Os títulos indicados ao Oscar 2020  

Os títulos indicados ao Oscar 2020  

Oscar 2020: Um compilado das críticas aos indicados a melhor filme

Com a temporada do Oscar, a curiosidade dos leitores sobre os filmes indicados cresce, e por isso preparamos a lista a seguir com as críticas que o jornal publicou sobre os nove filmes

Redação , O Estado de S. Paulo

Atualizado

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Os títulos indicados ao Oscar 2020  

Ao longo do ano, os repórteres e críticos do Estadão cobrem boa parte dos lançamentos no circuito comercial de cinema, sejam blockbusters ou filmes de circulação mais restrita, com o mesmo entusiasmo. Prêmios (ou críticas) não necessariamente definem o futuro de um filme na história do cinema, mas podem servir como baliza para análises diversas — mesmo que seja para mostrar que, com o tempo, as opiniões estavam desacertadas.

Com a temporada do Oscar, a curiosidade dos leitores sobre os filmes indicados cresce, e por isso preparamos a lista a seguir com as críticas que o jornal publicou até agora sobre os nove filmes indicados na categoria principal. Basta arrastar a tela para baixo e você vai conferir as críticas de Era Uma Vez... Em Hollywood, O Irlandês, Adoráveis Mulheres, História de um Casamento, Parasita, Coriunga, Ford vs. Ferrari, 1917 e Jojo Rabbit.

A cerimônia do Oscar 2020 ocorre no dia 9 de fevereiro, em Los Angeles, às 22h no horário de Brasília.

Arraste a tela para baixo para ver as críticas dos indicados ao Oscar 2020 de melhor filme.

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Crítica: 'Era uma vez...em Hollywood', de Quentin Tarantino, é desorientador e brilhante

No resgate dos selvagens anos 1960, 'tudo é documentado, tudo é imaginado'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2019 | 03h00

Conta a lenda que Bruce Lee hospedou-se na casa de Roman Polanski e Sharon Tate quando treinou a atriz para as cenas de ação de A Arma Secreta de Matt Helm. Teria sido Polanski quem deu ao futuro astro de artes marciais o célebre macacão amarelo – evocado por Quentin Tarantino como o principal figurino de Uma Thurman em seu épico Kill Bill – Volumes 1 e 2.

Tarantino imagina agora Sharon – em Era Uma Vez... em Hollywood, que estreia nesta quinta, 15 – indo ao cinema para ver justamente o Matt Helm. E ela, grávida de quase nove meses, diverte-se na plateia assistindo às próprias cenas de artes marciais no longa de Phil Karlson, que foi seu último filme lançado ainda em vida. Estamos em agosto de 1969 e, logo-logo, no fatídico dia 9, Sharon e amigos serão mortos por Charles Manson e seus adoradores do Diabo num ritual satânico, na casa dela. Assim foi na realidade e, na sexta passada, completaram-se 50 anos da bárbara chacina.

É bom ir avisando que a crítica pode conter spoilers, nada muito preciso, mas, talvez, subentendido, como forma de se poder avaliar as propostas estéticas de Tarantino. A história, vivida como tragédia, repete-se como farsa, já dizia Hegel, citado por Marx. Tarantino tem se valido das ferramentas do cinema para propor o revisionismo histórico. Shoshana, em Bastardos Inglórios, bola aquele plano de vingança para assassinar Adolf Hitler no cinema dela em Paris. Tarantino reserva de novo a sua dose de surpresas para o público do novo filme. Sharon Tate, no filme, quase não fala. Interpretada por Margot Robbie, é uma presença luminosa que atravessa Era Uma Vez... em Hollywood e ilumina a ficção tarantiniana. Foi um desperdício enorme que essa mulher tenha sido morta (na realidade). Seria outro crime inominável, se tivesse de ser, de novo, sacrificada na ficção.

Para recontar os selvagens anos 1960 em Hollywood, Tarantino vale-se do mesmo procedimento que Paolo Sorrentino colocou como citação na abertura de Silvio e os Outros/Loro, seu longa sobre Silvio Berlusconi, que integra a seleção da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano que roda o Brasil. Tudo é documentado, tudo é imaginado.

Duas histórias correm paralelas, a do casal Polanski e a do astro decadente Rick Dalton, interpretado por Leonardo DiCaprio, e seu dublê, Cliff Booth, Brad Pitt. ‘Rick’ está vivendo o fim de sua época em Hollywood. Estrelou filmes, séries, mas agora o máximo que consegue são participações em seriados dos outros. Numa cena muito interessante, desmorona, emocionalmente, e chora frente a uma estrela mirim que parece muito mais adulta, ou mais focada, que ele. ‘Cliff’ não é apenas seu dublê, nas cenas de ação. É seu faz tudo, em casa.

O desenho do filme começa mostrando esses personagens em Hollywood – Rick mora na mansão lado da de Polanski, nas colinas de Hollywood. Cliff mora num trailer e, para chegar em casa, atravessa a cidade, cruzando várias vezes com uma garota – do bando de um hippie lunático identificado como ‘Charlie’ (Manson?). Sem chance em Hollywood, Rick vai estrelar spaghetti westerns na Itália, e Tarantino impregna o filme de observações e piadas sobre o gênero.

