Ozon homenageia musas do cinema

Na cena mais enigmática e, no fundo, esclarecedora de Depois da Vida, o grande filme de HirokazuKore-eda, a garota olha para cima e vê o que parece a Lua, maslogo fica-se sabendo que não é. Kore-eda criou uma metáforavisual para o olho da câmera. Ela confirma que Depois daVida é, entre outras coisas, um filme genial sobre o cinema. Oque isso tem a ver com 8 Mulheres? Nada, essa palavra que,você sabe, é usada quando o que se quer dizer é "tudo". 8Mulheres também é um filme sobre o cinema. Menostranscendental do que o de Kore-eda, com certeza, mas divertidoe inteligente, desde que você se disponha a analisar as pistasfornecidas pelo diretor.Pistas, justamente. Ozon se baseou num vaudevillepolicial de Robert Thomas. A peça é um whodunit que se esgotacom a decifração do mistério do que parece ser um assassinato.Não é, mas de certa forma termina sendo. Essa confusão foi queatraiu o diretor, pela possibilidade que lhe oferece de discutiro caráter ilusório do cinema. A peça é isso, o filme é mais queisso. Ozon misturou os gêneros, carregou nas citações ereferências. Aquelas oito mulheres não estão ali por acaso.Basta seguir as pistas. Afinal, trata-se de um policial, mesmoque também seja musical.Para entender o que Ozon pretende, é essencial umdiálogo de Catherine Deneuve com Virginie Ledoyen. São falas quese referem ao amor, à família, à relação entre homem e mulher.São duas frases retiradas dos filmes A Sereia do Mississippie O Último Metrô, ambas ditas para a própria Catherine, aprimeira por Jean-Paul Belmondo e a segunda por GérardDepardieu. Ao ouvir as frases, Fanny Ardant, que também está emcena, tem um estremecimento. Um plano de detalhe mostra a emoçãoque ela sente. Essa emoção é menos da personagem que da atriz.Fanny era casada com o diretor dos dois filmes, FrançoisTruffaut. Estava ao seu lado, quando ele morreu.Lesbianismo - Mais tarde, Catherine e Fanny rolam nochão, de arma na mão - e a cena evolui para uma situação delesbianismo entre as personagens. Novamente, aqui, há umacitação e, mais uma vez, de Truffaut. Fanny e Depardieu tinhamuma cena similar em A Mulher do Lado. Aqui, além dareferência, há também um comentário irônico de Ozon: se a cenarealmente reproduz A Mulher do Lado, quem faz Depardieu?Catherine ou Fanny? Ozon, realmente, é mais irônico einteligente do que parece: as oito mulheres do título são nove,desde que seja acrescida à lista a homenagem que o diretorpresta a Romy Schneider. Há, de novo, aqui, o que os franceseschamam de "clin d´oeil".Romy, na obra de Claude Sautet, foi sucedida porEmmanuelle Béart, que usa, se você é cinéfilo deve ter reparado,o mesmo uniforme de Jeanne Moreau em O Diário de UmaCamareira, de Luis Buñuel.Em setembro do ano passado, o diretor esteve no Rio paraexibir Sob a Areia na Mostra BR 2001. Estava satisfeito com8 Mulheres. Havia conseguido reunir o elenco de seus sonhos.Explicou que, depois que a primeira estrela disse sim, todas asoutras vieram alegremente, atendendo ao seu chamado. Catherine,Emmanuelle, Fanny, Isabelle Huppert, Virginie e as outras. Nuncateve dúvida de que Danielle Darrieux era fundamental no projeto.Por quê? Porque ela foi a mãe de Catherine em Duas GarotasRomânticas, de Jacques Demy, e Minha Estação Preferida, deAndré Techiné. Por que separar uma família cinematográfica tãoapreciada pelos cinéfilos? Tem mais: Danielle, no filme, éacusada de matar o marido por envenenamento. Era o que jáocorria em Amor Traído, o policial que ela fez nos anos 1940com seu então marido, Henri Decoin, e que o Telecine Classicexibe neste domingo, às 22 horas.A revista francesa Studio fez um quadro muitointeressante das referências de Ozon em 8 Mulheres. Colocou,lado a lado, o filme atual e o que lhe serviu de modelo. Aquelaroupa cor-de-rosa de Virginie? É a mesma que Audrey Hepburn usaem Sabrina, de Billy Wilder, só que lá ela se veste de pretoe aqui o diretor quis uma cor mais viva (e leve) para ressaltara aparente ingenuidade da personagem. Até a franja que Virginieusa é inspirada em Audrey. Ludivine Sagnier é, ao mesmo, a filhade Lana Turner (Sandra Dee) em Imitação da Vida, de DouglasSirk, e Leslie Caron em Sinfonia de Paris, de VincenteMinnelli. Firmine Richard, que faz a governanta, também é, aomesmo, Hattie McDaniel de ...E o Vento Levou, de VictorFleming, e Juanita Moore no já citado Imitação da Vida.Na dança de Fanny Ardant, o diretor reproduz o famosostrip-tease de Rita Hayworth em Gilda, de Charles Vidor,embora o visual da atriz tenha mais a ver com a Ava Gardner deA Condessa Descalça, uma das obras culminantes (primas?) deJoseph L. Mankiewicz. Ainda no quesito dança, a de Catherineinspira-se na Marilyn Monroe de Os Desajustados, de JohnHuston, e se você reparar bem vai ver que o diretor impõe aCatherine, mais loira do que nunca, o mesmo gesto de Marilyn, deolhar para o lado e para baixo, com o corpo virado e a mão nocabelo. Ozon teve um prazer todo especial em recriar, por meioda personagem de Isabelle Huppert, aquelas solteironas quefreqüentavam as comédias de Hollywood nos anos 1950, semesquecer uma pitada da maldade de Bette Davis e a transformaçãofinal - que também tem a Rita Hayworth de Gilda comoreferência.Ozon cumpriu aquilo a que se propôs: fez um filme que éuma homenagem às suas atrizes maravilhosas e também às atrizesde Hollywood nos anos 1950. É, como Truffaut, um homem que amaas mulheres. Por meio dessas referências, fala sobre o cinema e,por que não?, torna intrigante o que poderia ser só um policialfurreco. Em certos momentos, com as atrizes certas, atinge mesmoa emoção. Não admira que, na França, um país de cinéfilos, 8Mulheres tenha feito 5 milhões de espectadores.

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