Robyn Beck / AFP
Símbolo de Hollywood é visto da Hollywood Boulevard Robyn Beck / AFP

Oscar 2019: as críticas dos indicados a melhor filme no 'Estadão'

Ao longo dos últimos meses, críticos do jornal comentaram as obras que neste domingo, 24, disputam a estatueta

Redação, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2019 | 14h03

O Oscar 2019 está finalmente aí. No próximo domingo, 24, a Academia de Hollywood escolhe os vencedores da temporada, e embora dois filmes partam como favoritos (A Favorita, sem trocadilho, e Roma), cada um com 10 indicações cada, a disputa pela estatueta de melhor filme deste ano é uma das mais imprevisíveis das últimas edições.

Quem levará? Yorgos Lanthimos e seu A Favorita, um filme fora dos padrões de Hollywood mas com um trio de atrizes em atuações irretocáveis, ou Alfonso Cuarón e seu projeto pessoal de Roma?

No páreo estão também Infiltrado na Klan, o "último bagulho" de Spike Lee, que já venceu um Oscar honorário, mas ainda aguarda o seu prêmio de fato e Pantera Negra, o primeiro filme de heróis a disputar o Oscar de melhor filme.

Green Book: O Guia chega credenciado com a vitória no Globo de Ouro e também o prêmio do Sindicato de Produtores da América, ou PGA, na sigla em inglês. Dos últimos 10 anos, em oito o vencedor do PGA foi o mesmo do Oscar.  

Nasce uma Estrela vem colecionando indicações, mas os principais prêmios de Hollywood, até agora, deixaram passar as oportunidades de premiar a estreia de Bradley Cooper na direção. Será a hora dele e Lady Gaga brilharem mais uma vez? Outro filme musical, Bohemian Rhapsody, também está no páreo, mas se ganhar o prêmio principal da noite, será uma surpresa.

Por outro lado, não será surpresa se Vice, de Adam McKay, levar. Uma história sob medida para a "América", com atuações marcantes de Christian Bale e Sam Rockwell.

Neste post, acima, você confere todas as críticas do Estadão sobre os filmes do Oscar 2019, na categoria melhor filme.

Onde assistir ao Oscar na TV

A cerimônia de entrega do Oscar de 2019 será neste domingo, 24, com início às 22h pelo horário de Brasília. 

No País, o Oscar será transmitido na TV por dois canais. Na Globo, a transmissão vai iniciar com alguns prêmios já entregues, por começar apenas após o programa Big Brother Brasil 19.

Já o canal pago TNT inicia a transmissão com o tapete vermelho às 21h. A premiação começa às 22h e será transmitida na íntegra. 

Para quem gosta de acompanhar o tapete vermelho, o desfile de celebridades que participam da premiação será transmitido pelo canal pago E! a partir das 20h.  

Onde assistir ao Oscar na internet

Os assinantes da TNT podem assistir à premiação por meio do serviço de streaming do canal, o TNT GO. É possível, também, acompanhar a premiação ao vivo no próprio site do Oscar.  O Estado também vai acompanhar a premiação minuto a minuto, com informações do editor do Caderno 2, Ubiratan Brasil, direto de Los Angeles, e com comentários dos críticos Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin.

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'Roma' traz a história de um país pela da família, é um luxo de filme

Faz diferença ver o filme na TV ou no cinema? Com certeza, mas quanto?

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2018 | 03h00

Na tela do cinema, tudo fica maior, e a imagem e o som podem ser usufruídos na sua totalidade. Talvez não seja a mesma coisa para usuários da Netflix. A provedora global de filmes e séries via streaming, atualmente com mais de 100 milhões de assinantes, chega ao seu público por outras telas. Graças a um a deferência especial – contratual –, Roma teve lançamento nos cinemas e termina nesta quarta sua temporada no Kinoplex Itaim.