Rick e Cliff voltam, em agosto de 1969. Sharon será morta na casa. Não, se esses homens fossem os heróis, maiores que a ficção, que deveriam ser. Ah, sim, tem um cachorro – decisivo na solução da trama. Tarantino fez, como já disse o crítico do The Guardian, seu filme mais ultrajante, irresponsável, desorientador (quanto ao desfecho) – e brilhante. Brad Pitt está genial - Tarantino, como já fizera em Bastardos, lhe oferece outro papel maravilhoso. Leo DiCaprio talvez seja um pouco mais complicado – o inventor daquele aplicativo pode muito bem ter se inspirado nele. Está envelhecendo com cara de bebê, sem a dureza de Pitt. Só quem não gostou foi a filha de Bruce Lee, que ficou, compreensivelmente, decepcionada com a representação que Tarantino faz de seu pai.

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Crítica: Martin Scorsese volta ao universo da máfia em 'O Irlandês'

Robert De Niro e Al Pacino, seus velhos companheiros de Hollywood, também participam do reencontro; longa é da gigante Netflix

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2019 | 06h00

Havia espectadores, cinéfilos, que esperavam há décadas pelo reencontro de Robert De Niro e Al Pacino. Estiveram juntos em O Poderoso Chefão 2, de Francis Ford Coppola. Coestrelaram Heat/Fogo Contra Fogo, thriller de Michael Mann, de 1995, que se tornou objeto de culto. Martin Scorsese considera-o um dos grandes filmes de “cops and robbers” da história de Hollywood. Foi há 20 anos. Naquela época, o início dos anos 1990, Scorsese fizera seus últimos grandes filmes – coincidentemente obras sobre a máfia. Os Bons Companheiros/Goodfellas e Cassino, ambos com De Niro e Joe Pesci. Estão agora todos de volta – Scorsese e seus atores, De Niro, Pesci, Pacino. Todos velhos – mais velhos. O dado não é irrelevante. O Irlandês começa num retiro para aposentados. A câmera vaga pelos corredores até chegar a De Niro, que vai contar a sua história.

Ele é o homem que pintava paredes. Na terminologia da máfia, trata-se de um “sinônimo” de assassino profissional. De Niro explodia cabeças com tiros à queima-roupa e “pintava paredes” com o sangue que esguichava. O Irlandês estreia nesta quinta, 14, em 19 salas selecionadas de todo o País. A produção da Netflix estreia nos cinemas antes de chegar à plataforma de streaming, na sexta da próxima semana, dia 22. Dessa forma, cumpre o rito, do lançamento nas salas, para habilitar-se a concorrer ao Oscar

Foi-se o tempo da queda de braço entre a Netflix e a Academia, ou grandes festivais como Cannes. Prêmios em festivais agregam prestígio. E a Netflix, a Amazon e outras querem desfrutar dessa fatia. Para diretores como Scorsese, e o brasileiro Fernando Meirelles, que lança no mês que vem, também pela plataforma, Dois Papas, é como um sonho. Liberdade de criação, festivais, cinemas e depois o streaming, essa nova modalidade que está revolucionando o mercado. Num recente debate em Hollywood – com Scorsese e Meirelles, entre outros –, a conclusão é que não há mais o que discutir. As novas tecnologias, o mercado, enfim, tudo mudou. Agora é assim. 

 

Máfia

No filme, o velho de O Irlandês volta-se para o próprio passado. Faz uma viagem de carro com o personagem de Pesci. Dois velhos e suas mulheres. Na primeira parada (“Olhe ali”), vem a lembrança do primeiro encontro. Como tudo começou. Steve Zaillian assina o roteiro. Foi o roteirista vencedor do Oscar por A Lista de Schindler, de Steven Spielberg. Para o novo filme, baseou-se no livro de Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, com as memórias de Frank Sheeran, o personagem de De Niro. 

Historiadores de crimes nos EUA dizem que o livro não é confiável e que Sheeran é um mitômano. Mas a história é boa e, como dizia o mestre John Ford por meio do editor Edmund O’Brien de O Homem Que Matou o Facínora, às vezes é melhor imprimir a lenda. No centro do filme está um enigma: o desaparecimento de Jimmy Hoffa, o todo-poderoso presidente do sindicato dos caminheiros. Pacino é quem faz o papel. 

São todos amigos: Frank, Jimmy, Russell Bufalino (Pesci). Amigos, amigos, negócios à parte, como diria Billy Wilder. Hoffa prejudica negócios do crime organizado. Torna-se uma ameaça que é preciso eliminar. Impossível, diz Frank – ele é o segundo homem mais poderoso dos EUA, após o presidente. Russ/Pesci acha que nada é impossível, afinal, o próprio John Fitzgerald Kennedy foi vítima daqueles tiros em Dallas, em 22 de novembro de 1963. 

Esse filme sobre velhos, que se reúnem para validar e executar assassinatos, é sobre poder e dinheiro, amizade e lealdade. Alguém, o próprio Scorsese, ou Zaillian, já disse que é sobre laços dissolvendo-se na longa noite das almas, quando ocorrem todas as traições. 

 

Parceria

É o nono filme de Scorsese com De Niro, uma parceria que começou há muito tempo, nos anos 1970, e antes disso já vinha selada pela amizade. Você pode até achar que é brincadeira, mas tem havido, ultimamente, ciumeira. Scorsese substituiu De Niro por Leonardo DiCaprio e ganhou o Oscar – de filme e direção – por Os Infiltrados, mas, embora essa seja uma afirmação polêmica, só um louco pode achar que a fase DiCaprio é tão boa. Não é, e Scorsese há tempos deve a seu público um grande filme. Antes de ser um grande filme, O Irlandês é um filme grande até na duração (3h30). 

