Carlo Allegri//Reuters
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Oscar de 2022 luta por audiência e quer conquistar público jovem

Principal premiação do cinema mundial busca ampliar diversidade

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estadão

17 de março de 2022 | 05h00

O Oscar, essa venerável instituição do cinema norte-americano, encontra-se diante de desafios cruciais, inéditos desde que o prêmio foi criado em 1926. Peça importante no esquema de difusão do cinema do seu país, vê-se acusado de falta de representatividade em seu próprio território. Talvez ligado a esse primeiro termo, também é preocupante a diminuição da audiência de sua cerimônia de premiação - a de 2021 caiu 58% em relação à de 2020. Esta, por sua vez, foi 20% menor que a de 2019. Números alarmantes para um espetáculo televisionado para 225 países e territórios em todo o mundo. Os dados são da Nielsen, empresa que monitora audiências em nível global. Estaria o Oscar em crise?

Quanto à primeira questão, não se pode acusar a Academia de imobilismo. Pelo contrário. Nos anos recentes, tem sido consistente a tentativa de aumentar a dimensão do corpo de votantes dos prêmios, incluindo pessoas não-brancas e de outras nacionalidades.

Artigo da Hollywood Reporter (“Why the Oscars Have Become Harder than Ever to Predict”) traz os números desta renovação. Até o movimento #OscarsSoWhite, que denunciava a ausência de pessoas não-brancas entre os indicados de 2016, a Academia costumava incorporar cerca de 300 novos votantes a cada ano. Em 2016, saltou para 683. Nos anos seguintes, foram 774, 928, 842 e 819. Caiu um pouco em 2021, quando 375 novatos se somaram  ao grupo. Resultado da conta: 4421 dos integrantes da Academia, cujo total de membros ativos é de aproximadamente 9400, não faziam parte da entidade seis anos atrás. Ou seja, 47% do colégio eleitoral agora é composto de recém-chegados. Mais: desses novos membros, 25 % são provenientes de países estrangeiros. Em 2015, esse número era de apenas 12%. Hoje, 75 países, de seis continentes, estão representados na Academia de Hollywood.

Os últimos dois anos testemunharam efeitos dessa política de inclusão. O ápice deu-se com a eleição de Parasita como melhor filme em 2020 - inédita premiação de uma produção coreana, falada em coreano, com atores e atrizes do país asiático, trazendo uma análise original das contradições sociais da Coreia do Sul. Ainda por cima, um filme político! Quer prova maior de cosmopolitismo?

Pode-se dizer que a política global e inclusiva da Academia ainda precisa dar mostras de consistência, continuidade e abrangência - o que, claro, só se verá com o tempo. A premiação do ano seguinte à de Parasita, embora não tão radical, não deixou também de mostrar os efeitos dessa política. O vencedor foi Nomadland, uma obra limítrofe entre o documentário e a ficção, tendo por foco os esquecidos do sonho americano, e dirigida por uma chinesa de origem, Chloe Zhao.

Esse processo terá continuidade esse ano? Só teremos a resposta dia 27, quando os envelopes forem abertos na 94ª cerimônia da Academia de Hollywood. Pode haver surpresas - ninguém em sã consciência teria apostado em Parasita em 2020 -, mas tudo indica, se não uma regressão, pelo menos uma relativa estabilização nesse processo que podemos chamar de “abertura”. O mais indicado é Ataque dos Cães, filme de época em língua inglesa, ambientado nos Estados Unidos, porém dirigido por uma neozelandesa, Jane Campion. Tem nada menos que 12 indicações.

Se o filme vencer, e Jane Campion também levar o prêmio de melhor direção, será apenas a terceira mulher a vencer nessa categoria (as outras são Kathryn Bigelow e Chloe Zhao). E também há que se destacar o fato de que esta mulher é de outro país, embora faça parte da comunidade mundial de língua inglesa.

Qual poderia ser o convidado-surpresa à festa do Oscar 2022? Sem dúvida, o extraordinário Drive My Car, do japonês Riusuke Hamaguchi, que concorre nas categorias de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um conto de Haruki Murakami) e filme internacional.

Fora Hamaguchi, com suas quatro indicações, a participação estrangeira no Oscar 2022 ainda é modesta. O espanhol Javier Bardem concorre a melhor ator, porém num filme norte-americano, Apresentando os Ricardos. Fala inglês com sotaque latino, interpretando o cubano-americano Desi Aznar em seu complicado casamento com Lucille Ball, de I Love Lucy. Eskil Vogt e Joachim Trier concorrem a melhor roteiro com A Pior Pessoa do Mundo, produção da Noruega que disputa também a categoria filme internacional. Penélope Cruz está no páreo para melhor atriz com Madres Paralelas, filme de Pedro Almodóvar que também concorre a melhor trilha sonora, assinada por Alberto Iglesias.

Na categoria documentário há uma permeabilidade maior. O indiano Escrevendo com Fogo e o dinamarquês Fuga (Flee) disputam o troféu com o favorito Summer of the Soul, e Attica, ambos dos EUA. Ascension, dirigido pela sino-americana Jessica Kingdon, tem por objeto as contradições do capitalismo estatal que levou a China ao protagonismo econômico mundial. Um combinado bastante heterogêneo, convenhamos. E, claro, há a categoria “filme internacional”, antes chamada de “filme estrangeiro”, reservada às produções de língua não-inglesa.

