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Ousadias estéticas e políticas em ‘O Último Trago'

O longa do coletivo 'Aumbramento destaca-se pelo visual e pelo viés feminista na abordagem da História do Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2019 | 19h15

Foram três Candangos no Festival de Brasília de 2016 – melhor atriz coadjuvante para Samya de Lavor, melhor fotografia para Ivo Lopes de Araújo e melhor montagem para Clarissa Campolina. Passados quase três anos, O Último Trago estreou na quinta passada, e vai dobrar semana amanhã. A produção é do Alumbramento, o coletivo de Fortaleza que marcou o cinema brasileiro da última década. Tudo começou quando Estrada para Ythaca venceu a Mostra Aurora, de Tiradentes, em 2010. Os irmãos Pretti e os primos Parente entraram na geografia do cinema brasileiro. Nos anos seguintes, e mesmo com resultados desiguais, apresentaram propostas interessantes. Mantiveram-se em atividade, e os Pretti como montadores deram importante contribuição a outros diretores autorais e independentes.

O Último Trago nasceu do encontro dos diretores com a produtora Vania Catani, da Bananeira. Vania exortou-os a fazer um filme com mais recursos. Eles atenderam ao pedido formulando uma história que reverbera em escolhas estéticas que remetem ao cinema de gênero. De cara, um mapa é reduzido a cinzas, eliminando referências geográficas e temporais. A partir daí, a ação transcorre num bar de beira de estrada, num sertão cosmetizado por uma estética que não é a da fome do Cinema Novo. Esse espaço é habitado por personagens que parecem saídos de várias ficções. Bêbados, marinheiro, cantora de saloon, sicários. “A história foi saindo com toda liberdade, dando vazão à nossa imaginação de cinéfilos de filme B”, contaram Ricardo Pretti e Pedro Diógenes em conversa com o repórter. São dois dos diretores creditados, e o filme tem um terceiro, Luiz Pretti.

“A aparência pode ser realista, mas o tratamento não é”, dizem os diretores. E o que eles pretendem, com essa narrativa permeada de referências e influências, com esse relato que se retroalimenta de westerns e aventuras nos mares, no fundo é algo grandioso – refletir sobre a história do Brasil, naquilo que ela tem de resistência contra a exploração e a exclusão social. 

“A fotografia, os adereços, tudo se elabora no registro de uma artificialidade buscada, e a fotografia do Ivo é muito elaborada”, comenta Diógenes. E Ricardo – “O relato é marcado pela teatralidade, e o filme tem participação de atores que são muito conhecidos na cena de Fortaleza. Acho que, nesses anos todos, foi a grande contribuição do Alumbramento. A gente se manteve unido, lançando uma luz sobre várias correntes artísticas de lá.” Recapitulando – Estrada para Ythaca mostrava aquele bando de machos que caía na estrada bebendo e aprontando. Criou-se, de alguma forma, a mística de um cinema masculino, senão machista. O Último Trago poderia aprofundar o viés, mas o trio de diretores surpreende. 

O próprio prêmio de montagem para uma mulher ressalta algo que já está na dramaturgia do filme. A revolta de mulheres índias e negras, a frente formada por Samya e Mariana Nunes. Não é um filme fácil porque não conta uma história linear, mas, fragmentado como é, O Último Trago possui momentos de grande cinema que farão a delícia do cinéfilo. O movimento de câmera quando a mulher canta e o homem se desloca fora do bar é de um virtuosismo exemplar. A cena do toque, a ternura entre os homens, é intensa. O trio de diretores ousa. A paleta de cores, o chapadão atrás do bar. Há algo de fantástico nessa história fantasmática. Os Pretti e Paulo Diógenes sabem disso e, conscientemente, citam o manifesto de André Breton. O Último Trago é pródigo em camadas.

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