O terço final, de uma hora inteira, é destinado a deslindar o affair Jimmy Hoffa. Sendo um filme de velhos, é bom que o espectador preste atenção no processo de envelhecimento de Niro, Pesci e Pacino, e inversamente no rejuvenescimento do trio – e também de Harvey Keitel, que tem um papel importante no longa. 

Aliás, são tantos velhos em cena que, com todo respeito, a impressão, lá pelas tantas, é de que Scorsese liberou o asilo, fornecendo papéis a veteranos atores coadjuvantes que você nem sabia mais que estavam vivos. Trabalhando há tanto tempo juntos, chega a ser surpreendente que Scorsese – mas ele é cinéfilo, não se esqueçam – tenha pautado De Niro a fazer sua lição de casa. Ele exortou o ator a rever clássicos de gângsteres com o astro francês Jean Gabin, porque era aquele tom de interpretação que queria. Isso talvez ajude a entender por que O Irlandês é mais meditativo que os demais filmes de gângsteres do diretor, um pouco mais próximo de seus filmes religiosos (que, a bem da verdade, estão longe de ser os melhores). Olha o spoiler: a grande cena ocorre aos 45 do segundo tempo. O encontro de Frank com a filha. Tudo em O Irlandês leva até ali.

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Crítica: Greta Gerwig acerta o tom em sua versão de ‘Adoráveis Mulheres’

O que faz toda diferença, na nova versão de ‘Adoráveis Mulheres’, é a cena da negociação com o editor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2020 | 06h00

Em sua edição de novembro/dezembro, a revista Film Comment – editada pela associação do Lincoln Center, de Nova York – dedica a capa e oito páginas internas à entrevista com a diretora e roteirista Greta Gerwig, de Adoráveis Mulheres. É a maior matéria da edição, que também contempla dois dos filmes mais falados do ano que passou – O Irlandês, de Martin Scorsese, e Retrato de Uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma.

Pode ser um filme clássico e radical? É como Film Comment define a nova versão de Little Women – Radical Classical. É a sexta adaptação do livro de Louisa May Alcott, sendo as duas primeiras obras ainda do período silencioso. Seguiram-se, no sonoro, as versões de George Cukor (1933), Mervyn LeRoy (1949), Gillian Armstrong (1994) e agora a de Greta.

Quatro Irmãs, a versão de Cukor, com Katharine Hepburn como Jo, ostenta a reputação de ter sido um filme adiante de sua época. De que outra maneira explicar o fato de que, até hoje, pode ser visto com imenso prazer, colocando, por meio da protofeminista Hepburn, questões que ainda são relevantes sobre a condição da mulher na sociedade?

Quatro Destinos, a versão de LeRoy, é a mais anódina de todas, embora se beneficie do cuidado de produção da Metro e do elenco que privilegia as novas estrelas da casa, notadamente a jovem Elizabeth Taylor (June Allyson é quem faz Jo).

A versão da australiana Gillian, lançada no Brasil como Adoráveis Mulheres, mereceu de Leonard Maltin, em seu guia, um elogio nada negligenciável: “Nenhuma nota em falso”, exceto o fato de que a diretora, para atualizar seu material, recorre a um linguajar chulo incompatível com a prosa de Louisa May Alcott.

O livro foi publicado em 1868, logo após a Guerra Civil dos EUA, que terminara em 1865. Conta a história de quatro irmãs, crescendo durante a guerra. O pai está ausente, combatendo no front, e a mãe vira a fortaleza do lar. As irmãs são diferentes entre si, e Jo, inspirada na autora, desde logo revela seu pendor para a escrita.

À Film Comment, Greta contou que sempre conheceu o livro e sua reputação – grandes escritoras (Simone de Beauvoir, Susan Sontag, Ursula Le Guin) viram em Mulherzinhas, tradução literal, um duplo estudo, sobre o que é ser mulher e o desejo de escrever. Greta reuniu anotações. No dia seguinte ao Oscar de Ladybird – A Hora de Voar, reuniu o material que já coletara e se isolou para encarar o desafio de criar uma nova versão, mais moderna, radical, da história clássica.

'Adoráveis Mulheres' foi injustamente ignorado no Globo de Ouro

Na mesma edição de Film Comment que tem Adoráveis Mulheres na capa, há uma minientrevista com Tracy Letts. O dramaturgo premiado com o Pulitzer – Agosto – tem sido o próprio roteirista nas adaptações de seus textos para o cinema. Ultimamente, deu de ser, também, ator. Faz o magnata do automobilismo Henry Ford III em Ford Vs. Ferrari, de James Mangold, e o editor a quem Jo/Saoirse Ronan oferece seus originais na abertura e no encerramento do filme

Adoráveis Mulheres foi praticamente ignorado no Globo de Ouro – os correspondentes estrangeiros de Hollywood não entenderam nada das intenções da diretora e roteirista Greta Gerwig. Há expectativa de que ela obtenha melhor resultado no anúncio do Oscar, na segunda-feira, 13. Quem sabe? Tracy Letts não deixa por menos: “Greta tornou-se uma grande amiga e importante colaboradora em minha vida. Essa mulher é um gênio! Quem quiser falar de adaptação, não fale comigo, fale com ela. Greta conseguiu honrar uma história original que é clássica e, ao mesmo tempo, transformou-a numa peça contemporânea”.

