Palavra é fundamental para Manoel de Oliveira

Hollywood tenta nos fazer crer queo cinema é só uma sucessão de imagens em movimento. É bom quevolta e meia um mestre como Manoel de Oliveira venha nos lembrarque a palavra é fundamental. Estréia nesta sexta Palavra e Utopia. Quem viu o filme que abriu a Mostra Internacional deCinema São Paulo no ano passado sabe que é um programa árduo,mas maravilhoso. Palavra e Utopia exige bastante do público:uma leitura especial, diferente daquela a que os códigos docinema americano condicionaram o público. Se você reza só pelacartilha do cinemão, com suas relações de causa e efeito quebanalizam 99,99% das narrativas de Hollywood, vai achar um tédioas discussões que permeiam o penúltimo filme do mais velhodiretor do mundo em atividade.O penúltimo, sim, pois Oliveira, na fina flor dos seus92 anos, já fez outro filme, depois. Ele estreou no Festival de Cannes, em maio, Vou para Casa e dele também não se podedizer que seja o ´último´, pois o infatigável Oliveira já estácomeçando o próximo. Nesse ritmo, ele chegará aos 100 anosbrindando seus admiradores, em todo mundo, com seus filmes nãoconvencionais. Por que ainda filma?, perguntou-lhe, numaentrevista no ano passado. "Ai de mim se não filmar",respondeu Oliveira. O cinema é o seu alimento, renova suasenergias, dá um sentido maior à sua vida. Ao longo de suacarreira, o grande diretor com freqüência afirmou a forçaexpressiva da palavra. Em Palavra e Utopia, o mestre dapalavra, que ele é, reverencia o imperador da língua, como opoeta Fernando Pessoa se referiu ao padre Antônio Vieira.Palavra e Utopia põe na tela, de novo, OsSermões. No seu filme de 1989, Júlio Bressane - tão árduo eexigente quanto Oliveira; estamos falando de grandes artistas,não de realizadores de fantasias consumistas - usou a figura deVieira para discutir as origens do barroco brasileiro. Aovoltar-se para Vieira, essa figura tão imensa das letrasportuguesas, Oliveira age com propósitos diferentes. Querreverenciar o imperador da língua, quer abrir um debate sobre autopia, no limiar do terceiro milênio, e quer também falar sobrea proximidade da morte, esse tema que, compreensivelmente, seinsinua cada vez mais no cinema do diretor que se encaminha parao centenário, ainda cheio de projetos.DesacordoJunte dois ou três vieiristas. Nem elesestarão de acordo quanto à complexidade do personagem. Vãoconcordar que o padre Antônio Vieira foi uma figuraextraordinária, que seus sermões são obras-primas literárias,mas cada um buscará, no tema geral, o seu Vieira. Oliveira disseque pretendeu, em Palavra e Utopia, destacar a obracivilizatória de Vieira. Por isso mesmo, faz com que, na cena dovoto, depois de professar sua fé na Igreja, ele diga baixinhoque vai se dedicar a servir aos negros e aos índios. Num debatecom Oliveira, no ano passado, o historiador Alcir Pécora,vieirista de carteirinha, disse que só podia entender essa cenanuma perspectiva moderna, como parte do esforço oliveiriano paraatualizar o mito de Vieira. Oliveira não concorda. Ele faz questão de assinalar quetudo o que Veira diz no filme está nos sermões ou então sugeridoem sua correspondência. Esse desbravamento da obra de Vieira nãofoi feito por Oliveira sozinho. Ele teve a contribuição de umdos grandes vieiristas de Portugal, o padre João Marques, que oajudou não só a garimpar os textos, mas também a estabelecer oconceito do filme, o que seria sua decupagem, ou seja, a escolhae seleção dos planos. Oliveira chega a admitir que só uma frase- "Isso acaba de chegar", aplicada à carta para Vieira, no fim- é ficção pura. O resto é tudo documentado: palavras,documentos, os púlpitos nos quais Vieira pregou. Embora se tratede um esforço raro de exatidão histórica, Oliveira se recusa aconsiderar Palavra e Utopia um filme histórico, pelo simplesmotivo de que não estava vivo, há 300 anos, e portanto não podedizer ou mostrar como, exatamente, se passaram as coisas. O próprio Oliveira considera que o conceito de Palavrae Utopia ficou claro para ele quando leu o sermão do velhoVieira sobre as quatro, que ele aplica às quatro idades dohomem: a infância, juventude, maturidade e velhice. Ele faz, decada idade, um retrato diferente, explora suas características,cria uma identidade diferente. Foi por isso que, sem hesitação,Oliveira partiu desse texto para a forma adotada em Palavra eUtopia. Ele recorre a três atores para mapear seu padreVieira da juventude à velhice. Ricardo Trepa, Luís Miguel Cintra eLima Duarte revezam-se no papel. O primeiro é um tanto inepto,sem comprometer. O segundo é extraordinário e o terceiro, quasetanto. Oliveira evita tomar partido, apenas mostra. Não é 100%verdadeiro, porque é evidente o seu fascínio pelo imperador dalíngua, mas ele não se sente obrigado a referendar afirmaçõespolêmicas de Vieira, como as que se referem ao Quinto Império.Elas estão lá, sem que o diretor se sinta solicitado a tomarpartido. Para o diretor, a má consciência em relação aos negros eaos índios está fazendo com que, em Portugal e no Brasil, umacerta confusão esteja comprometendo a discussão sobre Palavrae Utopia. Essa confusão se refere a três aspectos: a forma, otexto e o contexto. Oliveira acha que se critica ou elogia um ououtro desses pontos, em detrimento da unidade do trabalho e essaé que é importante. A própria unidade da obra de Oliveira poderáser conferida, a partir de amanhã, pois com a estréia dePalavra e Utopia a distribuidora Mais Filmes, ex-Filmes daMostra, faz, na Sala Cinemateca, um miniciclo formado porViagem ao Princípio do Mundo, O Convento e Non ou a VãGlória de Mandar. O primeiro é um belíssimo filme, o segundo éum Oliveira um tanto discutível, mas nem por isso menosintrigante na sua proposta da origem ibérica de Shakespeare, oterceiro talvez seja o que mais se relaciona a Palavra eUtopia. Reconstruindo batalhas célebres, Oliveira recorre àpalavra (sempre) e a corpos feridos, destroçados e mutiladospara forjar uma poderosa crítica ao sonho de grandeza dePortugal, como nação. Non e Palavra e Utopia formam umbloco de notável coerência, estética e política.Palavra e Utopia. Drama. Direção de Manoel deOliveira. Por-Fr-Br-Esp/2000. Duração: 133 minutos. Sala UOL, às 16h30, 19 horas e 21h30. Unibanco Arteplex 7, às 13h30, 16 horas 18h30 e 21 horas. 12 anos Os 90 Anos de Manoel de Oliveira - Amanhã e domingo,às 18h15, sábado, às 16h30, Viagem aoPrincípio do Mundo/97, duração: 95 minutos; amanhã a domingo, às 20 horas, Non, ou a Vâ Glória de Mandar/90, duração: 101 minutos; sábado, às 18h15, domingo, às 16h30,O Convento/95, duração: 90 minutos. De R$ 3,00 a R$ 8,00. Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207,tel. 5084-2318. Até 6/9

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