Isso permitiu que o filme chegasse ao Globo de Ouro e esteja ‘papando’ prêmios de associações de críticos. Não apenas nos EUA. Entrou na lista de melhores do ano do Divirta-se, do Estado. Com toda certeza irá para o Oscar. Faz diferença ver o filme na TV ou no cinema? Com certeza, mas quanto? Logo na abertura, Cleo, a doméstica, lava o piso da garagem onde fica o carrão da família. O lugar é estreito, o carro é largo. Exige muita perícia para ser estacionado. Na água estagnada no piso, por um momento, vislumbra-se a passagem de um avião.

Quase não se nota na TV, mas se Alfonso Cuarón colocou a informação é porque ela faz algum sentido. Há outro avião, no desfecho, quando Cleo está subindo a escada para o terraço em que lava a roupa. Cleo que estás en el cielo. Cuarón, de 57 anos, é casado – desde 2011 – com Sheherazade Goldsmith. Pode ser mera coincidência, mas Xerazade, na mitologia, é a narradora das 1001 Noites. Como contador de histórias, faz todo sentido que o cineasta tenha sido atraído por ela.

A história de uma família – a dele –, pelo olhar da doméstica, Cleo. Pai e mãe separam-se, a própria Cleo arranja esse namorado que a leva ao cinema. Ela engravida, ele some. Só reaparece como integrante das milícias que promovem o massacre de estudantes de Corpus Christi, o chamado “Halconazo’, na Cidade do México, em 1971. O filme mistura o público e o privado. A história da família é também a do México. Se as mulheres (a babá, a mãe) forjaram a sensibilidade de Alfonso, o mundo em que ele se criou, fundamentado na injustiça social, também ajudou a definir o propósito humanitário de seu cinema.

Fotografado em preto e branco – um luxo de imagem –, Roma tinha tudo contra. Por um desses milagres de que a arte está cheia, deu tudo certo. Cuarón fez filmes pequenos como E Sua Mãe também, grandiosos como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Nessa era de tantas fantasias científicas, depois de Stanley Kubrick – 2001 –, talvez nenhum outro cineasta tenha encarado o desafio da epopeia espacial como ele em Gravidade. Não por acaso, ganhou o Oscar de direção. Roma é dedicado à babá que inspirou Cleo, Libo. Só um grande artista para nos fazer compartilhar, com elevado grau de fruição estética, a emoção.

Numa cena admirável, Cleo entra no mar para salvar as crianças. Não importa que não saiba nadar. Age no instinto. Depois, chora. “Yo no lo quería” (o próprio bebê). As Cleos do mundo não têm tempo para ser mães porque estão criando, com amor, os filhos dos outros. Mas raros são Alfonsos, como Cuarón.

 

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Análise: 'A Favorita' revela as tensões entre as razões de Estado e desejo humano

O ótimo 'A Favorita', do grego Yorgos Lanthimos, é um filme sobre os bastidores do poder; longa que estreia nos cinemas brasileiros está na disputa do Oscar 2019 em 10 categorias

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2019 | 03h00

A Favorita, de Yorgos Lanthimos, é, no principal, um filme sobre os bastidores do poder. Na Inglaterra do século 18, a rainha Anne (Olivia Colman) reina, mas quem governa é sua “favorita”, Sarah Churchill, a duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), um Rasputin de saias que age nas sombras. O equilíbrio do poder é abalado com a chegada de Abigail (Emma Stone), que logo cai nas graças de Sua Majestade e ameaça a posição de Sarah. 

Eis aí um enredo folhetinesco e que, dizem, se baseia em fatos reais. Dessa contradança erótico-político das três sai toda a graça de uma obra que, precisa e perfeita na reconstituição de um tempo, jamais lhe é reverente, como às vezes acontece com filmes de época.

Pelo contrário, o grego Lanthimos adentra o espaço íntimo da monarquia britânica com dose brava de senso crítico, sentido humorístico afiado e verve não raro sardônica. Como aquele personagem de Machado de Assis, interpreta a História com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. 

Há a trama, em que mulheres governam, porém cercadas de homens poderosos. Todo um “sistema” em torno de Anne limita seu poder, em tese absoluto. E esse sistema é regido por homens, intérpretes de um interesse de Estado que transcende caprichos individuais. No entanto, sempre há o desejo humano, que faz com que decisões fluam por caminhos nem sempre racionais. Anne tem uma posição delicada e frágil. Para uma rainha, casada ainda por cima, manter em palácio uma amante, ou duas, pode ser um fator e tanto de desestabilização política. 

