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Pablo Trapero fala de seu novo filme 'O Clã'

Diretor conta como pesquisou e filmou cenas cujo objetivo é subverter o conceito de 'normalidade'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2015 | 05h00

Pablo Trapero tem sido uma presença permanente no Festival de Cannes e, no ano passado, chegou a presidir o júri que outorgou os prêmios da seção Un Certain Regard. Este ano, Trapero ficou mais feliz ainda de voltar a Veneza - e de ganhar o prêmio de direção, outorgado pelo júri de Alfonso Cuarón, por El Clan. Com o título de O Clã, o filme estreia nesta quinta-feira, 10, nos cinemas brasileiros. “Lá atrás, foi Veneza que me descobriu e deu projeção internacional com meu longa Mundo Grua. Voltar e ainda ser premiado foi muito gratificante.”

E com O Clã Trapero ainda entrou para o reduzido time dos autores cujos filmes ultrapassaram 1 milhão de espectadores na Argentina. “Chegamos a quase 2 milhões, algo em torno de 1,8, o que foi verdadeiramente excepcional. O Clã foi a segunda maior bilheteria de todos os tempos na Argentina (após Relatos Selvagens). Esperava uma boa acolhida, mas isso superou toda expectativa. Além da bilheteria, o filme desencadeou um debate muito interessante sobre o episódio real e suas ramificações na história argentina.”

O Clã baseia-se na história da família Puccio - família respeitável, o filho integrante da equipe nacional de rúgbi e, por trás dessa fachada, o pai, ligado ao regime militar, sequestra e mata com os filhos pessoas ricas de quem extorque dinheiro, anunciando-se como porta-voz de uma organização anarcorrevolucionária. Trapero reflete - “Há um aspecto universal em O Clã, que é a história da família, de pai e filhos. Mas existe a singularidade argentina. Mesmo que o tema da duplicidade também seja universal, creio que existem elementos particulares que fazem da família Puccio - pai autoritário, família submissa - um bom retrato para espelhar a realidade nacional.”

O diretor acredita que essa história - esse horror - só foi possível porque somou-se à duplicidade um outro problema, ou fenômeno contemporâneo, a indiferença. “As pessoas tendem a achar que esse tipo de atividade criminal ocorre longe delas e que, portanto, não lhes diz respeito nem atinge. Entendo isso como uma fuga da realidade. Tem gente que até hoje não acredita que o jovem Puccio, Alejandro, um campeão, tenha feito aquelas coisas horríveis. É um pouco como o que ocorreu em Paris. A bomba tem de estourar na cara delas (das pessoas indiferentes) para que se deem conta.”

Numa cena de O Clã, Arquimedes, patriarca da família Puccio, como pai responsável que é, atravessa a casa falando com os filhos e distribuindo tarefas. Leva um prato de comida - no fim da cena, revela-se o segredo da porta fechada. Alguém está sendo mantido em cativeiro dentro da casa sem que isso afete a rotina da família. Em outra cena, o filho esportista, Alejandro, faz sexo com a namorada e, em paralelo, o pai e o outro irmão matam, a sangue-frio, outro infeliz que foi mantido em cativeiro. “Queria mostrar esse absurdo, a mistura de duplicidade e indiferença que permite que certas pessoas pratiquem atividades criminosas sem que o mundo ao redor se dê conta disso”, explica o diretor. É uma crítica ao estado do mundo? “Sem dúvida. É a minha forma de manifestar indignação.”

Embora narre eventos ocorridos no período posterior à ditadura, a herança sinistra está presente na construção da figura de Arquimedes Puccio. Interpretado por Guillermo Francella - de O Segredo dos Seus Olhos e Coração de Leão -, o patriarca da família Puccio viveu a impunidade do regime e ainda se considera inexpugnável. A alienação da mulher e da filha, que não percebem nada que se passa, é mantida por ele como o faria qualquer pai cioso de suas responsabilidades (se não fossem sequestro, extorsão e assassinato). Arquimedes implica os filhos em seus atos e, diante da súbita rebeldia de Alejandro, ameaça arrastá-lo na infâmia. Papai é certamente um homem da família (e do regime), mas não se sacrifica por um (nem por outro).

Trapero pesquisou muito para fazer seu filme. Arquimedes, Alejandro morreram. A filha trocou de nome. O filho que fugiu, para não compactuar, viveu escondido no exterior. “Eles não querem publicidade e, até agora, ninguém se manifestou, nem com todo o sucesso de O Clã.” Exatamente na quinta-feira, 10, toma posse na Argentina o presidente Mauricio Macri, que encerra uma longa fase de kirchnerismo no poder. “Acho que será interessante acompanhar o que vai ocorrer, até porque o novo presidente não tem maioria legislativa. Tínhamos um Congresso atrelado ao Executivo, agora teremos de ter um diálogo real entre as instituições.” Sobre seus próximos projetos, ele diz - “Martina (NR - sua mulher, a atriz e produtora Martina Guzmán) dá à luz no começo do ano. Tenho um projeto com os norte-americanos, mas vai ter de esperar. No primeiro semestre de 2016, minha prioridade é ser pai”.

ENTREVISTA - 'Questões da ditadura não estão resolvidas' - Peter Lanzani - ATOR

Em outubro, O Clã foi exibido na gala de encerramento do Festival do Rio. Peter (Juan Pedro) Lanzani veio ao Brasil representando a equipe. Faz o filho esportista que se rebela contra o patriarca, mas é demasiado tarde. Seu gesto, reproduzindo o que ocorreu na realidade, garante o impacto do desfecho do longa de Pablo Trapero.

É seu primeiro grande papel no cinema. E, de cara, você coestrela o segundo maior êxito da história do cinema argentino. Como filme surgiu em sua vida?

Como um gesto de generosidade de Pablo (Trapero). Construí minha carreira como modelo e músico e comecei a atuar na televisão. De 2007 a 2010, participei de uma novela teen, Casi Angeles. Era um tipo de interpretação naturalista que me estabeleceu numa zona de conforto. Com Pablo, houve uma reviravolta. Ele não apenas me deu um grande e exigente papel como me incentivou a atuar com intensidade, sem medo. E me encantei com sua dinâmica no set. Pablo ama o que faz e consegue motivar a equipe inteira. Aprendi mais com ele, num só filme, do que em tudo que fiz antes.

Como O Segredo dos Seus Olhos, mas talvez de forma mais velada, o filme aborda a herança da ditadura militar. Como você vê essa discussão?

Embora os fatos tenham ocorrido na transição para a democracia, nos anos 1980, existem questões da responsabilidade dos militares e de seus asseclas que continuam no ar. É importante que o cinema confronte a sociedade com esses temas que seguem prementes e não resolvidos na vida nacional.

O que foi mais difícil para você interpretar?

Tudo. Pablo (Trapero) me deu um personagem muito bem escrito e que se transforma em cena. É o sonho de qualquer ator de verdade. Mas o mais difícil foi o rúgbi. Pablo queria realismo e o esporte era jogado de outro jeito há 30 anos. Foi duro, mas, com a ajuda de um técnico, conseguimos.

 

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