"Paixão Proibida" leva Puchkin às telas

Nas entrevistas que deram à reportagem, Ralph Fiennes e Liv Tyler destacaram a importância que atribuem a Paixão Proibida. O filme que a irmã de Ralph, Martha Fiennes, adaptou de Puchkin (Eugene Onegin) estréia amanhã na cidade. É bom. Ralph teve seu primeiro contato com o texto quando estudava arte dramática. Era muito jovem e o texto de Puchkin, que ele não leu no original, mas traduzido para o inglês, soou-lhe como música para os ouvidos. E, embora se confesse meio cansado de interpretar heróis românticos e trágicos, ele adorou a história desse homem blasé, que é incapaz de reconhecer o amor, exceto quando é tarde demais.Ralph Fiennes usou todo o seu prestígio, firmado em filmes como A Lista de Schindler e O Paciente Inglês, para tornar o projeto viável. A essa altura, já se havia associada à irmã. Martha era diretora de comerciais. Nunca havia feito ficção, nem em curtas. Ela revela um olho extraordinário para a beleza visual e uma justeza muito grande na direção de atores. Liv Tyler não deixa por menos. A mulher nota 10 de Que Mulher É Essa? diz que Paixão Proibida foi o filme que a convenceu de que é atriz.Por tudo isso vale assistir ao filme que estréia amanhã. Ralph Fiennes deixou claro que seu desafio (e o da irmã) foi encontrar equivalentes cinematográficos para a riqueza e complexidade de Puchkin. Estudiosos de literatura o consideram o maior dos escritores russos. Você pode até pensar: impossível. Como, superior a Dostoievski, Tolstoi, Chekhov? E aí você começa a dar-se conta: Edmund Wilson tinha o maior respeito por Puchkin. Dizia que não tinha equivalentes na literatura anglo-americana. O maior crítico brasileiro, Otto Maria Carpeaux também o considerava o pai do romance russo e destacava seu classicismo esclarecido pelo romantismo.A lenda sempre atribuiu certo byronismo a Puchkin. Forjou a imagem do dândi das letras, contra a qual se insurgia Wilson. Mas o dandismo faz-se presente no personagem de Fiennes. Onegin é inútil para os outros e para si mesmo. Possui múltiplos talentos, que não sabe desenvolver nem usar. É um herói de salão que se sente incompreendido pela gente rústica, quando é forçado a trocar a cidade pela vida rural, mas também não se preocupa em compreender nem os habitantes da cidade nem os do campo. Onegin não sabe o que fazer da vida e esse é o dilema que acompanha os heróis de boa parte da literatura do século 19, invade o cinema do século 20 e chega aos dias de hoje. O que fazer da vida? O conflito é tanto mais intenso porque, na época focalizada, os tradicionalistas e os ocidentalistas travam uma guerra, mesmo que surda, nos salões elegantes. Uns querendo modernizar tudo, outros também querendo preservar tudo.Para ele, a resposta vem muito tarde. Passa por Tatiana, em quem muitos críticos vêem a origem da Ana Karenina de Tolstoi: sua inocência pode ir até a agressividade e a feminilidade também é ambivalente, ora sonhadora ora dominadora. Martha Fiennes filma a sociedade russa de 1830 de olho em 2000. Não fez uma adaptação acadêmica. A relação atormentada de Onegin e Tatiana traz, nas entrelinhas, o tema da luta dos sexos. E o fausto viscontiano das cenas de baile expõe o jogo de máscaras de uma aristocracia fútil, cujo desmoronar será, mais tarde, o tema de Chekhov.Paixão Proibida (Onegin) - Drama. Direção de Martha Fiennes. EUA/2000. Duração: 100 minutos - Belas Artes-O.Niemeyer, às 14h50, 17 horas, 19h10 e 21h20. Central Plaza Cinemark 6, às 12h20, 14h40, 17h10, 19h30 e 21h10 (hoje e amanhã também 23h55). Pátio Higienópolis Cinemark 4, às 15h10, 18h10 e 20h50 (hoje e amanhã também 23h20). SP Market Cinemark 6, às 14h05, 16h25, 18h45 e 21h05 (hoje e amanhã também 23h30; amanhã e domingo também 11h35) - 12 anos

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