Oscar da globalização entusiasma concorrentes latinos

O Oscar da globalização. É assim que se comentava o que seria a cerimônia, minutos antes de seu início. E foi o que mostrou, tanto pelo tradicional clipe de abertura como pelo primeiro prêmio, entregue aos espanhóis Eugenio Caballero e Pilar Revuelta, vencedores pela melhor direção de arte por O Labirinto do Fauno. "Temos de comemorar, pois a produção desse filme exigiu muito de Guillermo (del Toro, o diretor), foi um esforço descomunal e comprova que o cinema latino está cada vez mais quente", disse Caballero. Outro vencedor por O Labirinto do Fauno, pela maquiagem, David Martí, observou que até mesmo em categorias consideradas técnicas, como a sua, demonstram um progresso entre os técnicos latinos. "Há toda uma indústria que vem crescendo (a duras penas, é verdade) entre os latinos, demonstrando que, num futuro muito próximo, teremos técnicos capacitados em todos os grandes filmes do mundo", disse ele, que recebeu o prêmio ao lado de Montse Ribé. De fato, nem a repentina queda de temperatura (em poucos minutos, um vento frio fez o ar beirar os 10 graus) diminuiu a empolgação dos latinos indicados ao Oscar: em grupo, os mexicanos Guillermo del Toro e Alejandro González Iñarritu, acompanhados de seus atores e técnicos, além do também cineasta Alfonso Cuarón, cruzaram o tapete vermelho mais de uma vez, ensaiando ao menos três vezes a entrada no Kodak Theatre. "A força do nosso cinema, cada vez mais crescente, justifica nossa euforia", disse um eufórico Del Toro que, no dia anterior, durante um simpósio que reuniu diretores candidatos a melhor filme estrangeiro, chamou o presidente George W. Bush de "verdadeiro mestre do terror ou um mestre da ficção, se pensarmos nas informações da inteligência (norte-americana) sobre o Iraque"."Meu filme procura revelar a catarse do mundo sobre todas as transformações sofridas nos últimos anos, especialmente as políticas", disse Iñarritu, confessando ainda ter outros dois projetos em estudo - nenhum deles, porém, com Guillermo Arriaga, roteirista habitual de seus filmes, com quem se desentendeu depois de Babel. Embora não comente sobre o conteúdo dos roteiros, Iñarritu adianta apenas que não será uma obra que possa interessar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, como aconteceu com Babel. "Confesso que não perco meu sono com premiações como o Oscar, pois não faço filme que possa interessar esse tipo de competição." aA política, aliás, norteava alguns discursos. O ex-vice-presidente americano Al Gore, por exemplo, que apresentou uma das categorias do Oscar além de representar o documentário Uma Verdade Inconveniente, foi um dos mais festejados durante a chegada dos concorrentes. Político nas atitudes, ele preferia dedicar tamanha euforia para o sucesso do filme. "A atenção do Oscar comprova que devemos nos preocupar com o meio ambiente", disse ele, discretamente protegido por três seguranças. Nem Helen Mirren, que viveu a rainha Elizabeth II em A Rainha, fugiu do discurso, revelando a importância de seu filme. "Acho importante mostrar o mistério da monarquia", comentou ela, vitoriosa em todas as disputas que participou pelo papel. A vitória, sem dúvida, significa uma mudança importante no curso da maioria das carreiras. Rachel Weiz, vitoriosa no ano passado como melhor atriz coadjuvante por O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, garantiu que sua caixa de correio tornou-se mais recheada depois do prêmio. "E, melhor ainda, o nível dos roteiros que me chegaram às mãos têm mais qualidade." O passeio pelo tapete vermelho permite alguns minutos de atenção para alguns atores e técnicos, que se tornam ofuscados tão logo entram no Kodak Theatre. O que dizer, por exemplo, do incansável Mickey Rooney? "Todo ano encontro forças para vir aqui, dividir essa alegria com meus colegas", disse ele. Aclamado como uma estrela, o comediante britânico Sacha Baron Cohen, de Borat, chegou ao tapete vermelho sob o uivo dos fãs que se acotovelavam na arquibancada. "Será que eles realmente viram o filme?", brincou ele, acompanhado de outro roteirista do filme, Peter Baynham, também surpreso com tanto barulho. "Confesso minha surpresa com tanta boa repercussão que o longa tem recebido, especialmente nesse país", disse Baynham. "Quem sabe isso não representa uma nova rota no entendimento humano." Cohen concordou e se apressou para dizer que não pretende fazer uma continuação, como chegaram a anunciar precipitadamente seus produtores. "Meus projetos agora são outros."

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