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Oscar 2017: Hollywood corrige erro e opta por não ignorar os negros desta vez

Filmes como 'Cercas', 'Estrelas Além do Tempo' e 'Moonlight' surgiram entre os indicados

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2017 | 12h51

Deu o que mais ou menos estava previsto: muitas indicações para La La Land, talvez o filme do ano pelas simpatias que vem angariando. Também estava no script: ao contrário de 2016, quando a comunidade negra de Hollywood foi ignorada, desta vez há pelo menos três filmes com atores e temática afro-americana estão nas cabeças: Cercas, Estrelas Além do Tempo e Moonlight.

Entre os diretores, desponta o óbvio Damien Chazelle, de La La Land, mas também, concorrendo com ele, Kenneth Logan, de Manchester à Beira-Mar, e Barry Jenkins, de Moonlight. A (relativa) surpresa nessa categoria foi a presença de Mel Gibson, que andava meio queimado na Academia. Além disso, Até o último Homem concorre entre os nove indicados a melhor filme. E o ator, o herói da história da 2ª Guerra, Andrew Garfield, está entre indicados.

Talvez Garfield não leve (Ryan Gosling, de La La Land, e Casey Affleck, de Manchester) são os favoritos, mas a sua simples presença é significativa, pois trata-se de um herói de guerra que jamais pegou numa arma. A estatueta deve ficar entre os favoritos, a não ser que a Academia resolva radicalizar na causa afro-americana e entregar o prêmio a Denzel Washington, maravilhoso no papel de um trabalhador dos anos 1950 em Pittisburgh. Estranhei sua ausência entre os diretores indicados. Talvez a estrutura do filme, adaptado de uma peça teatral, tenha incomodado os votantes. Mas Cercas é de fato muito forte, em especial pelas atuações de Washington e Viola Davis.

Viola concorre como atriz coadjuvante e acho que é favorita nessa categoria, apesar da concorrência forte com Naomi Harris (Moonlight), Otavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) e Michelle Williams (Manchester). Não falo de Nicole Kidman, em Lion, pois ainda não vi o filme. Mas Nicole é sempre Nicole.

Entre as atrizes, chama a atenção a presença de Isabelle Huppert, por Elle. É, talvez, a grande atriz da atualidade, uma unanimidade na Europa, e aqui interpreta um papel surpreendente, difícil, do jeito que ela gosta de encarar. Mas há a favorita Emma Stone, uma graça em La La Land. E não se pode descartar a caracterização de Natalie Portman cini Jacqueline Kennedy em Jackie, interessante docudrama de Pablo Larraín.

Entre os documentários, os especialistas dão como favorito O.J.: Made in America, sobre o caso de O.J. Simpson. No entanto, o italiano Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, é nada menos que estupendo, com a história trágica dos refugiados da África que tentam atingir a Europa pelo Mediterrâneo. Não se trata apenas do tema urgente. É grande cinema e venceu o Festival de Berlim. Mas talvez os votantes prefiram um tema americano.

Entre os atores coadjuvantes, há também muita concorrência e Dev Patel tem sido apontado como forte candidato por sua atuação em Lion. Mas eu não hesitaria em destacar o veterano Jeff Bridges em sua caracterização como xerife cético em A Qualquer Custo, surpreendente história de  roubo a banco ambientada no Texas.

Entre os candidatos a filme estrangeiro há a força inventiva do iraniano O Apartamento, mas Asghar Fahradi já venceu um Oscar e a comédia alemã Toni Erdmann vem atropelando concorrentes por onde passa.

O Oscar deste ano tem uma característica interessante. Talvez não haja nenhum grande, imenso filme, daqueles capazes de reunir unanimidade em torno de si. Há a simpatia de La La Land, com sua suavidade propícia num tempo difícil para os Estados Unidos e para o mundo. Seria antipático tachá-lo de escapista. É apenas bonito e romântico e, em meio a Trump e outros que me dispenso nomear, também precisamos de beleza e romance.

Mas há também dramas sólidos como Manchester à Beira Mar, Cercas e Moonlight, todos merecendo atenção tanto dos votantes quanto dos cinéfilos. Falam de coisas sérias e atuais, como a culpa que não passa, a paternidade problemática, a homossexualidade difícil de ser assumida em determinados meios e circunstâncias. São filmes muito bons e, junto com Até o Último Homem, um drama de guerra, Estrelas Além do Tempo, sobre mulheres negras que trabalharam em missões espaciais da Nasa, e A Chegada, uma ficção científica nada banal, compõem um panorama bastante interessante de um cinema que não se ocupa apenas de blockbusters desmiolados.

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