À luz das numerosas adaptações anteriores – o livro de Louisa May Alcott também inspirou peças e até uma ópera –, o que faz toda diferença é o começo e o fim de Adoráveis Mulheres. Olha o spoiler! Greta Gerwig começa o filme com sua heroína, Jo, em movimento – correndo. Na abertura, ela consegue vender uma história curta ao editor (Tracy Letts) e ainda ouve dele uma série de recomendações – ou serão imposições? – sobre o que e como deve escrever. 

Duas horas mais tarde, e depois de toda a desgraceira e também a felicidade que atingiu a vida familiar, ela está de volta com o manuscrito de Little Women. Muita coisa, mas principalmente Jo mudou. Ela negocia, taco no taco, com o editor. Tenta manter o direito autoral, o copyright do próprio trabalho. Numa sociedade – num mundo – controlado pelos homens, será uma mulher dona de si mesma. Uma feminista ‘avant la lettre’.

Existem curiosas similaridades entre Greta e a heroína, Jo. Na entrevista à revista Film Comment, Greta conta que o livro de Louisa May Alcott sempre esteve presente em sua vida. Uma informação aqui, outra ali, e ela descobriu que importantes autoras contemporâneas identificavam em Adoráveis Mulheres um duplo estudo da condição feminina, no mundo dos homens, e da aspiração pela escrita.

O que leva Jo a querer escrever, a fixar suas observações, impressões, emoções na folha em branco? Casada com o cineasta Noah Baumbach, de História de Um Casamento, Greta colaborou em alguns roteiros, além de ser sua atriz. Mas o crédito era dele – uma mulher à sombra de um homem. 

O sucesso de público e crítica de Ladybird – A Hora de Voar libertou-a. Greta reuniu suas anotações sobre Louisa May Alcott e Adoráveis Mulheres, inclusive o esboço de roteiro que escrevera ainda antes do longa anterior, com Saoirse Ronan. Romanticamente, isolou-se numa cabana ‘in the woods’. Como ela diz, trazer aquele mundo à vida passava por um encontro consigo mesma. Ela tinha de encontrar seu viés para entrar naquela realidade, para torná-la verdadeira, e essa teria de seria uma experiência solitária.

Uma frase no filme é decisiva para marcar sua modernidade. Jo/Saoirse diz a Marmee, a mãe, interpretada por Laura Dern – que ganhou o Globo de Ouro de coadjuvante por História de Um Casamento. (Laura é uma amiga da família Baumbach/Gerwig.) “Estou cansada dessa gente que diz que as mulheres são feitas para o amor, cansada mas também solitária. Sinto-me sozinha.” A frase não é de Adoráveis Mulheres, não se encontra no livro, mas Greta pinçou-a de outra criação de Louisa May Alcott – Rose in Bloom. Há mais de 150 anos Louisa já expressava um mal-estar que hoje, cada vez mais, as mulheres verbalizam com crescente naturalidade, e autoridade. 

Quatro irmãs, quatro destinos. Jo, Amy, Meg, Beth. Cada uma das filhas de Marmee March representa alguma coisa, uma aspiração, um desejo. A filha com personalidade forte, que escreve no sótão da casa. A vaidosa. A pacificadora. A obediente. Mulherzinhas – e seus homens. O pai ausente. O pretendente, Laurie, com quem Jo mantém uma relação enrolada que de alguma forma evoca o triângulo de ...E o Vento Levou, outra história – de Margaret Mitchell – da Guerra Civil. Como Scarlett, que passa a vida pensando amar Ashley, Jo também fará uma descoberta ao longo dessa história. O que leva a Friedrich Bhaer e a Louis Garrel. 

O elenco é um dos trunfos de Adoráveis MulheresSaoirse Ronan, com quem Greta já trabalhara em Ladybird, Laura Dern, Meryl Streep (como Tia March), Emma Watson, Florence Pugh, Timothée Chalamet. Greta tem um carinho especial por seus franceses – Louis, ele próprio ator e diretor, o compositor, Alexandre Desplat.

Greta cita entre suas referências A História de Adele H, de François Truffaut, e Esther Kahn, de Arnaud Desplechin. E Vincente Minnelli, Agora Seremos Felizes. Desplat entregou-lhe o que ela queria – a partitura de um musical sem canções, mas em que a música também conta a história. Supremo refinamento – as duas notas finais, com a tela já escura. Um luxo.

Veja o trailer de 'Adoráveis Mulheres':

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Crítica: 'História de um Casamento' explora enigmas que marcam a passagem do amor ao ódio

Filme de Noah Baumbach flutua entre o drama e a sitcom, trabalhando com alívios cômicos esporádicos, porque os tempos atuais são duros para obras difíceis e o espectador não aguenta tanta tensão seguida

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2019 | 06h00

No início de Anna Karenina, Tolstoi escreve que todas as famílias felizes são iguais e cada família infeliz o é à sua própria maneira. Essa, digamos, originalidade da infelicidade é ilustrada pela dupla Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), protagonistas de História de um Casamento, de Noah Baumbach. Produção da Netflix, lidera as indicações do Globo de Ouro nas categorias melhor filme dramático, Scarlett Johansson e Adam Driver para melhor atriz e ator em filme dramático, Laura Dern para coadjuvante em filme dramático, além de roteiro de cinema e trilha sonora original.  

