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Outro Tarzan, e diverso da Disney

Em sua animação, o alemão Kloos vai à fonte de Edgar Rice Burroughs e do garoto selvagem de Truffaut

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2014 | 02h07

Quem viu o trailer de Tarzan - A Evolução da Lenda, pode (deve?) ter ficado bem animado com a simpatia do casal José Loreto/Débora Nascimento. A dupla global empresta a voz a Tarzan e sua Jane. "Para, Zé!", brincava Débora quando ele cheirava seu cangote, o cabelo. "Não tá levando o laboratório longe demais, hein?" As brincadeiras do trailer, o que ambos falam de seus personagens, é mais do que dizem no filme. O diretor alemão Reinhard Kloos vai à origem da lenda. Sua animação é sobre o garotinho que sobrevive à morte dos pais, é criado na selva por uma fêmea gorila - que também perdeu o filhote.

Tarzan corre feito bicho, movimentando-se sobre pés e mãos, transformados em patas. Não fala - grunhe feito macaco. Teria sido interessante acompanhar a gravação. Ela tanto pode ter durado meia hora - Loreto fala o mínimo, ou melhor, grunhe o mínimo -, como pode ter demorado dias. Afinal, o laboratório para viver um macaco... Tarzan, o homem-macaco, o rei da selva, tem sido um personagem referente no imaginário do leitor e espectador do século 20 e, agora, 21. Faz mais de 100 anos que ele surgiu, criado pela pena do escritor Edgar Rice Burroughs (em 1912). O cinema imediatamente percebeu o potencial de suas aventuras e podem ser listados quase 200 filmes para cinema e televisão.

O primeiro Tarzan da tela data do período silencioso. Foi Elmo Lincoln, em 1918. O mais popular foi o ex-campeão de natação Johnny Weissmüller, já no período sonoro. Foi ele, até pela existência do som, o primeiro a emitir o célebre grito animalesco de vitória do herói. A melhor Jane foi Maureen Sullivan, mãe de Mia Farrow. No Brasil, as aventuras eram publicadas na antiga Coleção Terramarear, que forjou/formou o imaginário dos jovens na era anterior à TV. Os tradutores - alguns - eram Monteiro Lobato, Mário Quintana. Na sequência vieram os quadrinhos. Hal Foster foi o primeiro ilustrador, mas ninguém duvida que Burne Hogarth, com sua selva barroca, mistura de Michelangelo com expressionismo alemão, foi ainda melhor.

Em meados dos anos 1980, o inglês Hugh Hudson fez Greystoke, a Lenda de Tarzan - O Rei da Selva, com Christophe Lambert. Na contramão de uma aventura movimentada, o filme reabria a vertente rosselliniana de O Garoto Selvagem, de François Truffaut, de 1970. Reinhard Kloos traz para o desenho o mesmo conceito do garoto selvagem. Muita gente - críticos - tem desdenhado o que parece uma mistura nonsense. Tarzan começa milhões de anos atrás, com o meteorito que caiu na Terra, provocando um cataclismo que destruiu os grandes dinossauros. A teoria mais aceita é de que caiu na América Central, mas na ficção de Tarzan cai na África. Um corte no tempo e seguimos a expedição científica que busca vestígios do evento catastrófico.

JJ, que se autointitula Tarzan, é filho do magnata Greystoke. Seu pai chega - por acidente - ao meteorito, mas logo ocorre o acidente de helicóptero que provoca sua morte e a da mulher. Tarzan é criado pela macaca, vira rei da selva, até que surge Jane e ele cai de amores. O desdém dos críticos vem justamente pela mistura de meteorito, dinossauros, helicópteros. É sinal de que nunca leram o Tarzan de Edgar Rice Burroughs. Hollywood formatou um tipo de aventura - boy meets girl, África, tribos selvagens, Cheeta, vilões que em geral buscam ouro ou animais raros -, mas os livros são outra coisa. Assim como viajou ao futuro e fez ficção científica em John Carter, Burroughs viajou ao passado e Tarzan, como um herói de Mark Twain, foi parar na corte do rei Arthur, no Império Romano. À maneira de Jules Verne, viajou até Pelucidar, no centro da Terra.

Nada estranho, portanto, que Reinhard Kloos tenha tomado liberdades para 'atualizar' sua história. O Tarzan dele não tem nada a ver com o da animação da Disney, direção de Kevin Lima e Chris Buck, de 1999, com aqueles bichinhos amáveis (e até cantantes). Apesar do excesso de música, o mundo é agora mais primitivo. Tarzan é uma fera, criado como tal. Mesmo tocado pelo amor, encarna o conflito que interessava a Hugh Hudson, entre o instinto e a cultura repressora. O 3-D realça a exuberância da selva, mas os humanos têm algo de tosco, da mesma forma que a história se resume a um 'plot'. O restante é quase um documentário animado sobre a selva. A criançada talvez sinta saudades do Tarzan da Disney. Os adultos formados na Coleção Terramarear talvez se sintam homenageados pela tentativa de capturar, senão a evolução, pelo menos a essência da lenda.

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