É mérito de Lanthimos ambientar essas intrigas palacianas num ambiente com tons de fantástico, com angulações inusitadas e lentes que reforçam a estranheza de tudo aquilo. 

Mas, claro, nada seria possível sem a excelência do elenco, em especial a presença dessa atriz extraordinária que é Olivia Colman. Não é para qualquer uma interpretar uma rainha todo-poderosa que, no entanto, se revela em sua fragilidade humana. Voluntariosa, muitas vezes sábia, outras frívola, Anne era escrava de um corpo enfermiço, que a sujeitou a inúmeras doenças ao longo de sua vida (1665-1714). 

Há algo de soturno na maneira como Anne percorre os labirínticos corredores do palácio em sua cadeira de rodas. E também na maneira como, em meio a futricas, puxadas de tapete, rivalidades e intrigas, tem de se haver com toda uma série de graves decisões a tomar. 

Em meio a questões tão importantes, os males de amor de uma rainha parecem não ter a menor importância. Mas, na escala humana, perder um grande amor equivale a perder uma guerra. Essa costura assimétrica e mal alinhavada entre a intimidade e a política faz o encanto desse filme que disputa o Oscar em 10 categorias

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Em tom de comédia, ‘Vice’ refaz a história do político Dick Cheney

Cômico e sarcástico, o filme fala de coisas sérias, como os limites de transparência da democracia

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2019 | 05h00

A certa altura, Lynne Cheney proclama: “Se você tem algum poder, alguém vai tentar tirá-lo de você. Esta é a única verdade.” Lynne (Amy Adams) é esposa de Dick Cheney (Christian Bale), protagonista de Vice, de Adam McKay, indicado em oito categorias do Oscar, inclusive melhor filme e ator – Bale divide o favoritismo com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Bem, num ponto Lyne Cheney está certa: a coisa toda gira em torno do poder. Poder, poder e poder. Ela fala com propriedade, pois está casada e profundamente envolvida com um homem que só pensou nisso quase a vida toda, Dick Cheney, todo poderoso vice-presidente dos Estados Unidos no governo de Georges W. Bush. 

O filme é a história dessa trajetória política singular. Não segue a receita das obras do gênero que estamos acostumados a ver. Assume, sem nada esconder, seu caráter hipotético. Anuncia, como se fosse engraçado, que fizeram de tudo para chegar à verdade dos fatos. Mas isso seria difícil, senão impossível, no caso de um personagem que sempre fez de tudo para se esconder e, sobretudo, ocultar a real natureza dos seus atos. 

Assim é Cheney, retratado de forma brilhante por Bale, da juventude à maturidade. Cheney se aproximou do Partido Republicano ao pressentir que havia ali uma oportunidade de ascensão social. Inocente e novato, foi discípulo de um grande mestre, Donald Rumsfeld (Steve Carell), astuto como um Maquiavel do Novo Mundo, e sem resquício do refinamento e dos raros escrúpulos morais do mestre florentino, autor de O Príncipe. 

A estratégia de McKay em Vice consiste em nos jogar num universo dúbio, em que a farsa é vizinha da realidade e com ela se confunde. Rimos com o personagem, mas sentimos que esta é uma graça amarga, pois reage às artes da manipulação política quando levadas ao seu ápice. Em síntese, rimos para não chorar. 

Vice parte da juventude de Dick Cheney para retratá-lo como um estroina que bebia demais e não tinha coisa que prestasse na cabeça. Sua salvação, se o termo cabe, deve-se à então noiva e depois esposa, Lynne Vincent. Esta Lady Macbeth dos tempos modernos um dia encurrala o noivo e lhe pergunta se deseja ser alguém na vida ou estava conformado em ser um bêbado qualquer. Esse seria o impulso psicológico que faltava para Cheney entrar para a política e buscar o destaque, sem qualquer outra consideração que não o sucesso. É uma hipótese, claro, mas faz sentido no contexto de um país que coloca o êxito como objetivo supremo e tem na palavra “loser” (perdedor) a sua pior ofensa. 

