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Óscar Jaenada dá show no filme 'Cantinflas'

Sebastian Del Amo recria elo entre ator e o herói de Chaplin

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2014 | 03h00

Houve um clamor no México quando o diretor Sebastian del Amo escolheu um ator espanhol - Óscar Jaenada - para ser Cantinflas em sua biopic sobre o lendário astro mexicano dos anos 1940 e 50. Nas redes sociais, o protesto foi instantâneo - parecia absurdo, quando não desrespeitoso, que não houvesse um ator mexicano adequado para interpretar uma das glórias nacionais. Na estreia de Cantinflas, havia clima para o que poderia ter sido um massacre. Virou unanimidade. Apesar do sucesso de público, Cantinflas decepcionou a maioria da crítica. Já o ator só recebeu elogios. Na voz, nos gestos, Jaenada logra converter-se em Cantinflas diante da câmera. É a alma e o melhor do filme que estreia hoje.

Cantinflas foi indicado pelo México para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro e, como tal, compete com o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Nada mais diferente do que a história (dramática) de um grande comediante e a do garoto cego, e gay, que supera preconceitos e sai do armário. Até meados de dezembro, saberemos se os dois filmes ficaram entre os pré-finalistas e, depois, em janeiro, se estarão entre os cinco que vão concorrer ao prêmio. Por mais que os críticos contestem o Oscar, é o prêmio mais popular do cinema. E o Brasil nunca ganhou. Terá chance com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho?

Pode não ser necessariamente uma vantagem, mas o filme mexicano já começa em ritmo de Oscar. O recorte de Del Amo começa justamente nos bastidores de A Volta ao Mundo em 80 Dias. Em 1956, o longa dirigido pelo inglês Michael Anderson e produzido por Michael Todd - então marido da superstar Elizabeth Taylor - foi indicado para vários prêmios da Academia e ganhou na categoria principal. Embora considerado o melhor filme, não somou o prêmio de direção, atribuído ao George Stevens de Assim Caminha a Humanidade/Giant - com Elizabeth Taylor num de seus melhores papéis. A Volta ao Mundo baseia-se no livro de Jules Verne sobre a aposta feita pelo cavalheiro britânico Phileas Fogg de que conseguirá dar a volta ao mundo em 80 dias. Ele parte acompanhado por seu fiel valet, Passepartout. Envolvem-se em muitas aventuras e há uma pirueta final, o suspense decorrente de uma corrida contra o tempo até sabermos se Fogg venceu sua aposta, ou não.

Justamente 1956 foi um ano decisivo para Cantinflas. Um astro no México e em todo o cinema de língua espanhola, ele obteve sua consagração definitiva em Hollywood. Como Passepartout, senão o Oscar, ele ganhou o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante de comédia ou musical. Na tela, e fora dela, Cantinflas volta à Academia. Resta saber até que ponto isso poderá afetar os votantes.

Biopics, os filmes biográficos, formam um gênero difícil. Às vezes, dão muito certo, como a Piaf de Olivier Dahan, servida pela sublime interpretação de Marion Cotillard. Na maioria das vezes, deixam a desejar. Cantinflas tem tudo que, a priori, poderia resultar num grande filme. Do ponto de vista técnico, é impecável. A fotografia e também a direção de arte, os figurinos recriam à perfeição a chamada era de ouro do cinema mexicano, embora talvez seja um problema que Carlos Hidalgo trabalhe agora com a cor e, na época, o que saltava aos olhos eram os deslumbrantes claros-escuros das fotografias em preto e branco do mago Gabriel Figueroa.

A interpretação de Óscar Jaenada beira a perfeição. O espectador familiarizado com o estilo de Cantinflas tem a impressão de que ele ressurge mais jovem na tela. Existem detalhadas informações sobre como Mario Alfonso Moreno Reyes virou o cômico latino mais popular em todo o mundo. Está tudo lá, mas algo falta. Por mais apreciável que seja, Cantinflas não é o grande filme que se espera, ou que se poderia esperar.

Del Amo e o roteirista Edui Tijerina fizeram direitinho sua lição de casa. Contam a origem modesta e a forma como, desde os anos 1930, Mario Moreno foi modelando Cantinflas. Revelam a origem do nome e até aspectos mais íntimos, como a impossibilidade de ter filhos, o que foi um drama. É verdade que muitos personagens secundários não ajudam. Não têm vida. Cumprem seu papel na história sem dizer a que vêm, e isso enfraquece o conjunto. Pois a história de Cantinflas, e isso é tênue no filme, é também a de uma época.

Mario Moreno nasceu na Cidade do México, em 1911. Morreu na mesma cidade em 1993, aos 81 anos. Embora Cantinflas tenha surgido no teatro (de variedades) e no cinema em 1936, o personagem só toma sua forma definitiva em Ahi Está el Detalle, de 1940. Não importa que o diretor de seus filmes, Miguel Delgado, seja medíocre. Cantinflas logra estabelecer uma universalidade que independe da língua. As calças caídas, a camiseta com gravata, o gesto de cofiar os bigodes quando quer-se fazer sedutor, há algo de Carlitos na figura de Cantinflas e ele, além do mais, representa os problemas e aspirações dos pobres - dos despossuídos - da América Latina e do mundo. 

Quando fala, e seu humor é tão verbal quanto físico, Cantinflas diz frases sem sentido, balbucia mais que articula as sentenças, e essa também é uma forma de expressar características de sua classe social. Há nele um respeito mítico pela cultura superior - que lhe escapa -, uma crença sem limites na bondade natural dos indivíduos. É interessante ressaltar que, enquanto Cantinflas perfecciona seu (anti) herói, o cinema brasileiro produz suas figuras míticas, comediantes tão grandes quanto ele - Oscarito, Grande Otelo -, mas nem o segundo, apadrinhado por Orson Welles, consegue transpor as fronteiras geográficas e de idioma para se impor ao mundo.

Só Cantinflas consegue, e graças a Hollywood. Primeiro, com A Volta ao Mundo em 80 Dias e, depois, com Pepe, de George Sidney, de 1960, no qual existem referências ao Globo de Ouro e ao Oscar. O mais curioso é que, no Brasil, na Atlântida, diretores como Carlos Manga, Watson Macedo e José Carlos Burle criaram uma estética da paródia que virou cultura de resistência contra a dominação de Hollywood. No México, fosse porque Delgado era mesmo inepto, a paródia não funcionou nem quando Cantinflas se apropriou de ‘clássicos’ como Romeu e Julieta, de Shakespeare, e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Seu público não queria vê-lo em outro papel que não o dele. Mais que um grande ator, foi um grande personagem. O México retratava-se nele. Pode seguir-se retratando em Óscar Jaenada mais que no filme de Del Amo como um todo.

CANTINFLAS - A MAGIA DA COMÉDIA

Direção: Sebastian del Amo. Gênero: Drama 102 min.). Classificação: 12 anos. 

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