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Versátil resgata ‘Trágica Obsessão’ de Brian de Palma

Outros clássicos ganham novos lançamentos como preciosidades de Martin Scorsese, Akira Kurosawa e Andrei Tarkovski

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2015 | 18h00

Drama, mistério, romance, thriller. Diversos gêneros misturam-se em Trágica Obsessão. Em 1976, quando fez o filme, o jovem Brian De Palma passava a impressão de um realizador talentoso mas sem estilo, ou desesperadamente em busca de um estilo. Sua ópera rock de horror O Fantasma do Paraíso, dois anos antes, havia sido destroçada pelos críticos, mas com o tempo tornou-se cult.

O que se censurava em De Palma é o que hoje faz sua glória – o filme bebe na fonte de Alfred Hitchcock, Rouben Mamoulian ( O Médico e o Monstro) e com certeza incorpora lições do cinema silencioso de Lon Chaney (O Fantasma da Ópera) e do expressionismo alemão de Robert Wiene (O Gabinete do Dr. Caligari). Trágica Obsessão vai um pouco pela mesma linha do excesso. 

É um melodrama descabelado. Leonard Maltin já disse que tem o mais improvável dos desfechos, mas quem busca realismo tem de fugir de De Palma. E a sua falta de plausibilidade funciona. É o milagre do cinema. Trágica Obsessão é a cereja do bolo no novo pacote de DVDs da Versátil. A distribuidora está lançando preciosidades de Martin Scorsese (Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Norte-americano e Minha Viagem à Itália), Akira Kurosawa (Kagemusha, a Sombra do Samurai), Andrei Tarkovski (Solaris) e até um novo volume da antologia Cinema Samurai. A todos esses pode-se preferir, por que não?, o De Palma.

O filme começa numa festa, em New Orleans. Cliff Robertson e Genevieve Bujold comemoram dez anos de casados. Mas, esperem, o que é aquele volume sob o casaco do garçom que serve uma bandeja de bebidas? Não é uma arma? A festa vira um pandemônio quando a mulher e a filha de Robertson são sequestradas. A polícia intervém e a confusão aumenta. A mulher e a filha morrem, ou pelo menos Robertson assim pensa.

Passam-se os anos (18) e ele volta a Florença, à igreja na qual conheceu a mulher. Reencontra Genevieve, jovem como no passado. Ele a corteja, pede em casamento, voltam a New Orleans. E aí começa uma série de revelações e reviravoltas bizarras no roteiro assinado por Paul Schrader – que já era o roteirista preferido de Martin Scorsese. Não se preocupe em ‘entender’. Com seu tobogã de emoções, Trágica Obsessão é para ser sentido. Mas prepare-se, porque as surpresas vão num crescendo e você é capaz de acabar sem fôlego, atordoado com o twist final, que ainda consegue ser surpreendente, quase 40 anos depois.

Entre os extras do lançamento estão o making of, o trailer de Trágica Obsessão e um interessante estudo comparativo – Hitchcock e De Palma. Na vasta obra do mestre do suspense, De Palma foi muito marcado pelo experimentalismo de Psicose, de 1960, e a célebre cena da morte de Marion Crane/Janet Leigh no chuveiro inspirou, entre outros momentos de terror, a morte, a golpes de navalha, de Angie Dickinson no elevador de Vestida para Matar, 1980. As mulheres continuaram sendo retalhadas, perfuradas no cinema obsessivo de De Palma – em Dublê de Corpo, por exemplo. No mais realista de seus filmes, Pecados de Guerra, de 1989, o cineasta mostrou Michael J. Fox como um marine devorado pela culpa porque, no Sudeste Asiático, foi impotente para impedir que colegas militares, entre eles Sean Penn, estuprassem uma garota vietnamita.

No caso de Trágica Obsessão, a obra fundadora de De Palma foi outro Hitchcock – Vertigo/Um Corpo Que Cai, que, em 2013, desbancaria O Encouraçado Potemkin, de Serguei M. Eisenstein, e Cidadão Kane, de Orson Welles., como melhor filme de todos os tempos na lista da revista Sight and Sound. Na época, os críticos disseram que as revelações escabrosas do roteiro – e o twist final – vulgarizavam a obra-prima hitchcockiana. No original, Hitchcock criava um conflito de tempo em torno das duas faces de Kim Novak. Não por acaso, Um Corpo Que Cai foi uma das referências de Alain Resnais para o seu Hiroshima, Meu Amor.

De Palma, que integra a geração chamada de ‘Nova Hollywood’ – Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, George Lucas, Steven Spielberg etc –, compartilha com os colegas cineastas o gosto pelas referências. Num certo sentido, é o mais referencial de todos. E não elege só Hitchcock. Eisenstein inspirou-o em Os Intocáveis, Stanley Kubrick em Missão Impossível (o 1). O que inicialmente parecia trash em De Palma virou, no limite, seu estilo. E o homem que fez Scarface, a versão com Al Pacino (1983), só pode ser deginido como ‘grande’. 

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