"Paixão" de Godard mistura pintura e religião

Depois da Paixão de Mel Gibson, a de Jean-Luc Godard. O filme que estréia hoje é do começo dos anos 1980, mas estréia somente agora, o que pode (e deve) ser creditado às distorções de um mercado formatado para a produção de Hollywood. Godard foi e ainda é um dos grandes revolucionários do cinema. Não produz blockbusters, mas obras de indagação artística e humana. E não cessa de nos surpreender. Paixão é um filme que se constrói sobre a paixão das artes plásticas, na forma de tableaux vivantes (quadros vivos). Quando a pintura vira cinema, ela se humaniza, diz Godard. Paixão forma uma trilogia com Je Vous Salue, Marie e Nouvelle Vague. São os filmes por meio dos quais a teologia protestante irrompe na obra de Godard. Na época, o diretor mais iconoclasta do mundo disse que não procurou a religião em Paixão, mas topou com ela durante o percurso. Sem recorrer exatamente às chaves de Freud, ele explicou que quando se tenta ir fundo nas coisas, a tendência é voltar à infância. E a dele teve na religião uma referência muito forte. Filho de pais religiosos, Godard foi criado no temor de Deus, que perdeu na idade adulta. Paixão é uma indagação sobre os lugares da crucificação, Je Vous Salue, Marie decifra o mistério da virgindade de Maria - e você deve saber, se não por haver acompanhado na época, pelo menos de ouvir falar, dos problemas que o filme teve com a censura, nos estertores do regime militar. Godard e religião - você não costuma e talvez nunca tenha imaginado fazer essa ponte. Mas o próprio Godard comparou certa vez a tela branca do cinema, antes de ser iluminada pelo filme, à toalha de linho com a qual Verônica, secando o sangue de Cristo, imprimiu uma imagem que se projetou no tempo e no espaço e adquiriu contornos míticos - senão divinos. E se o cinema puder mesmo ser comparado à tolha branca de Verônica? Como quase sempre no cinema de Godard, Paixão não conta propriamente uma história, ou não conta uma história no sentido tradicional. É o que, aliás, diz o produtor Laszlo Szabo, cuja voz ecoa como um lamento pelo filme inteiro - "Mais qu´est-ce que c´est que cette histoire?" Que história é essa? É uma sucessão de tableaux vivants que recriam obras célebres - de Goya, de Rembrandt, de El Greco - para criar metáforas do cinema, da pintura, das relações de classes no sistema capitalista. A fábrica, o patrão, a operária. Mas também o palco da filmagem, o diretor e a atriz. E mais - o corpo, a voz, a música. Mesmo quando filma a pintura, Godard não prescinde da música - nada menos do que o Réquiem, de Mozart. O cinema de Godard é feito de situações e imitações de cinema, de fragmentos de história - o socialismo francês, o sindicato Solidariedade na Polônia, tudo isso forma o quadro de Paixão. A operária (Isabelle Huppert) gagueja e o patrão (Piccoli) pergunta-se - por que ela gagueja, se está curada? Essa associação entre sindicalismo e gagueira provocou muita discussão, há 23 anos. A palavra operária não é fluida, dizia Godard. A entrevista de um operário na TV não seria possível. Haveria muitos silêncios e a TV não suporta o silêncio. Isso ele pensava em 1981. Hoje, um operário ocupa a presidência do Brasil e não se pode dizer que Luis Inácio Lula da Silva gagueje diante das câmeras. Há até críticos (do governo) que reclamam de que ele fala demais. Paixão ficou um filme obsoleto? A pintura é o X da questão. Godard mostra a pintura sob uma forma metafórica que conduz a outras realidades. Godard ingressou no cinema militante por volta de 1970, Coutard continuou produzindo no cinema dito comercial (mesmo sendo de qualidade). Godard tentou e não conseguiu nenhum diretor de fotografia interessado em criar seus tableaux vivantes. Coutard foi sua salvação. Ambos estavam de acordo num ponto fundamental - o original é mais interessante do que a cópia, mas copiar faz parte do original. Copiar, criar. É a lição dos grandes - de Pablo Picasso a Godard. Copiando, eles (re)criam o mundo na medida de suas preocupações autorais.

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