Essa abertura já é alguma coisa, ou talvez muita coisa, quando se olha o retrospecto. Mas, convenhamos, ainda é tímida para uma premiação que se deseja de fato inclusiva e global. Pode-se considerar, como atenuante, que a radical ampliação e mudança de composição da Academia seja vista como parte de um processo e não como fato acabado. Como tal, sujeita a avanços e recuos, porém com direção definida. Mas, claro, a nossa interpretação desse processo oscilante mudará caso a Academia faça uma surpresa e premie Hamaguchi, seja como melhor filme ou como melhor diretor. Ou ambos - o que significaria a continuidade da revolução iniciada com a escolha de Parasita como melhor filme em 2020.

A perda de audiência talvez esteja ligada a essa falta de representatividade, ainda não resolvida e estabilizada. É explicável. Tendemos a nos desinteressar de instituições ou atividades que não parecem nos dizer respeito. O inverso ocorre quando nos sentimos incluídos, respeitados, disputando distinções em igualdade de condições com os outros concorrentes. Sentimo-nos acolhidos na festa, o que ainda está longe de acontecer com o Oscar.

Curiosamente, o diagnóstico da Academia aponta outros fatores para a perda de audiência. Admite que a cerimônia é mesmo longa (mas não acredita que seja chata, como de fato é). Por isso, quer enxugá-la, entregando oito prêmios fora de cena para que seja mais ágil. Mas é desanimador ler que, mesmo assim, a festa terá mais de três horas, a serem bem empregadas nos números musicais, agradecimentos longos dos vencedores e piadas das apresentadoras, as atrizes Amy Schumer, Wanda Sykes e Regina Hall.

Bem, o humor stand-up é uma tradição norte-americana adotada pelos apresentadores do Oscar, mesmo quando não são cômicos profissionais. Nem sempre o humor viaja bem. Quase nunca. De modo geral, estrangeiros acham as piadas sem graça. Ainda mais quando se perdem na tradução - e nem todos são fluentes em inglês a ponto de entendê-las no idioma original. As canções, que fazem sentido no contexto dos filmes, raramente têm qualidade para serem apreciadas em separado, como acontece na cerimônia.

Quanto aos agradecimentos, entende-se que seja um momento de euforia para os vencedores, que querem partilhá-lo com pais, amigos, parentes, colaboradores. Mas o que temos, de fato, a ver com isso? Em geral, torcemos para que acabem rápido e passemos ao prêmio seguinte. As exceções - como as históricas e divertidas entregas de prêmios pela carreira a Federico Fellini e a Billy Wilder - são apenas isso, casos isolados que justificam a regra.

Há outro ponto, talvez a ser considerado quando se tenta entender a queda de audiência: a ausência de blockbusters entre os indicados às categorias principais. São, é óbvio, as produções de maior bilheteria, sucessos globais e que fascinam em especial o público jovem.

No Oscar deste ano, 007 - Sem Tempo para Morrer disputa as estatuetas de canção original, som e efeitos visuais. Homem-Aranha: Sem Volta para Casa concorre apenas em efeitos visuais.

Preconceito da Academia contra as chamadas “franquias” - filmes em série, histórias de super-heróis da Marvel, etc.? Pode ser. Mas não se pode acusá-la de ser contra o sucesso. Campeões de bilheteria, como …E o Vento Levou, Ben-Hur, Poderoso Chefão 1 e 2, e Titanic foram premiados. Outro blockbuster vencedor em anos recentes foi O Senhor dos Anéis, este baseado em obra de prestígio no gênero fantasia, a do britânico J.R.R. Tolkien.

De modo geral, a Academia tem esnobado esses filmes de grande público. Tende a considerá-los de baixa qualidade artística, embora relevantes nos aspectos técnicos, que, de fato, têm sua importância na indústria do cinema. Mas a Academia reserva as categorias principais para filmes de grandes atores e atrizes, com roteiros bem construídos e temas considerados importantes ou edificantes. O chamado “top five” da premiação do Oscar é composto pelas categorias de melhor filme, direção, ator, atriz e roteiro.

Nesse subclube fechado, os blockbusters não têm vez. E, no entanto, é deles que os jovens, o público do presente e do futuro, gostam. Esse é um dilema da Academia, de fato difícil de resolver. Como atrair a moçada, que ignora os filmes que disputam as categorias principais e adoram as produções relegadas a categorias secundárias?

O que fazer? Rebaixar critérios de avaliação estética em busca desse público? Não é tão fácil mudar a mentalidade de toda uma comunidade de uma hora para outra. E, no limite, talvez fosse mesmo um tiro no pé, com a Academia arriscando-se a não conquistar os jovens e perder credibilidade junto àquela parte do público adulto que ainda considera a premiação de Hollywood o melhor selo de qualidade de um filme.

Momentos cruciais

2016. #OscarSoWhite. A denúncia da falta de representatividade de pessoas não-brancas nas categorias de ator e atriz produziram um terremoto em Hollywood e induziram a mudança na composição do colégio eleitoral da Academia.

2020. O coreano Parasita foi a primeira produção de língua não-inglesa a vencer na categoria de melhor filme. O francês O Artista o precedeu, mas este é um filme mudo.

2021. Chloe Zhao foi a segunda mulher a vencer o prêmio de melhor direção e a primeira de origem asiática (nasceu na China e radicou-se nos Estados Unidos)

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