Cheney decide ser um vencedor. E, como tem em Rumsfeld um excelente mestre, aprende a escolher os caminhos certos e trilhá-lo com o foco permanente na acumulação máxima de poder. Dessa maneira, seguimos as peripécias de Cheney rumo ao topo, e à espera de uma grande oportunidade. 

Esta surge quando Bush o convida para vice de sua chapa. A princípio, Cheney não se mostra disposto. Considera a vice-presidência cargo decorativo, vizinho ao poder mas sem exercê-lo de fato. A não ser…

A não ser que consiga convencer o candidato a conceder algumas alterações nos atributos do cargo. Que tal, por exemplo, dar ao vice o comando das Forças Armadas e da diplomacia, incluindo-se aí, é claro, a CIA e todas as operações, legais ou ilegais, realizadas no exterior? Mas será algum candidato a presidente tolo o suficiente para abdicar parte considerável do poder que terá caso eleito e transferi-la para seu companheiro de chapa? Na interpretação do filme, esse candidato se chama George W. Bush. Cheney teria aceitado concorrer, mesmo se Bush negasse seu pedido? Não se sabe; tudo é especulação. Mas, como o jogo do poder é parecido com o pôquer, se Cheney estava blefando, ganhou aquela mão, mesmo sem ter ótimas cartas. 

Do ponto de vista cinematográfico, esta é uma das sequências chave do filme. O pôquer entre Bush e Cheney, no qual se disputam parcelas de um futuro e hipotético poder. Talvez se possa criticar o jeito um tanto caricato com que Bush é interpretado por Sam Rockwell. Seu jeito simplório, tosco mesmo, diante de um aliado/adversário a manejar como mestre as artes da astúcia política. Mas, como se sabe, tanto Bush como Trump e outros políticos em outras latitudes fazem de sua falta de refinamento e limitação cultural trunfos para ganhar o voto do “homem médio”, ressentido, anti-intelectual e mais propenso a seguir palavras de ordens que pensamentos complexos. 

De qualquer forma, foi assim que Bush chegou ao poder – levando com ele Cheney. Quis o destino que a dupla se defrontasse com o grande desafio do 11 de setembro de 2001, o ataque da Al-Qaeda aos Estados Unidos com a destruição das Torres Gêmeas em Nova York. Foi um fato que mudou a história da humanidade, para pior provavelmente, logo no alvorecer do século 21. 

De acordo com o filme, Cheney teria assumido papel protagonista em uma situação de urgência bem acima da capacidade de reação de Bush Jr. Teria sido o vice, então, o promotor da implacável caçada à Al-Qaeda e ao seu líder máximo, Osama Bin Laden (que seria encontrado e morto apenas no governo Obama). Teria saído de Cheney a ideia da invasão do Iraque e a deposição (e depois execução) de Saddam Hussein, a pretexto da existência de armas de destruição em massa. Como se sabe, essas armas jamais seriam encontradas. Mas, então, a invasão do Iraque, riquíssimo em petróleo, já era fato consumado. 

Como filme, Vice é construído sobre essas manobras de bastidores, em que o poder se move em direção a áreas de interesse, usando pretextos nem sempre críveis e poucas vezes éticos. Daí o charme oculto desses manipuladores que, sem ocupar a ribalta, são os que de fato conduzem o jogo. 

Mesmo nas democracias, já aprendemos, às vezes com muito sofrimento, o poder mantém suas zonas de sombra. Nem tudo vem a público, ou vem tarde demais, ou de forma incompleta, a pretexto da “segurança nacional”. Sob a forma cômica mordaz, Vice reafirma essa opacidade do poder e nos traz alguma coisa a mais. Em tom sarcástico, insinua os limites da democracia e sua ilusão de transparência, mesmo em países de instituições sólidas como os Estados Unidos. 

