Regis Duvignau/ Reuters
Regis Duvignau/ Reuters

Oscar 2022: Danny Glover é homenageado com prêmio honorário por luta antirracista

Ator de 75 anos receberá o Prêmio Humanitário Jean Hersholt, entregue pela Academia

Entrevista com

Danny Glover

Nicolas Rapold, The New York Times

25 de março de 2022 | 11h54

Na sexta-feira, Danny Glover recebe um Oscar honorário, o Prêmio Humanitário Jean Hersholt, concedido por suas décadas de ativismo e serviço, que inclui passagens como Embaixador da Boa Vontade tanto para o Unicef quanto para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Glover alcançou a fama na década de 1980 com seus papéis nas séries A Cor Púrpura e Máquina Mortífera. Mas ele também construiu uma extensa carreira produzindo filmes de arte inventivos e elogiados pela crítica, incluindo Bamako, Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, Hale County This Morning, This Evening, Zama e, mais atrás, Não Durma Nervoso.

Glover, 75, modestamente prefere falar sobre história e heróis como Mary McLeod Bethune e Dorothy Height (ou contar uma história sobre quando Nelson Mandela, que ele interpretou em um filme da HBO, cantou “Parabéns a você” para seu pai). Nas palavras de uma de seus parceiras de produção na Louverture Films, Joslyn Barnes, “ele se entende como um trabalhador cultural”. Seus próximos projetos podem incluir tanto a consultoria com os diretores Apichatpong Weerasethakul e RaMell Ross quanto a preparação de uma sequência de Máquina Mortífera.

Ele falou por telefone de São Francisco, onde mora desde os 11 anos em Haight-Ashbury. Esta entrevista foi condensada e editada.

Você estava engajado no ativismo antes de atuar. Em 1968, você participou de uma greve de cinco meses na Universidade Estadual de São Francisco como parte da Black Students Union.

Formamos essa incrível coalizão com estudantes asiáticos, latinos e também estudantes brancos progressistas. Sou inequivocamente um filho do Movimento dos Direitos Civis. Eu testemunhei meus pais amadurecerem e se envolverem no sindicato postal. Lembro-me de assistir ao boicote aos ônibus de Montgomery quando eu tinha 9 anos. A maioria das minhas férias prolongadas era para ver meus avós na zona rural da Geórgia, no condado de Jefferson, de onde minha mãe era, e eu podia associar onde eles moravam com as campanhas.

O ativismo definiu suas escolhas de filmes?

Eu sou um ator primeiro por causa do meu ativismo. Olha, eu nunca tinha estado no palco antes [como estudante]. Foi totalmente pelo fato de o teatro ter se tornado uma ferramenta de comunicação no Movimento das Artes Negras. Houve movimentos de artistas negros antes disso, certamente, com gerações anteriores no século 20, a ascensão de artistas negros durante esse período, em que Sidney Poitier e Harry Belafonte, Ruby Dee e Ossie Davis, e tantos mais, tornaram-se parte da paisagem cultural do nosso país. Mas esse momento particular deu voz a um certo tipo de teatro. E me envolvi no Comitê de Apoio à Libertação Africana e no movimento anti-apartheid.

Houve alguma peça que foi transformadora para você como ator na década de 1970?

Eu trabalhava à noite e ia ao American Conservatory Theater. Bennet Guillory - temos uma companhia de teatro em LA chamada Robey Theatre - disse: “Vamos trabalhar em algo”. Era Blood Knot de Athol Fugard. É uma peça fascinante em torno de dois personagens, um é branco e outro é negro, que são irmãos. Foi nesse momento que minha vida mudou. Eu estava trabalhando no escritório de desenvolvimento comunitário no Gabinete do Prefeito e no Programa Cidades Modelo desde 1971. Agora eu era capaz de conectar os movimentos com os quais eu estava envolvido, essencialmente os movimentos em torno da Libertação Africana, com a arte.

Você poderia falar sobre a produção de filmes de arte?

O que me fascinava nos filmes africanos era que eram filmes pós-coloniais e relações de outro ponto de vista do que as imagens que vimos dos africanos ao longo da história do cinema, particularmente do cinema americano. Filmes perspicazes, particularmente do Senegal e do Mali, como Garota Negra de Ousmane Sembene. Para que pudéssemos ver os africanos contarem sua história e ver como eles se tornam arquitetos e vislumbram seu próprio crescimento e desenvolvimento. E eu tive a oportunidade de fazer isso. Eu estava querendo fazer um filme sobre a Revolução Haitiana. Quando pensamos no Haiti, pensamos nesse lugar empobrecido, nesse lugar onde sempre há tumulto, mas que teve uma revolução liderada por um dos líderes mais notáveis de Toussaint L’Ouverture. Encontrei um lugar de compreensão do mundo através dessa revolução. E eu conheci esse ser humano incrível chamado Joslyn Barnes quando eu estava fazendo uma participação especial em um filme de um amigo meu no Senegal.

Como tem sido produzir trabalhos de cineastas como Apichatpong Weerasethakul?

Ele é incrível! Quero dizer, estar perto dele, passar tempo perto dele. Todos esses cineastas! Abderrahmane Sissako, fizemos Bamako, sobre o Banco Mundial. Isso foi no pátio de sua família. Filmamos pessoas que estavam realmente morando no pátio e indo trabalhar. Você conhece o Tio Boonmee?

Sim, conheço.

Cara, que filme maravilhoso! Eu poderia ter pedido a minha avó e meu avô para assistir aquele filme e eles teriam encontrado algo lá. É um cinema incrível.

Você estava produzindo mais cedo também, com Não Durma Nervoso em 1990, e Alguém Para Dividir os Sonhos em 1993, ambos os quais você estrelou.

Eu conheci Charles Burnett (o diretor de Não Durma Nervoso) através de seu trabalho, desde O Matador de Ovelhas. É uma jornada tão rica, como você acumula todas essas coisas, repositórios não apenas de nossas próprias vidas, mas também de vidas passadas. Meu avô carregava um toby (um amuleto de boa sorte que o personagem malandro de Glover procura).

Também foi ótimo ver você em novos filmes independentes de diretores estreantes, como The Last Black Man in San Francisco, de Joe Talbot, e Sorry to Bother You, de Boots Riley.

Walter Riley e eu estávamos juntos no estado de São Francisco, em 1968, 69. Esse é o pai dele, cara! Achei lindo. São Francisco tem uma comunidade negra tão pequena, e é lindo morar no mesmo bairro, ver pessoas que você se lembra. Você está numa loja e alguém diz: “Sabe, minha avó conhece você”. É por isso que essas coisas me fazem rir. Porque se você tivesse me conhecido aos 12, 13, 14, 15 anos... “Ele? Aquele cara aí? Ele é o cara de Máquina Mortífera?" /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

 

 

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