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Oscar 2017 reabre debate sobre representatividade de latinos em Hollywood

A divulgação dos concorrentes aos prêmios da Academia reabriu polêmica sobre a falta de representação hispânica na frente e atrás das câmeras

EFE

02 de fevereiro de 2017 | 18h38

A baixa presença de indicados latinos no Oscar deste ano reabriu nos últimos dias o debate sobre a falta de representação hispânica na frente e atrás das câmeras.

A Academia de Hollywood anunciou os candidatos para os prêmios Oscar entre os quais aparece, como latino nascido nos Estados Unidos, o músico de origem porto-riquenha Lin-Manuel Miranda, que concorrerá à estatueta a melhor canção por How Far I'll Go do filme de animação Moana: Um Mar de Aventuras.

Quanto aos candidatos ibero-americanos figuraram o mexicano Rodrigo Prieto, indicado à melhor fotografia por Silêncio, e o espanhol Juanjo Giménez, candidato ao prêmio de melhor curta-metragem por Timecode.

A presença de Viggo Mortensen, ator americano com fortes laços com a América Latina que concorrerá ao Oscar de melhor ator por Capitão Fantástico, acrescentará um pouco mais de toque latino em uma cerimônia na qual não haverá produções hispânicas indicados a melhor filme estrangeiro.

A lista do Oscar foi divulgada depois que no último Globo de Ouro não houve nenhum premiado latino, apesar de indicados como o mexicano Gael García Bernal (Mozart in the Jungle) e a artista de origem porto-riquenha Gina Rodríguez (Jane the Virgin), e de no último Emmy não ter havido hispânicos indicados nas categorias mais significativas.

Por outro lado, as indicações ao Oscar serviram para que Hollywood se reconciliasse com o talento afro-americano, após dois anos sem indicados dessa minoria como intérpretes, mas algumas vozes sugeriram que a discussão sobre a diversidade deveria ser ampliada aos profissionais de origem latina e asiática.

Um recente estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) concluiu que 73,7% dos personagens com diálogo ou nome dos filmes de 2015 eram brancos, contra 26,3% das demais raças ou etnias, entre os quais se destacaram 12,2% de negros, 5,3% de latinos e 3,9% de asiáticos.

Um dia antes da divulgação dos indicações e prevendo o resultado, o fundador da agência de publicidade Arenas Entertainment e membro da Academia, Santiago Pozo, publicou um artigo no site especializado Deadline sob o título "Os prêmios Oscar são brancos e negros, mas não latinos".

Pozo ressaltou que a indústria do cinema foi, historicamente, um negócio de imigrantes, razão pela qual defendeu abrir as portas "ao verdadeiro multiculturalismo".

"Não posso evitar de me perguntar onde estão os hispânicos (em Hollywood) que, depois de tudo, representam 17% da população americana e são inclusive uma das maiores fatias da porcentagem de população que vai frequentemente ao cinema", escreveu.

"Esta falta de verdadeiro multiculturalismo é culpa da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood (que organiza o Globo de Ouro) ou da Academia? Não, não é. Essas instituições refletem o que nossa indústria faz, e a verdade é que as oportunidades para os hispânicos, tanto na frente como atrás das câmeras, são poucas e pouco frequentes", acrescentou.

Por sua vez, o jornalista Dennis Romero publicou uma coluna no jornal Los Angeles Times intitulada "Os prêmios Oscar estão menos brancos, mas onde estão os latinos?".

"A carência de narrativas latinas e a omissão do talento latino é especialmente notável quando se considera que cerca de três quartos da população no condado de Los Angeles pertencem a minorias e cerca da metade são latinos", escreveu.

O jornalista destacou, além disso, que muitos papéis de latinos são interpretados por atores não hispânicos, como aconteceu com o papel protagonista de Tony Méndez em Argo, que foi vivido por Ben Affleck

"Este ano traz uma preocupação adicional: que uma indústria que durante muito tempo retratou os latinos como bandidos, gângsteres e garçons sirva para avivar o racismo e o ódio gerados por eleições (presidenciais nos EUA) nas quais o candidato ganhador (Donald Trump) tentou tachar os imigrantes mexicanos como criminosos e estupradores", afirmou Romero.

Em entrevista à Agência Efe, o ator e produtor Edward James Olmos focou o problema de uma perspectiva empresarial: "Hollywood não desenvolve histórias (de latinos) e não nos põem nessas histórias para avançar".

"Hollywood tem que acreditar que, se fizer um filme latino, vai ganhar dinheiro", explicou Olmos, presidente da empresa audiovisual Latino Public Broadcasting, ao mencionar que os executivos não se preocupam com dinâmicas "sociais ou culturais", mas com resultados econômicos.

Além disso, ele ressaltou que o público hispânico vai aos cinemas para ver as grandes superproduções, mas não prestigia os filmes latinos.

Olmos concluiu que o ideal seria que o cinema americano contasse "histórias de nativos, asiáticos, latinos, africanos e caucasianos".

Os avanços e retrocessos dos hispânicos em Hollywood costumam ser um ponto recorrente nas entrevistas com artistas latinos.

Como exemplo, a atriz America Ferrera disse à Agência Efe em uma recente entrevista sobre sua série Gente-fied, que o talento latino "raramente" tem a oportunidade de interpretar "personagens complexos e com matizes".

"Temos um problema da baixa representação. Há uma pequena porcentagem de personagens que são latinos e essas representações são as mesmas, duas ou três: dona de casa, jardineiro ou traficante de drogas", lamentou.

 

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