Paixão e ódio unem Herzog e Kinski

Há quanto tempo você não via um bom filme de Werner Herzog? Bastante, com certeza. O autor alemão que o crítico e cineasta François Truffaut considerou o maior do mundo, depois de assistir a Aguirre, a Cólera dos Deuses e O Enigma de Kaspar Hauser, salda a dívida com seu público, e com juros. Meu Melhor Inimigo, que estréia amanhã (09), é o melhor filme de Herzog em muitos anos. O diretor debruça-se sobre sua relação com o ator Klaus Kinski para, na realidade, falar dele mesmo. É maravilhoso.Era uma relação radical, visceral, terminal. Usem a definição que quiserem. Todo mundo sabe que Herzog e Kinski, pai da bela Natasha, morto em 1991, trocavam ameaças de morte e brigavam como cão e gato nos sets de filmagem. Herzog não desmente a lenda, mas não está preocupado em satisfazer a sede do público por fofocas em Meu Melhor Inimigo. O filme não se propõe a ser uma interpretação psicológica do mito. É um tributo claro, mas é principalmente uma confissão e um exorcismo. Abre-se de forma um tanto surpreendente, com um número de Kinski como one man show, em que ele se propõe como novo Cristo.É fácil dizer que Herzog e Kinski ilustram, à perfeição, a dificuldade de harmonizar comportamentos megalômanos. Kinski queria ser Cristo, Herzog nunca se propôs a ser menos do que demiurgo, na mais radical concepção platônica. O demiurgo, Deus que cria o universo a partir da matéria pré-existente. Ele sempre brigou com Rainer Werner Fassbinder e Volker Schlondorff pela paternidade do novo cinema alemão, nos anos 60. Era, de certa forma, o Gláuber Rocha deles e admirava tanto o Cinema Novo que deu a Kaspar Hauser um subtítulo emprestado de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade - Cada um por si e Deus contra todos.Ambos necessitavam-se, desesperadamente. Não conseguiam viver juntos, nem separados. Herzog revisita a casa em que, menino, morou com Kinski, pois é verdade que eles dividiram um espaço íntimo, o mesmo quarto, antes da coabitação artística. Foram cinco filmes - Aguirre, Nosferatu, Woyzeck, Fitzcarraldo e Cobra Verde - e, embora a obra-prima do diretor seja Kaspar Hauser, eles compõem um bloco impressionante como representação de sua capacidade de criação artística. Há outras cenas fundamentais. Herzog revisita a cabana em que se abrigava a equipe, durante a filmagem de Aguirre. Relembra menos o gênio de Kinski do que o cineasta que ele, Herzog, foi e agora sabe não ser mais.Nesse sentido, é possível entender Meu Melhor Inimigo como um ato de exorcismo. Herzog exorciza Kinski, certo de que, como criador, era vampirizado por seu ator temperamental (mas genial, também). É possível que agora, liberto da ausência do ator que lhe faltava, ele se sinta mais livre para retomar seu grande cinema dos anos 70. A relação pode ter sido difícil, mas foi exemplarmente rica, do ponto de vista artístico. E Herzog, sem ressentimento algum, até com inusitada humildade (ao reconhecer a importância do outro para seus filmes), acrescenta ao produto final imagens reveladoras dessa inimizade tão singular.Numa cena, Kinski e ele trocam um abraço de verdadeiros amigos, no Festival de Telluride, no Colorado. A cena provoca um desabafo do diretor, que admite quanta falta lhe faz a presença física do ator, o contato com ele. Em outra cena, Silvia Vas e Les Blank - que fazem o making of dos filmes de Herzog - captaram a imagem de Kinski descontraído no set, brincando com uma borboleta. Ela voa ao redor dele, Kinski a segue, tentando pegá-la. Ele está aí luminoso, cheio de graça. Irradia um brilho tão grande que essa cena, por si só, ilustra o amor que, a despeito de todas as brigas e ameaças, Herzog nunca deixou de sentir por ele.Meu Melhor Inimigo - (Mein Liebster Feind). Documentário. Direção de Werner Herzog. Ale/99. Duração: 98 minutos. Sala UOL, horário normal. 14 anos

Agencia Estado,

08 de fevereiro de 2001 | 16h31

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