Como tantas histórias infelizes, esta também começa por algo que passa por felicidade. No caso, o casal lendo uma lista de qualidades atribuídas ao parceiro. Como parecem admirar-se mutuamente esse diretor de teatro (Driver) e sua esposa Nicole (Johansson)! No entanto, logo o espectador será forçado a se desfazer de ilusões e encarar o que tem pela frente — um casal em crise. Charlie é novaiorquino até as solas dos sapatos. Nicole tem a família em Los Angeles e resolve mudar-se de volta para lá, levando o filho do casal, o garoto Henry (Azhy Robertson). 

O filme é em parte inspirado na experiência do diretor. Noah é filho de pais separados e teve, ele próprio, de enfrentar o fim do seu casamento com Jennifer Jason Leigh, com quem teve um filho. Essa, a faceta pela qual o artista dialoga com sua biografia para criar a obra. A outra, a óbvia referência a um clássico do gênero, Cenas de um Casamento (1974), de Ingmar Bergman, com as escaramuças afetivas entre o casal Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann). Aliás, retomadas com os personagens já na velhice, no espantoso Saraband (2003), obra final de Bergman, que morreria em 2007. 

A referência não deve ser motivo para comparações. Bergman habita o rarefeito panteão dos gênios do cinema e avaliar obras por esse metro exigente chega a ser covardia. Além da questão estética, existe a distância cultural entre uma obra gerada no interior de uma sociedade contemporânea do espetáculo, e outra, reflexo da atormentada alma nórdica da qual Bergman era representante. 

Desse modo, por complexo que seja (e é), História de um Casamento, flutua entre o drama e a sitcom, trabalhando com alívios cômicos esporádicos, porque os tempos atuais são duros para obras difíceis e o espectador não aguenta tanta tensão seguida. Esta nasce da diferença de personalidade entre os protagonistas. Não por acaso, são provenientes de extremos do país, Nova York de um lado, Los Angeles de outro. Um tipo de rivalidade parecida com a que existia entre a nossa Rio x São Paulo, antes desta passar de moda. 

Outra característica bem norte-americana surge com a entrada dos advogados em cena, transformando o que seria uma separação amigável numa batalha campal. Nesse ponto, a figura de destaque é Laura Dern no papel da advogada Nora. Maquiavélica e belicosa, Nora imprime outro tom à separação, tomando para si a causa de Nicole pela guarda do filho do casal. O que obriga Charlie a contra-atacar, levando o litígio a patamares cada vez mais sanguinolentos. 

No interior dessa crise, agora aberta, brotam os momentos mais brilhantes tanto de Adam Driver quanto de Scarlett Johansson. Em especial, numa magnífica (e pungente) sequência, em que uma tentativa de acordo desanda e leva os antigos amantes ao mais baixo grau de agressão. A razão cede à paixão e os instintos primitivos entram em cena. Nesse ponto as metáforas bélicas da advogada Nora começam a fazer sentido. Uma separação pode se parecer a uma guerra de extermínio, aquela na qual não se fazem prisioneiros. Quem perde, morre. E não há alívio cômico que dissipe a angústia despertada por essa enigmática passagem do amor ao ódio, como se apenas uma fina película separasse sentimentos antípodas.

Noah Baumbach tem insistido que o filme não é um retrato fiel do seu próprio casamento e separação. De fato, dados biográficos podem servir como pontos de partida para a ficção mas logo esta se livra de seus laços reais, liberta-se e começa a andar por sua conta e risco. Torna-se invenção e pode aspirar à universalidade da experiência humana. No caso, a tragédia existencial que faz com que todos tenham lá suas razões. Sendo estas opostas, como arbitrá-las quando existe um terceiro em causa, isto é, um filho?

Nesse ponto me parece que Baumbach se desprega de casos particulares e lança um olhar à estrutura do seu próprio país. Tocqueville, no século 19 (em A Democracia na América) já havia notado a extraordinária presença dos advogados na vida cotidiana nos Estados Unidos. Para enfrentar a advogada Nora, brilhantemente interpretada por Laura Dern, Charlie contrata um velho profissional humanista (Alan Alda), mas depois se vê obrigado a substituí-lo pelo igualmente sanguinário Jay (Ray Liotta), único capaz de nivelar-se a Nora. A batalha judicial ganha dinâmica própria, arrastando seus personagens e forçando-os a infligir o maior dano possível aos oponentes. 

A judicialização dos afetos e do espaço íntimo talvez seja o verdadeiro cerne deste interessante filme. Uma espécie de custosa administração jurídica da infelicidade. 

Veja o trailer de História de um Casamento:

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Crítica: No mundo às avessas, quem é o 'Parasita'?

Filme de Bong Joon-ho mostra como se dá a radicalidade das diferenças sociais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 06h00

Mesmo no mundo afluente a questão das grandes disparidades sociais se impõe como problema. Se é dramática em países como o Brasil, não deixa de incomodar em paragens mais desenvolvidas, como a Coreia do Sul. É de lá que vem esse inquietante Parasita, de Bong Joon-ho, já bem conhecido aqui por seu O Inquilino, flerte com o cinema de gênero fantástico. 

