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Pablo Larraín trata de pedofilia na Igreja no filme 'El Club'

Filme foi um dos destaques do Festival de Berlim até agora

Luiz Carlos Merten - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 03h00

BERLIM - E a América Latina continuou brilhando intensamente na 65ª Berlinale. Depois do guatemalteco Ixcanul/Vulcão no sábado e El Botón de Nácar, de Patricio Guzmán no domingo - o melhor filme do festival que inicia nesta terça-feira seu sexto dia -, outro chileno, Pablo Larraín, fez sensação com El Club, exibido ontem. Larraín é o diretor de No. Ele volta com seu ator fetiche, Alfredo Castro, propondo o mais virulento ataque à Igreja Católica produzido pelo cinema em anos recentes. Mas Lareraín, na coletivas, deixou claro que não vê seu filme como uma denúncia. Os fatos de que trata não são exatamente novidade. Berthold Brecht dizia que todas as histórias já foram contadas. A questão é como recontá-las.

O próprio conceito do ‘clube’, contido no título, provoca desconcerto. El Club/O Clube começa com uma corrida de cães. Logo em seguida, sabemos alguma coisa sobre o grupo que celebra a vitória. São padres (quatro) e uma freira que vivem numa casa isolada, junto ao mar. O oceano está sendo o grande personagem desse festival, presente nos filmes de Guzmán, de Terrence Malick, de Larraín. 

Chega um novo personagem e há uma ação brutal que escancara a terrível realidade para o espectador. Esses padres e freira são um estorvo para a Igreja. Eles praticaram pedofilia, foram cúmplices da ditadura e agora vêm esse homem que foi abusado na infância e grita suas verdades na porta da casa. Vira um incômodo, precisa ser silenciado.


Há um investigador da própria Igreja, um homem a quem os padres fazem acusações. Mas ele é íntegro e o único que parece movido por compaixão pelo infeliz abusado. Nem por isso deixa de viver dilacerado, pois não quer destruir a Santa Madre Igreja. Larraín contou que estudou num colégio católico. Conheceu bons religiosos, mas também sempre soube dos desgarrados, daqueles contra os quais, desde crianças, tinha de estar atento. 

A história parecia-lhe boa. É forte. A Igreja não crê na Justiça dos homens, mas e a de Deus? Não basta deixar criminosos, pois são criminosos, somente com sua consciência, que alguns nem têm. Ao padre que foi colaboracionista, o inquisidor da nova Igreja pergunta se se sente culpado, ou criminoso. Não tem resposta.

Da Polônia, também veio um filme que lida com religião, e consciência, mas de um outro teor. Body/Corpo, de Malgorzata Szumowaka, mostra um inspetor de polícia confrontado com a violência do mundo. Em casa, não tem diálogo com a filha. A garota tenta se matar. Vai para uma clínica, onde tem apoio de uma psicoterapeuta. A mulher é médium, serve de intermediária na comunicação com os mortos. Em seu gabinete, há umas foto de Chico Xavier e ela fala do espiritismo no Brasil em números grandiosos, cita Divaldo Franco. A solução desses drama não vem pela intervenção do sobrenatural, pelo contrário, mas Corpo desconcerta sem fascinar. Não é nenhuma Ida, o concorrente polonês no Oscar.

Pattinson agita. Fora de concurso, em Berlinale Special, o festival mostrou um filme muito interessante, Life, de Anton Corbjin, sobre o fotógrafo que fez para a revista que dá título ao filme, muito popular na América dos anos 1950, uma série de fotos de James Dean. 

A par das qualidades que o filme tem, o fato de o fotógrafo ser interpretado por Robert Pattinson, e de ele ter vindo para a coletiva, movimentaram a segunda-feira berlinense. E houve, claro, no domingo à noite, o novo Terrence Malick. Novo? Knight of Cups se assemelha maios a um novo galho da Árvore da Vida, do diretor. 

Christian Bale faz uma celebridade de Hollywood, um roteirista em crise. Como sempre, o diretor prescinde de diálogos, cria belas imagens e transfere o pathos para a narração. Tudo se passa à beira-mar. O oceano de novo, que Malick contrapõe a piscinas. É um diretor (autor?) que critica a civilização da imagem por meio da imagem. Estetiza a angústia. Não deixa de ser outra história da água, mas a de Patricio Guzmán é muito melhor. 

Walter Salles entrega prêmio especial a Wim Wenders

Walter Salles mostrou em Panorama Dokumente seu belo documentário sobre Jia Zhangke, O Homem de Fenyang. Jia não veio. Está filmando na China o longa em que retoma os personagens de Plataforma, projeto anunciado diante da câmera de Salles. O diretor e Jean-Michel Frodon, que faz as entrevistas com ele no filme, fizeram a apresentação. Renata de Almeida também estava presente. O filme começou a nascer na Mostra. Estreou em São Paulo no ano passado.

Salles e Jia se conheceram em Berlim, em 1998, quando o brasileiro ganhou o Urso de Ouro com Central do Brasil e o chinês apresentava seu primeiro filme, Wa Xou/Pickpocket. Quem viu na Mostra deve se lembrar - há uma cena em que Jia fala do pai, e se emociona tanto que chora. Sua obra é todas ela um testemunho sobre as transformações ocorridas na China, nos últimos 15 anos, ou mais. A capitalização do país, sua mudança acelerada de economia planejada para de mercado, descarta as pessoas. É um cinema, o de Jia, que encara os desafios da política e da estética, com as novas tecnologias. Salles faz dele um de seus mais fortes personagens, com a Dora de Central.

O diretor já recebeu uma missão especial na 65ª Berlinale. Wim Wenders, que concorre com Everything Will Be Fine, poderá até não ganhar nada do júri de Darren Aronofsky, mas receberá este ano um Urso de Ouro especial por sua carreira. E caberá a Walter Salles a honra de entregar a Wenders, em nome do festival, a honraria. O cinema de estrada do autor alemão foi decisivo no começo da carreira do colega brasileiro. Salles deve fazer desse momento especial para Wenders também uma forma de tributo pessoal.

A participação brasileira segue forte até no mercado. Na edição de ontem, a revista Variety (especializada em negócios de entretenimento) dá conta de que The Second Mother/Que Horas Elas Volta?, de Anna Muylaert, está vendendo bem. O filme produzido pela Gullane e distribuído internacionalmente pela Match Factory já foi vendido para Itália, Espanha, Suíça, EUA e França, sinal de que o romance da empregada da diretora não é só uma questão brasileira, mas universal. 

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