 

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'Bohemian Rhapsody' é o retrato de um homem que nasceu para brilhar

É um filme bonito, emotivo. Conflitos familiares, amores e amizades rompidos. Todo mundo trai todo mundo, mas, no limite, vence o afeto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2018 | 06h00

Bryan Singer, diretor da franquia X-Men, é gay assumido, e mesmo que não fosse toda a indústria saberia disso por conta das denúncias contra ele no #MeToo. É fácil imaginar os motivos que o levaram ao longa sobre Freddie Mercury. Uma parte significativa do filme mostra o jovem Freddie, ainda ligado à mulher, Mary, saindo do armário. Ele descobre sua atração por homens – há uma cena de sexo a três no Rio –, revela para Mary que é bissexual, mas ela diz que não, e o força a se assumir como gay.

E, assim como Cinderela tem a madrasta, Freddie tem a bicha má, a cobra venenosa – Paul, o amante que, dispensado, vai para a TV contar os podres do ex. Tudo isso é para calar a boca dos que dizem que o filme não conta tudo sobre a sexualidade de Freddie. Talvez seja inexato, mas não por falta de informações. Algumas das melhores cenas abordam o processo criativo do artista. Como ele misturou rock e ópera, e criou a Bohemian Rhapsody. No final, doente – soropositivo –, um fragilizado Freddie consegue o aval dos antigos parceiros (‘Somos uma família!’) para que o Queen participe do megaconcerto Live Aid.

É o gran finale. Cada artista teve seus 20 minutos no palco e Singer recria o concerto inteiro, começando com Mother Love e terminando, na apoteose, com We Are The Champions. É um filme bonito, emotivo. Conflitos familiares, amores e amizades rompidos. Todo mundo trai todo mundo, mas, no limite, vence o afeto. Singer trabalha no registro da semelhança física. Os pais, o novo namorado, Mary, Brian May, John Deacon, Roger Meddows-Taylor, todo mundo é muito parecido. Rami Malek talvez seja mais franzino, mas entende e expressa o personagem que nasceu para brilhar.

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Ambientado nos anos 1970, 'Infiltrado na Klan' quer falar do racismo presente

É significativo que o filme chegue a público justamente neste ano em que Jordan Peele fez história na Academia com Corra!

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2018 | 06h00

Havia a expectativa em Cannes, em maio, que o júri presidido por Cate Blanchett corrigisse uma injustiça histórica e atribuísse a Spike Lee a Palma de Ouro que, por duas vezes, ele esteve prestes a receber, nos anos de Faça a Coisa Certa e Febre na Selva. No final, o júri elegeu o japonês Hirokzau Kore-eda, que já fez coisas muito melhores que Shoplifters. Spike Lee recebeu o Grande Prêmio do Júri por BlackKklansman.

Com o título brasileiro de Infiltrado na Klan, o Spike Lee tem feito grandes filmes para debater a questão do racismo na sociedade dos EUA. Chegou a fazer a cinebiografia de Malcolm X, interpretado por Denzel Washington. BlackKklansman baseia-se agora em outra história real, mas que parece tão absurda que o espectador pode até pensar que se trata da mais delirante ficção. Nos anos 1970, no racista Sul dos EUA, em Colorado Springs, o sonho do afro-americano Ron é ser policial. Transferido para o arquivo, ele recebe uma missão “secreta”, como agente infiltrado.

A organização em que Ron se infiltra é nada menos que a Ku Klux Klan, a KKK, cujos integrantes, protegidos por túnicas brancas, não fazem outra coisa senão perseguir - e matar - negros.

Fazendo-se passar por wasp, branco, anglo-saxão e protestante, Ron consegue penetrar nos segredos da KKK. Chega a ganhar a confiança dos principais dirigentes da organização, e tem como aliado um policial judeu (Adam Driver) que serve de camuflagem para Ron. Toda essa atividade “encoberta” envolve um atentado a bomba que termina por expor a tramoia toda. Ron vira herói e escreve um livro que expõe a KKK ao ridículo.

