou à historiadora de arte Rosa Cohen um seminário, de terça a sexta, discutindo temas como os cineastas soviéticos no contexto das vanguardas européias, o engajamento estético-revolucionário e os recônditos da alma (a parte sobre Tarkovski). Como o número de inscrições para o seminário é limitado, inscreva-se já (tel. 0xx11 284-3639). É de graça.Muitos autores, em diferentes épocas e suportes, quiseram criar obras atemporais e/ou eternas. Eisenstein não temeu inscrever seus filmes no tempo. De "A Greve", de 1924, até "A Linha Geral," de 1928, passando por "Potemkin" (1925) e "Outubro" (1927), não houve, para ele, outro tema senão o movimento revolucionário russo antes, durante e depois da tomada do poder pelos trabalhadores. Walter da Silveira dizia que era possível considerar a revolução de 1917 um equívoco e, mesmo assim, apreciar o cinema dialético de Eiseinstein, como expressão marxista de um novo humanismo.Eisenstein estudou todas as artes e pensou o cinema à luz da dialética marxista. Chegou à conclusão de que o cinema, como arte revolucionária, deveria ordenar imagens na consciência e nos sentimentos do público. Para isso, deveria iniciar-se por uma tomada de posição diante dos processos da montagem. Sua teoria de montagem, que ele chamou de ´montagem de atrações´, consiste em justapor duas imagens para formar uma terceira no inconsciente do público. Essa montagem, que dá a "Outubro" sua força, é quase inexistente em "Potemkin", por mais que a célebre seqüência da escadaria de Odessa seja representativa de como um artista genial pode usar a edição de imagens para esculpir conceitos na consciência do espectador.Pudovkin foi outro grande teórico. Mais até do que Eisenstein, elegeu a montagem como lei absoluta. Baseou sua proposta estética na importância da câmera lenta e da aceleração da imagem, no papel do grande plano e, de certa forma, renegava o ator. Suas idéias atingem o ápice na extraordinária seqüência do degelo do rio Neva em "A Mãe" e o mais impressionante é que Pudovkin podia renegar o ator, que achava vítima da descontinuidade da filmagem, mas isso não impede que Vera Baranovskaia, a mãe, seja um ícone da representação no cinema.Todo o ciclo é admirável. O futurismo de Protazanov, o cinema-olho de Dziga Vertov, que influenciou, mais tarde, no Brasil, o desconcertante "Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos", de Roberto Masagão, a revolução cubana revista por Kalatozov no seu panfleto plasticamente deslumbrante (e com soluções de montagem também geniais). Tudo isso é maravilhoso. A única lacuna é a ausência de "Terra", de Dovjenko. Eduardo Beu desculpa-se e promete para o ano que vem o resgate do mais belo poema revolucionário do cinema (e não apenas o soviético).

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