"Paixão" de Gibson é sucesso entre árabes

Hanan Nsour, uma velada muçulmana de 21anos da Jordânia, saiu em lágrimas da sessão de A Paixão deCristo e pronunciou seu veredicto: o épico de Mel Gibson sobre acrucificação "desmascarou as mentiras dos judeus, e espero quetodo mundo, em todo lugar, se volte contra os judeus". O Alcorão, no entanto, diz que a crucificação de Jesus nuncaaconteceu.São contradições desse tipo que surgem à medida que o mundoárabe trava contato com o filme A Paixão de Cristo que atraigrandes audiências na Jordânia, Síria, Líbano e outros paísesárabes que aprovaram sua exibição. O franco anti-semitismo - e, por extensão, a recepção calorosa ao filme - está ligado ao conflito com Israel. Um assessor de Yasser Arafat disse que o líder palestino depois de assistir ao filme em seu complexo na Cisjordânia,comparou o sofrimento de Jesus com o dos palestinos. Quando a animação de 1998 O Príncipe do Egito chegou ao Cairo,os censores a proibiram. Uma razão alegada: o Islã reverenciaMoisés como um profeta, e muitos muçulmanos se chocam ao verseus profetas retratados como personagens de carne e osso. Jesus também é um profeta para os muçulmanos, mas A Paixão foiliberada pelos censores egípcios sem mudanças. Eles nãoexplicaram por que permitiram a exibição do filme.Governos e clérigos islâmicos também enviam sinais confusos.A Paixão de Cristo estréia nesta quarta-feira na Itália, coincindo com o início do feriado escolar de Páscoa. Não há previsão de estréia do filme em Israel. Na Itália, Monica Bellucci, a Maria Madalena da produção, admite tratar-se de um filme violento, mas acredita ser honesto. "(Mel) Gibson quis recontar as últimas 12 horas de Jesus, e as últimas 12 horas foram violentas, então não poderia ser de outra forma", disse à TV italiana. "Certo ou errado, ele fez um filme honesto". Perguntada se crianças devem assistir ao filme, foi categórica: "Não." Controvérsias - O Kuwait proíbe qualquer filme mostrando qualquer profetareconhecido pelo Islã, mas um dos principais clérigos xiitas dopaís, aiatolá Mohammed Baqer al-Mehri, pediu que seja aberta umaexceção para A Paixão, porque ela "revela crimes cometidos pelosjudeus contra Cristo". O governo ainda não tomou uma decisão. O reitor da Faculdade de Direito Islâmico da Universidade doKuwait, Mohammed al-Tabtabai, ordenou que os muçulmanos evitem APaixão porque Jesus é um profeta. Na Jordânia, um líder da linha-dura Frente de Ação Islâmicadiz que os muçulmanos deveriam ler o Alcorão ou rezar em vez deassistir a filmes, mas não se importa com o fato de A Paixãoestar sendo exibida em seu país. "Os judeus são os maisincomodados com o filme, pois ele revela seus crimes contra osprofetas, os reformistas e quem quer que contradiga suasopiniões", disse Hamza Mansoor. E no Egito o chefe de um departamento da Universidade Al-Azharque freqüentemente aconselha os censores nesses assuntos tambémlava as mãos. "A meu ver, trata-se das últimas 12 horas da vidade Cristo, o que envolve cristãos e judeus. Os muçulmanos nãotêm nada a ver com isso", afirmou o xeque Abdel Zaher MohammedAbdel-Razeq. O Alcorão, livro sagrado muçulmano, é inequívoco na sura(capítulo) IV, versículo 157: "Eles disseram: ´Nós matamos JesusCristo filho de Maria, o Mensageiro de Alá´ - mas eles não omataram, nem o crucificaram. Mas assim se fez parecer para eles.E aqueles que discordam disso estão cheios de dúvidas e não têmconhecimento, mas apenas conjecturas para seguir, porque comcerteza não o mataram." Os muçulmanos acreditam que outro homemfoi crucificado no lugar de Jesus. Muitos no Ocidente acusam o diretor Gibson de renovar aacusação de que os judeus mataram Cristo, que tem alimentado oanti-semitismo através dos séculos. A Paixão também está sendo bem recebida pelas comunidadescristãs do Oriente Médio. Algumas igrejas e livrarias cristãsegípcias vendiam versões pirateadas do filme por menos de umdólar antes mesmo da estréia no país.

Agencia Estado,

05 de abril de 2004 | 17h33

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.