É significativo que o filme chegue a público justamente neste ano em que Jordan Peele fez história na Academia com Corra! Ao recuperar o episódio, inclusive recriando uma estética do cinema norte-americano dos anos 1970, na época blaxploitation movies, Spike Lee incorpora ao material imagens emprestadas a clássicos racistas como O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith, e ...E O Vento Levou, de Victor Fleming. É claro que o objetivo de Lee é expor a “América” racista do atual presidente, Donald Trump. Não por acaso, na coletiva de Cannes ele lembrou as brutais ocorrências de Charlottesville, no ano passado. Trump é o novo inimigo da representatividade e do integracionismo raciais. Não apenas pela provocação política, mas também pela excelência artística, BackKklansman foi uma das unanimidades de Cannes. Foram oito minutos de aplausos de pé, para Spike Lee e sua equipe. Só faltou a Palma para coroar o filme.

 

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Ao resgatar a história de Don Shirley, 'Green Book' faz serviço à história

Pianista virtuoso atuava nas duas frentes, erudita e popular, quando ninguém ousava sair dos compartimentos do mercado

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

05 de fevereiro de 2019 | 05h00

Adolescente no gueto negro de Watts, em Los Angeles, Charlie Mingus (1922-1979) queria aprender a tocar violoncelo, mas levou um cascudo de seu professor, que o obrigou, aos 16 anos, a trocá-lo pelo contrabaixo, este sim “instrumento de negro”. E o que dizer do piano, instrumento “clássico” por excelência? A discriminação era ainda mais forte. Nina Simone (1933-2003) queria ser concertista, mas foi devidamente bloqueada. O caso mais recente a se transformar em foco das atenções da mídia por causa do filme Green Book: O Guia, concorrente ao Oscar deste ano, é o do pianista negro Don Shirley (1927-2013).

Nascido em Pensacola, na Flórida, de pais jamaicanos, ele queria ser pianista clássico. Aos 18 anos, solou o famoso Concerto no. 1 de Tchaikovski com a Boston Pops. Mas o empresário Sul Hurok – o mesmo que incentivou a contralto negra Marian Anderson a quebrar preconceitos e vencer na carreira de cantora lírica – só faltou dar um cascudo em Shirley para fazê-lo desistir. 

Apenas porque resgatou do limbo este notável pianista negro que mesmo assim insistiu em fazer música ao mesmo tempo norte-americana e clássica, como afirmou em entrevistas antigas, Green Book já tem um forte significado simbólico. Até porque o destino de Shirley foi menos glorioso do que o de Mingus ou Nina Simone. Don ficou ensanduichado entre os dois gêneros numa época em que eles eram rigidamente compartimentados. O Carnegie Hall, aberto graças à elite nova-iorquina na década de 1890, só recebeu sua primeira apresentação de música popular em 16 de janeiro de 1938 (o célebre “concerto” da big band de Benny Goodman, então coroado o “rei do swing”).

Determinado, Shirley impôs sua estética híbrida e gravou bastante entre os anos 1950 e 80. Seu trio já era bizarro para os padrões mesmo de hoje: piano, violoncelo e contrabaixo. Ouça no YouTube duas performances arrebatadoras: de Georgia on my mind e, sobretudo, I Can’t get started. Nesta última, ele constrói uma fuga com absoluta densidade, opera o milagre de fundir formas clássicas com um swing refinado. Tudo de extremo bom gosto – mas nunca banal, sempre essencial.

 

Hoje com 29 anos e vencedor do Concurso Thelonious Monk aos 21, em 2011, Kris Bowers fez um admirável tributo a Don Shirley na espantosa trilha sonora de Green Book: ele mesmo interpreta os arranjos transcritos das performances do pianista. Tudo muito bem emoldurado pelos sons diversificados da década de 1950, como “hits” de grupos vocais hoje esquecidos como Blue Jays e The Blackwells. E muito mais. Bowers só escorrega quando compõe trechos minimalistas, cacoete hoje quase insuportável de tão repetido nas trilhas de hoje em dia. 

