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Pablo Larraín diz que seu filme joga luz sobre a produção de Pablo Neruda

Longa combina política e ideologia com poesia

Manohla Dargis, THE NEW YORK TIMES

08 de junho de 2016 | 22h09

CANNES - O diretor chileno Pablo Larraín qualificou seu mais recente filme, Neruda, como “antibiografia”. Em parte verdade fato, em parte fantasia, o filme tem início em 1948, pouco antes de o poeta (magnificamente interpretado por Luis Gnecco) ser forçado a se esconder. Senador e comunista, Neruda foi considerado inimigo do Estado quando condenou violentamente e em público o presidente chileno Gabriel González Videla. Expulso do Senado e da sua casa, Neruda teve de fugir com sua mulher, Delia (Mercedes Moran) e o casal passa a viver na clandestinidade, mas continuamente perseguido por um petulante policial (interpretado por Gael García Bernal).

Em Neruda, Larraín se afasta dos clichês sobre a vida até a morte do poeta em favor de um filme formalmente empolgante, inserindo Neruda num momento histórico específico e mostrando-o como o poeta do povo – dos intelectuais, trabalhadores e prostitutas.

O filme foi exibido na Quinzena dos Realizadores, mostra que acontece paralelamente ao Festival de Cannes. O último filme de Larraín, de 39 anos, exibido na Quinzena em 2012, foi No, episódio final da sua trilogia sobre a vida à época da feroz ditadura Pinochet.

Conversei com Larraín sobre biografia, cinema e por que Neruda – que é um filme muito melhor do que alguns da competição oficial do festival, não estava na seleção principal de filmes. Abaixo, trechos da nossa conversa.

Você não quis fazer uma biografia típica. Por quê?

Porque acho que filmes biográficos são perigosos, gostei de poucos. Acredite, li quatro biografias, li a autobiografia de Neruda, um belo livro. Conversei com pessoas que tiveram contato com ele, li centenas de ensaios sobre sua vida e realizei um filme chamado Neruda. E confesso que, mesmo agora, não tenho a mínima ideia de quem era ele, porque Neruda é impossível de ser captado, de ser enquadrado em uma categoria. Você pode realizar 100 filmes sobre ele e jamais conseguirá isso. Assim, quando você entende esta problemática, se sente muito mais livre. Por isso, qualifico esse filme como “Nerudiano”, porque para nós – em meu país e em nossa língua –, Neruda foi um homem que criou um cosmo muito complexo e profundo. Era um maravilhoso cozinheiro, especialista em vinho, em literatura, romances policiais. Um homem que colecionava todo tipo de coisa. Ele possuía três casas, que hoje são museus e alguns dos mais belos do mundo. Sua poesia é muito variada. Neruda escreveu sobre múltiplas coisas de múltiplas maneiras, de modo que é terrivelmente complexo. Por isso, decidimos nos concentrar não nos poemas que foram traduzidos e são conhecidos em todo o mundo, seus poemas de amor – mas naqueles que expressam raiva e fúria, que combinam política e ideologia com poesia, e criar este paradoxo, este espaço não realista.

Poderia falar sobre o ator principal do filme, Luis Gnecco? A semelhança com Neruda é incrível. A maquiagem e outros efeitos ajudaram?

Somente a peruca. É engraçado porque trabalhei com Luis muitas vezes. Ele atuou também em No. É um ator durante toda a sua vida lutou com problema de peso. Finalmente conseguiu emagrecer. Eu o procurei, convidando-o para fazer o filme. Ele concordou, imediatamente. Mas ele teria de engordar 25 quilos, o que é bastante. Ele me olhou e disse. “Pablo, levei um ano para chegar aqui.” Eu respondi: “Meu caro, Neruda era um homem que desfrutava da vida, você tem de engordar”. E ele aceitou e engordou, o que foi fantástico. Era importante. Impossível ter um Neruda magro.

O filme me pareceu um pouco púrpura, como quando filmes coloridos antigos ficam rosados. Era o que você aspirava?

Um pouco. Em espanhol dizemos “lilás”. É vermelho e azul e filtramos a cor. Foi complicado achar o tom exato. Refizemos várias vezes o trabalho de correção da tonalidade. Não queríamos um tom exagerado. Tínhamos de achar o equilíbrio para chegar àquelas cores.

Você pretende um dia fazer um filme sobre Salvador Allende?

Não é meu objetivo agora. Já pensei nisso, mas não acredito que o farei. O problema é que, se você faz um filme sobre alguém como ele, tem de criar alguma empatia, compaixão, respeito, e jamais conseguiria. Guardo muito ódio.

Em 2012, você afirmou ter sido criticado porque seus pais eram de direita, seu pai senador. Ele ainda ocupa o cargo?

Sim. Quando você realiza filmes como No, as pessoas esperam que o filme se torne uma obra internacional – e conte a história para aqueles que não a conhecem. E, às vezes, o filme não produz esse efeito e isso as perturba. Lembro de um indivíduo que qualificou o filme de lixo ideológico. Eu o achei excelente. Mas o cinema não é para isso. Não estou aqui para dizer às pessoas o que elas têm de pensar, não quero mudar nada. Nem me sentir responsável. Não creio em responsabilidade. Acredito em respeito, o que não o é mesmo.

Então, por que o seu filme não está competindo?

(Risos) Naturalmente, o que ocorre em particular deve ficar em particular. O que é aborrecido, mais do que não estar concorrendo, é responder a essa pergunta em 15 entrevistas. Você produz filmes, não os seleciona. Falamos com as pessoas que decidem em Cannes e não houve acordo. E Edouard Waintrop, da Director’s Fortnight, adorou o filme. Estive aqui três vezes e é como tudo na vida, você vai aonde se sente amado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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