Com esse traço de deformação, o cineasta franqueia os limites do realismo e impõe o tom de estranheza que, muitas vezes, faz a diferença entre as grandes obras e as apenas boas. É desse modo que ele descreve, visualmente, as famílias em contraste, os paupérrimos Ki-taek e os riquíssimos Park. Os primeiros sobrevivem em um muquifo que, literalmente, fica abaixo do nível da rua. Subsolo, no qual os moradores são obrigados a alçar a cabeça para enxergar quem anda pela calçada. É simbólico, mas também literal - Jooh-ho tem dito em entrevistas que esse tipo de moradia existe mesmo em Seul. Não é coisa de sua imaginação. Em todo caso, produz um grande efeito no filme. Em especial quando contrasta com a residência modernosa dos Park, ampla, situada em parte alta, cheia de recursos tecnológicos. Parece, às vezes, aquela casa ironizada por Jacques Tati em Meu Tio, mas sem o tom de comédia. É uma modernidade mais soturna que solar. 

Enfim, esse é o ambiente do filme e sabemos, desde o expressionismo alemão, como a cenografia deve “falar”, a ponto de se transformar em personagem da trama. É o que acontece em Parasita

Claro, há os personagens. Os ricos e em aparência bem resolvidos Park têm lá suas fragilidades. São vaidosos e inseguros, o que os torna vulneráveis. Em especial para aqueles que vêm o mundo de baixo para cima, como Ki-taek, mas estão longe de se sentirem conformados com sua condição. 

O convívio que se estabelece entre as duas famílias não deixa de ter antecedentes, mas é exposto de maneira muito original. Criados e patrões, em convivência e/ou conflito fazem parte da tradição de cinema, por exemplo no clássico A Regra do Jogo, de Jean Renoir. Também está nos contemporâneos brasileiros Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, e no ainda inédito Três Verões, de Sandra Kogut. Sempre é uma relação assimétrica, por mais eufemismos que sustentem que “são quase como da família” em sociedades de herança escravocrata, como a nossa. De qualquer forma, esse é um convívio íntimo entre classes desiguais e com interesses conflitantes, como não costuma acontecer em nenhum outro tipo de situação. Exatamente por isso presta-se tão bem como espaço ficcional para discutir conflitos de classes que podem permanecer mascarados ou latentes em ambientes nos quais o distanciamento entre os personagens é maior. 

Parasita trabalha esse tema com a precisão de um cronômetro, no qual todas as peças se encaixam de maneira perfeita. Mas, ao mesmo tempo, abre-se para as dissonâncias surgidas pela estranheza da situação. Esse apelo ao fantástico revela-se muito rico ao colocar em perspectiva o quanto nada tem de natural um mundo estruturado dessa maneira. Permite também se perguntar, afinal, quem é o parasita de quem. 

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    Joaquin Phoenix como Coringa, no filme que estreia nesta quinta: gênio do crime cruel, longe do pateta brincalhão da TV Warner

    Crítica: Joaquin Phoenix, ‘possuído’ pelo Coringa

    Longa de Todd Phillips reflete o mundo ao revelar como se cria o supervilão

    Imagem Luiz Carlos Merten

    Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

    Atualizado

    Joaquin Phoenix como Coringa, no filme que estreia nesta quinta: gênio do crime cruel, longe do pateta brincalhão da TV Warner

    Começou a temporada do Oscar, mas quem espera por uma possível candidatura, e até vitória de Brad Pitt como melhor ator em 2020 por Era Uma Vez... Em Hollywood, de Quentin Tarantino, ou principalmente Ad Astra - Rumo às Estrelas, de James Gray, já pode ir desistindo. Joaquin Phoenix está um arraso e a transformação de Arthur em Coringa, no longa de Todd Phillips, que estreia nesta quinta, 3, é de cortar o fôlego. Tudo bem que a Academia não é muito chegada em premiar astros pop, exceto os pops que ela própria elege e transforma em quetais. Joaquin já vem flertando com o prêmio há tempos, poderia até já ter ganhado, mas o seu palhaço do crime é realmente algo muito especial.

    Desde Cesar Romero, nos anos 1960, o Coringa já teve várias representações na tela. Jack Nicholson, Heath Ledger, Jared Leto, as principais. Ledger chegou a ganhar, postumamente, a estatueta de melhor coadjuvante pelo filme de Christopher Nolan sobre o cavaleiro das trevas. Coringa, o filme, não é exatamente um blockbuster, nem uma aventura de super-heróis, mas mostra a construção do vilão, o que George Lucas já fez na segunda trilogia de Star Wars, que, cronologicamente, na estruturação geral da série, virou a primeira. Coringa não tem o Batman, mas tem Bruce Wayne, e o descontrole final, o caos do mundo metaforizado pela orgia destruidora dos palhaços, leva à tragédia fundadora do herói das HQs. É um drama, e fortíssimo, e isso talvez avalize as chances do filme no Oscar, já que a Academia, vale ressaltar, não gosta muito de dar prêmios para blockbusters.

    Toda a questão colocada em Coringa é basicamente uma - Joaquin Phoenix é genial no papel, mas até que ponto se trata de um bom ou mesmo grande filme? Para criar seu vilão monstruoso, o diretor Phillips retrata o estado do mundo para chegar a essa ausência de esperança que, de alguma forma, gera o que se pode definir como semente do mal. Talvez sejam conceitos muito genéricos e até fáceis, talvez a economia e a política, e a tragédia dos refugiados e imigrantes necessite de focos mais acurados, mas o que está em jogo é o “outro”. Uma das tragédias desse mundo moderno pode estar na crise da palavra, ou então nessa dificuldade, cada vez maior, que as pessoas enfrentam para se abrir para o outro. 