Por isso, os momentos musicais mais memoráveis são as recriações de Don Shirley: Blue Skies, dois minutos, e Water Boy, cinco minutos – ambos pura magia e fusão erudito-popular. Se, como eu, você quiser ouvir mais música dele, fique com os CDs In Concert e Um improviso sobre a história de Orfeu no Inferno (antológico), disponíveis nas plataformas digitais.

 

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Novo 'Nasce uma Estrela' favorece o astro, não Lady Gaga

Versão dirigida por Bradley Cooper, que é também protagonista, estreia na quinta, 11, nos cinemas brasileiros

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2018 | 05h00

Há mais de 80 anos, repete-se, em Hollywood, o que não deixa de ser uma contradição em termos. Desde o primeiro Nasce Uma Estrela (William Wellman, 1937), a estrela em ascensão é sempre um nome consagrado da indústria – e depois de Janet Gaynor vieram Judy Garland (George Cukor, 1954) e Barbra Streisand (Frank Pierson, 1976). Todas essas versões beberam na fonte de um Cukor de 1932, What Price Hollywood?, ou simplesmente Hollywood, no Brasil. Os críticos gostam de assinalar o que para eles virou maldição – nenhuma atriz ganhou o Oscar interpretando o prestigiado papel, o que é válido para o prêmio de interpretação, mas Barbra cavou uma estatueta de canção, por Evergreen.

Lady Gaga vai quebrar a escrita? Há uma nova versão da história. Estreia na quinta, 11, nos cinemas brasileiros. O novo Nasce Uma Estrela tem direção do ator Bradley Cooper e já passou com brilho pelo Festival de Toronto, do qual saiu como mais que provável indicação para o Oscar. Você já deve ter visto o trailer, que gera expectativa e é melhor que o filme, mas essa é outra história. Desde a sexta, 5, a trilha está liberada em todas as plataformas digitais – são 17 composições inéditas e a recriação de um clássico de Edith Piaf, La Vie en Rose, que Lady Gaga canta num show de drag queens. O piscar de olho não poderia ser mais óbvio – a cena remete ao começo da carreira da própria Gaga, que também saltou de um show de drag para o estrelato.

Sucesso de público na ‘América’, o filme foi seguido por outro estouro – Venom –, o que faz deste mês de outubro o melhor dos últimos anos para o cinema dos EUA. Nasce Uma Estrela, a versão de 2018, é bom, mas poderia ser melhor. A maior ousadia de Cooper como diretor é deslocar o foco da estrela que nasce para o astro que tomba na decadência – e que ele interpreta. Cooper não deve fazer a mínima ideia, mas seu filme tem mais de um ponto de contato com o universo country retratado numa produção brasileira – Coração de Cowboy. Se isso ajudar a chamar atenção para o filme de Gui Pereira, ótimo. Em tempos de empoderamento feminino, Hollywood, passada a empatia inicial – de 2017 –, começa a tomar distância do movimento. Na primeira parte do filme, Cooper, percebendo o brilho natural e a força de Ally/Lady Gaga, a convoca para o palco sem pedir licença a ninguém. Reconhece que ela é alguém que tem algo a dizer, e lhe dá o impulso necessário.

Todo poder às mulheres – mas eis que surge o manager, e ele promete catapultar Ally para a estratosfera. A primeira coisa que faz é edulcorar sua persona selvagem. Coreografia, dançarinos. Quando Ally, já estrela, anuncia que quer colocar Cooper no palco com ela, o manager lhe corta as asas na hora – ‘no way’, de jeito nenhum. A estrela que nasce é formatada para, e pela, indústria. Sem querer forçar a barra, o megassucesso do ano passado foi Mulher-Maravilha, e você deve se lembrar que, no blockbuster de Patty Jenkins, Gal Gadot é boa de briga, mas quem resolve a parada é Chris Pine. Essa conversa sobre feminismo, empoderamento talvez não seja o epicentro do novo Nasce Uma Estrela, mas a observação é pertinente. Influenciada por artistas como David Bowie, Michael Jackson, Madonna e Queen, Lady Gaga construiu sua persona pública por meio da provocação e do exagero. Virou ativista de causas LGBT. É curioso que tenha aceitado, em seu primeiro grande papel, essa imagem de ‘megera domada’.

