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‘Pachinko’ mostra a luta de uma mulher pela sobrevivência

Produção sul-coreana é baseada no livro de Min Jin Lee chega à Apple TV+ nesta sexta, 25; veja o trailer

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

23 de março de 2022 | 05h00

Soo Hugh relutou em encarar Pachinko, o livro de Min Jin Lee que foi finalista do National Book Award em 2017. Os temas do romance pareciam próximos demais. Hugh, showrunner da ótima série The Terror, nasceu na Coreia do Sul e mudou-se para os EUA ainda bebê. Pachinko é um épico sobre a coreana Sunja, que vai das décadas de 1910 a 1990. Mas a roteirista e produtora tomou coragem. “Eu tinha medo de abrir uma caixa de Pandora de emoções. E foi exatamente o que aconteceu”, explicou em entrevista ao Estadão por videoconferência. “Além de ter ficado extremamente emocionada, foi muito libertador.” O resultado é Pachinko que estreia os três episódios iniciais dos oito de sua primeira temporada nesta sexta, 25, no Apple TV+

A série não segue a estrutura linear do livro, pulando no tempo e assim deixando claras as diferenças geracionais. Em 1915, a pequena Sunja (Yuna), filha dos donos de uma pequena estalagem em um distrito da hoje metrópole Busan, sente os efeitos da brutal ocupação japonesa da Coreia. Já adolescente, interpretada pela estreante Kim Minha, Sunja se envolve com o elegante Hansu (o astro sul-coreano Lee Minho), novo administrador do mercado de peixes. Ela engravida e descobre que Hansu tem família. Junto com sua mãe, Sunja salva a vida do pastor Isak (Steve Sanghyun Noh), com quem se casa e vai morar em Osaka. Paralelamente, no final da década de 1980, Solomon (Jin Ha), neto de Sunja, volta ao país onde foi criado, o Japão, para fechar um negócio. Ele reencontra o pai (Soji Arai) e a avó (agora interpretada por Youn Yuh-jung, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante ano passado por Minari). O título Pachinko refere-se ao jogo de caça-níqueis, que virou um meio de sobrevivência para coreanos morando no Japão, como o pai de Solomon. Um jogo que é também dependente da sorte, como a vida de Sunja.

 “Eu senti uma tremenda conexão com a personagem, por sua determinação de sobreviver, sua força, sua honestidade”, disse Youn. A atriz de 74 anos nasceu após o fim da Segunda Guerra e, portanto, da ocupação japonesa. “Mas minha mãe me contou como era”, lembrou. “Eu fico feliz de essa história estar sendo contada. Antes, ninguém estava interessado na história de um país tão pequeno. Mas o mundo parece estar ficando menor.”

Não é um tema que todas as famílias coreanas – ou japonesas – estão dispostas a comentar. “Muita gente prefere esquecer o passado porque é doloroso demais”, contou Soo Hugh. “Mas o problema é que, quando você tenta varrer o passado para baixo do tapete, tudo acontece novamente. A gente está vendo isso agora. O mundo não muda, porque revivemos os mesmos erros.” 

Pachinko é uma série de época, sobre uma circunstância particular, mas atual e universal. Muitos países passaram – estão passando – por ocupações, muitas pessoas sofrem preconceitos, imigrantes enfrentam adversidades tremendas. Toda família tem suas tragédias. “A série quer celebrar as pessoas e a humanidade, e não julgar ou condenar alguém”, observou Hugh. Ela espera que os espectadores possam se reconhecer nas jornadas de Sunja e Solomon, que são de sacrifício dos pais pelos filhos, luta pela sobrevivência, amores incondicionais, união familiar, injustiças, triunfos. “Gosto de épicos, dos filmes de David Lean. É um tipo de produção que perdemos”, ressaltou Hugh. “Costumávamos ter obras grandiosas sobre pessoas reais e não só super-heróis.”

Até poucos anos atrás, seria impensável um épico com orçamento comparável ao de produções como The Crown, dirigido por dois cineastas conceituados, Kogonada e Justin Chon, e falado em coreano e japonês, ou uma mistura dos dois, indicada nas legendas. Como falou Youn Yuh-jung, o mundo ficou menor. O sucesso de Parasita, BTS e Round 6 prova que há mudança em curso. Eles trazem uma representatividade bem-vinda, em um momento de maior hostilidade contra pessoas de origem asiática.

 

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