'Otávio e as Letras' discute o excesso informações visuais

Filme de Marcelo Masagão em parceria com sua mulher nasceu do desejo de refletir sobre problema moderno

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 Abril 2025 | 16h33

Marcelo Masagão brinca dizendo que 1 milhão de pessoas vão assistir a seu novo longa, Otávio e as Letras. Ele só não sabe quanto tempo vai ser preciso para isso. Nas três, quatro semanas em que Otávio permanecer em cartaz, certamente não, mas em dez anos... Quem sabe? A verdade é que ele não se preocupa muito com a questão do mercado. Masagão é um solitário no panorama do cinema brasileiro, como Robert Bresson no francês. Ele se considera cada vez mais pesquisador, em vez de cineasta. Otávio e as Letras prossegue com suas pesquisas.  Veja também:Trailer de 'Otávio e as Letras'  Trailer de 'Fôlego'  Trailer de 'Pecados Inocentes' Trailer de 'Três Vezes Amor'    O filme em parceria com sua mulher, a psiquiatra Andréa Menezes Masagão, nasceu do desejo de refletir sobre um problema moderno - o excesso de signos, de informações visuais que qualquer pessoa identifica hoje. Basta olhar ao redor. "Não digo que seja bom nem mau", explica o diretor. "Essa verdadeira ‘doença’ que nos assola - a definição é do crítico, escritor e professor Jean-Claude Bernardet - é uma tendência irreversível e afeta nossos neurônios, isso sim." Otávio e as Letras quer pensar sobre isso.  Ao escrever o roteiro com a mulher, Masagão sentiu-se muito apegado ao real. Otávio surgiu de uma figura que realmente existiu, num instituto psiquiátrico em que Andréa trabalhou. O filme parecia muito preso aos clichês. Tudo o que mostrava já fora visto, de alguma forma. A solução foi deixar de nomear as coisas, para dar-lhes um novo sentido. "Ficou um filme mais abstrato", define Masagão. A ‘história’ trata de três personagens obsessivos numa São Paulo transfigurada. Otávio é esse homem obcecado por tudo que se refere às letras. Colecionador, adquire livros em sebos, carrega anúncios e revistas de consultório para casa e ali os rabisca. Depois, espalha a papelada rabiscada pela cidade. Sua vizinha, Clara, é uma voyeuse - o feminino de voyeur -, que fotografa pessoas da janela de casa e utiliza reproduções de pinturas famosas para elaborar uma biografia de sua família. Ela se torna cliente do taxista Artur que também tem o hábito de fotografar a cidade de São Paulo, sem que nas fotos apareçam pessoas. A intenção declarada do diretor era (é) discutir a palavra - e o excesso de signos - no mundo contemporâneo. Como todo filme de Masagão - Nós Que Aqui Estamos por Vocês Esperamos, 1,99 - Um Supermercado Que Vende Palavras, etc. - é difícil de enquadrar numa categoria. Mas é instigante, original e muito criativo, com um ator fantástico - Donizete Mazonas. Um produto raro no mercado. Pode não ser agora, mas em dez anos, se tiver atingido 1 milhão de pessoas, Otávio é o tipo do filme que poderá permanecer nelas.

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