    Nesse sentido, Coringa e Encontros, o longa do francês Cédric Klapisch que também estreia nesta quinta, 3, são como as duas faces da mesma moeda. Um filme solar e outro lunar. “A feel good movie”, como dizem os norte-americanos, para fazer o público se sentir bem, e a viagem ao coração das trevas.

    Todd Phillips, que dirige Coringa, ganhou projeção com a série de comédia The Hangover/Se Beber, não Case, que completa dez anos em 2019. Bradley Cooper virou astro, tornou-se diretor, concorreu ao Oscar (com Nasce Uma Estrela) e agora produz o Coringa

    Parcialmente inspirado em O Homem Que Ri, de Victor Ri - e na interpretação que Conrad Veidt deu do personagem -, o Coringa é um supervilão de ficção que surgiu nas HQs. Criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, apareceu pela primeira vez em Batman #1, em abril de 1940. Desde o começo surgiu para ser um psicopata sádico e doentio, com aquela gargalhada sinistra, mas o código de censura dos comics e, depois, da TV e do cinema transformou-o num pateta brincalhão. Tim Burton e Christopher Nolan resgataram o gênio criminoso e cruel. Todd Phillips radicalizou. Como produtor e diretor, ele já andou dizendo que cansou da comédia porque o humor, segundo ele, não dá mais conta de criticar a sandice do mundo. Phillips já se perguntou: como a ficção pode competir com a realidade, se Donald Trump é presidente dos Estados Unidos?

    Arthur é um palhaço que ganha a vida segurando cartazes e tropeçando nos próprios sapatões nas ruas de Gotham, que tem como base a cidade americana de Nova York nas histórias da DC Comics. Estamos nos anos 1980, a criminalidade avança, uma greve acumula lixo e os ratos proliferam. Nesse quadro, e ao reagir com violência num incidente no metrô, Arthur vai terminar dando vazão à violência reprimida da massa. O filme tem algo de Watchmen, de Zach Snyder, que também está completando dez anos. É crítico ou conivente com esse direitismo desenfreado que avança pelo mundo? No mundo que cultua o vilão, Bruce Wayne ainda é só uma criança. Um herói para o futuro? Possesso - possuído? -, Coringa surge nos anos 1980, com o neoliberalismo. Os recados estão todos dados.

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    Crítica: 'Ford vs Ferrari' tem a sombra de John Ford, o cineasta

    Quando os últimos tornam-se os primeiros, é tempo de, 'fordianamente', celebrar a grandeza dos derrotados

    Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

    15 de novembro de 2019 | 06h00

    Diante de um filme como Ford vs Ferrari, a primeira reação é tentar alinhá-lo com a América conservadora que colocou Donald Trump no poder. “Make America Great Again”. Que outro sentido poderia haver na história de um veterano empreendedor – Henry Ford II – que decide quebrar a invencibilidade italiana nas 24 horas de Le Mans? Logo no começo, Mr. Ford faz um discurso para os operários da fábrica que herdou do pai. Está todo mundo com a cabeça a prêmio. Só restarão os criativos, que souberem enfrentar os desafios do mercado (nos anos 1960!). Logo segue-se a história do piloto e do designer de carros que vão aceitar o desafio, construindo o modelo para vencer a prova de resistência de Le Mans – 24 horas no volante.

    E aí sente-se a mão do diretor. James Mangold subverte o que parece ser o próprio discurso. Substituiu um Ford, Henry, por outro – John. O Homero das pradarias. O mestre do western. O que John Ford tem a ver com Le Mans. Nada ou tudo. Christian Bale, o piloto, e Matt Damon, o sócio na construção do bólido, partem para o soco. A mulher de Bale, Catriona Balfe, pega uma cadeira para assistir de camarote. Em O Aventureiro do Pacífico, de 1963, John Wayne e Lee Marvin também partem para o pau. Posto que agem como crianças, Elizabeth Allen dá a cada um deles um carrinho.

    A luta é pela vitória, mas os motivos de Bale e Damon não são os mesmos do executivo a quem Henry Ford II dá a condução do programa. A vitória vem, claro, e não há nenhum spoiler. A novidade é que há um tapetão. Quando os últimos tornam-se os primeiros, é tempo de, “fordianamente”, celebrar a grandeza dos derrotados.

    Para apreciar o filme, o espectador não precisa ter nenhuma dessas referências. A história sustenta-se, mas está tudo lá. A relação pai-filho, de Bale com seu garoto, tão cara a Mangold, que já abordou o assunto em Logan e Os Indomáveis, também com Bale. No ano em que parece que Joaquin Phoenix, por Coringa, vencerá o Oscar – mas é preciso esperar pelas indicações –, Bale poderia ser o único a tirar-lhe o prêmio. Por que não? E, curiosidade, outro recente grande filme sobre automobilismo – Rush, de Ron Howard sobre a rivalidade de James Hunt e Niki Lauda – também deve tudo a Ford, sendo a versão quatro rodas de O Homem Que Matou o Facínora.

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    Crítica: Em '1917', a imagem da morte de uma civilização

    O longa do britânico Sam Mendes aparece, em primeiro lugar, como uma proeza técnica

    Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

    21 de janeiro de 2020 | 07h00

    1917 já havia vencido o Globo de Ouro de melhor filme dramático e agora reafirma o favoritismo ao Oscar ao ganhar o prêmio do sindicato dos produtores (PGA), termômetro dos concorrentes da Academia. 

