Reprodução de cena de 'Writing With Fire' (2022)/Black Ticket Films
Reprodução de cena de 'Writing With Fire' (2022)/Black Ticket Films

Oscar 2022: 'Writing With Fire' aborda jornalismo indiano e castas sob perspectiva feminista

Indicado como melhor documentário no principal prêmio do cinema, obra já recebeu dois prêmios no Festival de Sundance em 2021 e retrata a equipe do semanário 'Khabar Lahariya'

Abhaya Srivastava, AFP

19 de março de 2022 | 11h51

O semanário de notícias do norte da Índia Khabar Lahariya e sua equipe editorial, composta exclusivamente por mulheres de castas inferiores, despertaram o interesse de Hollywood, graças ao documentário indicado ao Oscar Writing with Fire (Escrevendo com fogo, em tradução livre), dedicado a elas.

Dirigido pelo casal Rintu Thomas e Sushmit Ghosh, este filme de produção indiana já recebeu dois prêmios no festival Sundance 2021.

"É uma história muito inspiradora, uma história de mulheres que dá esperança", disse o diretor à AFP, na pré-estreia em Los Angeles. "É muito forte, poderoso, especialmente no mundo de hoje, cheio de desconfiança da mídia", acrescentou.

Todas de castas inferiores, as repórteres e demais profissionais da Khabar Lahariya ("Ondas de Informação"), fundada em 2002 no estado de Uttar Pradesh, cobrem pautas que vão do roubo de vacas à corrupção local, passando por casos de estupro e de outros tipos de violência de gênero.

Estas comprometidas mulheres conseguiram ganhar o respeito das autoridades, de seus familiares e do público, ao mostrarem uma determinação obstinada e se concentrarem nas notícias locais, muitas vezes ignoradas pelos principais jornais indianos.

"Sair de casa foi um grande desafio", conta Geeta Devi, uma dessas jornalistas, em entrevista à AFP. "Tive que brigar muitas vezes. Meu pai era totalmente contra. Ele me disse: 'Você não pode fazer esse trabalho, não é para mulheres'", continua ela.

Perspectiva feminista

Geeta Devi pertence à casta Dalit, situada na base do implacável e enrijecido sistema de castas que rege a sociedade indiana.

Embora a discriminação institucional contra os Dalits, antes chamados de "intocáveis", tenha sido, em tese, abolida, eles ainda têm menos direitos do que outros membros da sociedade e sofrem estigmatização, humilhações e abusos.

Em Banda, a poucas horas de carro do Taj Mahal, Geeta Devi coleta o testemunho de uma mulher condenada à miséria desde que foi abandonada pelo marido.

A notícia da presença da jornalista se espalhou rapidamente, e as mulheres da vizinhança correram em massa para vê-la, na esperança de que Geeta Devi ouvisse e escrevesse sobre suas queixas, em particular, contra a prefeitura, sobre falta de água potável, e esgotos entupidos.

A repórter diz que se orgulha do tratamento das informações de uma "perspectiva feminista".

Para Meera Devi, uma das editoras, de 35 anos, trata-se de dar voz aos excluídos da Índia.

"Quando luto pelos direitos das minorias, dos povos tribais e de outros grupos marginalizados da sociedade, quando essas pessoas são ouvidas, e a justiça é feita, me sinto muito satisfeita", afirma essa mulher apaixonada por seu trabalho.

Seu trabalho levou ladrões à prisão, e obrigou funcionários municipais a fazerem seu trabalho e atender a comunidade.

"Os homens aqui não estão acostumados a ver mulheres poderosas, principalmente em uma área como o jornalismo. Mas estamos invertendo a tendência", diz. 

"Se nós, mulheres, tivermos oportunidades, seremos capazes de tudo", completou.

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