Nos EUA, parte da imprensa tem reclamado que o ator e diretor Bradley Cooper é ‘handsome’ (bonitão) demais para interpretar o ‘has been’ (o astro que já era) da história. Cooper estourou na série Se Beber, não Case!, na qual uma certa canastronice servia ao personagem. O papel como ‘sniper americano’, no filme de mesmo nome, de Clint Eastwood, o candidatou para o Oscar. A expectativa agora é saber se Cooper volta ao Oscar como ator, diretor, ou ambos.

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'Pantera Negra', a chance de o Oscar fazer história

Filme desponta agora como favorito para a estatueta de melhor do ano

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2019 | 18h38

Caro leitor,

Nosso caminho até a cerimônia do Oscar 2019, no dia 24 de fevereiro, já oferece trajetórias mais claras e, principalmente, um desafio do qual a Academia não pode fugir, aquele que vai torná-la mais popular e até mais respeitada. Qual desafio seria? Premiar Pantera Negra com a estatueta de melhor filme do ano de 2018.

Uma brecha foi oferecida pelos atores que, no dia da premiação de seu sindicato, o SAG, apresentaram duas surpresas. A primeira foi a escolha de Rami Malek, de Bohemian Rapsody, como dono da melhor atuação do ano. Surpresa porque as fichas sempre eram colocadas no quadrinho com o nome de Christian Bale e sua maravilhosa atuação/transformação em Vice. Com ajuda de maquiagem e peruca, ele ganhou contornos exatos de Dick Cheney, o vice-presidente dos Estados Unidos na gestão de George W. Bush, aquele que ficou com olhar perdido diante de crianças quando foi informado de que dois aviões foram atirados por terroristas contra as Torres Gêmeas, em 2001.

Mas isso não seria nada se Bale não apresentasse uma soberba interpretação, conquistada, como ele mesmo brincou, com uma conversa com o diabo que lhe deu as dicas de como se parecer com Cheney.

E, naquela mesma noite, o SAG elegeu como melhor elenco (categoria que se iguala a de melhor filme) o de Pantera Negra. A expectativa era por uma vitória de Green Book: O Guia, que já havia sido eleito pelo sindicato dos produtores. No palco, em meio a um grupo eufórico, Chadwick Boseman, que vive o Pantera, disse que não é fácil, na indústria cinematográfica, ser jovem, talentoso e negro. Disse ainda que, mesmo que não tenha transformado a indústria, o filme era amado e respeitado pelos colegas, o que já era uma grande vitória.

Estaria, portanto, a indústria de Hollywood pronta para ser transformada? Depois de tantos tremores que sacodiram o chão da Academia nos últimos anos - o escândalo sexual envolvendo o produtor Harvey Weinstein (que já inspira uma peça, estrelada por John Malkovich, a ascensão de movimentos como #MeToo (que se espalhou por outros países), a falta de um mestre de cerimônia pela primeira vez em 30 anos, não é chegada a hora de uma mudança radical?

São questões como essa que tornam a espera pela cerimônia ainda mais excitante. Para mim, o ritual já começou com a chegada, na semana passada, da confirmação de meu pedido de credencial. Sim, mesmo que eu esteja envolvido com essa cerimônia desde 2005, a cada ano sobra uma pontinha de receio, uma vez que já vi vários amigos, do Brasil e estrangeiros, reclamarem de, naquele ano, terem o pedido negado.

Neste ano, já há mudanças. O encontro com os finalistas de filme estrangeiro, por exemplo, será em outro dia - tradicionalmente, acontecia nas manhãs de sábado. Agora, será na noite de quinta, dia 21 . O sábado cedo ficou reservado para os filmes de animação, encontro que não existia até o ano passado e agora ganhou um força estupenda. Será que já é uma dica de mudança por parte da Academia? Teremos mais certeza na próxima Supercoluna, quando prometo contar como funciona o rigoroso sistema de segurança - sabia que ninguém pode postar foto se exibindo com a credencial? Conto depois o que acontece.

 

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