    O longa do britânico Sam Mendes (de Beleza Americana) aparece, em primeiro lugar, como uma proeza técnica. Apresenta-se como um plano-sequência único (isto é, sem cortes), mas se trata de um expediente de montagem. O filme é composto, pelo menos, de dois planos, como perceberá um olhar atento. O “corte” é feito durante um blackout na filmagem. 

    No entanto, tudo isso interessa menos que a sensação passada ao espectador. E essa é a de completa imersão no episódio da 1.ª Guerra Mundial relatado por Mendes. Como trama, é de simplicidade franciscana. Dois soldados britânicos, Will Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman), recebem duríssima missão. Precisam atravessar as linhas inimigas levando a mensagem de abortar um ataque aos alemães, evitando assim que os britânicos caiam em armadilha que causaria a morte de 1600 soldados. 

    '1917' é, quase por completo, um filme de ação, com algumas sequências bastante impressionantes. Destaco apenas duas, mas há várias outras: o ataque de um avião alemão aos dois soldados britânicos e a queda de um deles num rio que se transforma em turbilhão. 

     

     

     

    Guerra é ação, mas não só. Mesmo no ritmo acelerado determinado por sua opção estética, Mendes encontra pontos adequados de pausa e reflexão. Afinal, a guerra (a não ser para fascistas, que a glorificam) implica na destruição não apenas física, mas moral e mental dos seres humanos. É também sua experiência limite, na qual o pior e o melhor podem aparecer. Há momentos assim ao longo do filme e que lhe conferem outra camada de significação, para além do seu caráter trepidante e envolvente.

    Outro mérito é trazer de volta a 1.ª Guerra, muito menos filmada que a 2.ª, embora tenha dado origem às maiores obras-primas antibelicistas, A Grande Ilusão (1937), de Jean Renoir, e Glória Feita de Sangue (1957), de Stanley Kubrick. A civilização europeia do século 19, a belle époque, agoniza na 1.ª Guerra, como lembra o historiador britânico Eric Hobsbawm. Não por acaso, as cenas de trincheiras são sufocantes em 1917. Nelas morria uma ideia de mundo. 

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    Crítica: 'Jojo Rabbit' e a arte de satirizar na tradição de Chaplin e Benigni

    Roman Griffin Davis, o Jojo, é um encanto no seu processo de tomar consciência e virar adulto

    Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

    31 de janeiro de 2020 | 06h00

    Ator, diretor, escritor, pintor. Taika Waititi tem exercido todas essas atividades, mas na Nova Zelândia, onde nasceu, é conhecido principalmente como comediante. Ele concorreu ao Oscar de curta, em 2004, com Two Cars, One Night. Dirigiu Thor: Ragnarok em 2017 e agora está de novo indicado para o Oscar (de longa) por Jojo Rabbit. É o único dos nove indicados para melhor filme que ainda falta estrear nos cinemas brasileiros, mas, neste final se semana, salas selecionadas já estarão mostrando Jojo Rabbit em pré-estreia. Talvez seja exagero, mas a imprensa especializada dos EUA colou uma etiqueta em Waititi – visionário.

    Ele não é o primeiro e certamente não será o último a fazer sátira do nazismo, e de Adolf Hitler. Em 1940, em plena 2.ª Guerra, Charles Chaplin realizou O Grande Ditador, colocando-se na dupla pele de um barbeiro judeu e do ‘führer’, a quem ele substitui, dada a semelhança dos dois. Tornaram-se antológicas as cenas em que o ditador, Hynkel, brinca com o globo terrestre, como se fosse uma bola – conta a lenda que o próprio Hitler fazia projetar o filme, para rir de si mesmo. Quase 60 anos depois, em 1998, o italiano Roberto Benigni fez A Vida É Bela, sobre um pai judeu que mente para o filho pequeno sobre o Holocausto e transforma o horror do nazismo em outra coisa, mais palatável, até divertida. Com A Vida É Bela, Benigni venceu os Oscars de melhor ator e melhor filme estrangeiro, derrotando Central do Brasil, de Walter Salles.

    Jojo Rabbit não é sobre o Holocausto. É sobre um adorável – e um tanto desastrado – garoto alemão de 10 anos que tenta se adaptar ao mundo que o cerca. Jojo elege como amigo secreto ninguém menos que Hitler. Lamenta-se que ninguém gosta dele. E Adolf, para encorajá-lo – “Sempre fui menosprezado.” Mamãe/Scarlett Johansson é da Resistência e Jojo descobre que ela esconde na parede falsa da casa uma garota judia, Elsa. Delata, ou não? Jojo vive o dilema num mundo que desmorona. As paradas nazistas, que começam ao som dos Beatles (I Wanna Hold Your Hand), vão mudando ao longo do filme. Sam Rockwell faz um nazista que, no limite, salva o garoto e Elsa está ali para dar lições de humanidade, lembrando que Jojo não é nazista, apenas um garoto que adora uniforme e quer se enturmar. Há o risco de que outros garotos, no mundo real, que vira à direita, se tornem nazistas. Na fantasia, Roman Griffin Davis, o Jojo, é um encanto no seu processo de tomar consciência e virar adulto. O próprio diretor faz Hitler. É hilário.

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