Oscar 2014 promete quebrar recordes históricos

Candidatos podem estabelecer novo precedente geográfico e quebrar barreiras sociais que pareciam intransponíveis

Ubiratan Brasil, Los Angeles - O Estado de S. Paulo

02 de março de 2014 | 03h00

A 86.ª edição da cerimônia de entrega do Oscar, que acontece no Dolby Theatre, em Los Angeles, promete estabelecer importantes recordes. Afinal, a lista de indicados apresenta um bom número de candidatos que, se ganharem a cobiçada estatueta dourada, vão estabelecer tanto um novo precedente geográfico como quebrar barreiras sociais que pareciam intransponíveis na história dos prêmios da Academia de Hollywood.

A começar pela direção – ganhador dos principais prêmios prévios da categoria, o mexicano Alfonso Cuarón pode se tornar o primeiro cineasta latino-americano a conquistar esse Oscar, por Gravidade. E suas chances são muito maiores que as desfrutadas por seu conterrâneo Alejandro González Iñárritu, que perdeu por Babel, em 2006.

Ainda que as expectativas se frustrem e o prêmio vá para o inglês Steve McQueen, diretor de 12 Anos de Escravidão, será estabelecida uma nova marca, com McQueen se tornando o primeiro diretor negro a ganhar a estatueta. Antes dele, concorreram nesta categoria John Singleton (Boyz n the Hood) e Lee Daniels (Preciosa – Uma História de Esperança).

A faixa etária também ganharia nova marca, em caso de vitória de Bruce Dern e June Squibb, ambos por Nebraska. Aos 77 anos, Dern derrubaria a marca de Henry Fonda que, em 1981, estava com 76 ao vencer por Num Lago Dourado. Já June, que concorre como coadjuvante, ultrapassaria com larga vantagem a Peggy Ashcroft, que estava com 77 quando ganhou por Passagem para a Índia (1984) – ela soma hoje 84 anos.

Até mesmo quem se recusa a acompanhar a cerimônia em Los Angeles, como Woody Allen, tem a chance de estabelecer novo recorde. Ele concorre pela 15.ª vez na categoria de roteiro original, agora por Blue Jasmine, e, vencendo, bate a própria marca e passa a somar quatro vitórias. Só resta esperar se haverá efeito negativo provocado pelos recentes escândalos que envolveram Allen e sua filha.

 

Críticos usam combinações matemáticas para prever os grandes vencedores

Os mais céticos comentaristas das cerimônias de entrega do Oscar costumam dizer que os resultados são fruto do uso matemático da política e não da paixão, como se poderia esperar em se tratando de arte. À parte a evidente contagem dos votos que proclamam os vencedores, o que eles querem dizer é que, na corrida do Oscar, especialmente na luta de melhor filme, o que está em jogo realmente são os interesses de cada categoria profissional.

A começar pela disputa principal entre os nove longas – Gravidade, 12 Anos de Escravidão e Trapaça são os favoritos. Mas, é preciso mapear os mais de 6 mil votantes (essa é a única categoria em que todos têm direito a voto) para se ter uma ideia das possibilidades. Melena Ryzik, colunista do New York Times, observa que representantes de categorias conhecidas como de segundo plano (técnicos de som, efeitos especiais, editores e diretores de fotografia) devem votar em peso em Gravidade.

Isso porque imagens de tirar o fôlego, como a destruição provocada por chuva de meteoros, além de Sandra Bullock rodando desesperada no espaço, levaram o espectador até a fronteira do espaço e confirmaram a vitória da tecnologia dedicada à construção da arte, feito do qual todos aqueles eleitores se orgulham profundamente.

Assim, é dada como certa a vitória do filme nas categorias de fotografia e efeitos especiais, além de o mexicano Alfonso Cuarón aparentemente não enfrentar um adversário à altura na luta entre os diretores, que o elegeram o melhor na eleição do sindicato da categoria, em janeiro.

Mas tamanho apoio não é suficiente para garantir a Gravidade a principal estatueta. Afinal, seus adversários também apresentam armas poderosas. Os quatro atores de Trapaça, por exemplo, disputam todas as categorias de atuação, repetindo o feito do ano passado de outro filme de David O. Russell, O Lado Bom da Vida, o que não acontecia desde Rede de Intrigas, de 1976.

Russell consolida, a cada trabalho, a imagem de um dos mais queridos diretores com que um elenco pode trabalhar. Em uma gigantesca máquina de fazer filmes como Hollywood, ele quebra os parâmetros ao criar um clima descontraído no set, buscando o conforto de seus artistas, trocando confidências e cimentando amizades. A julgar pelas entrevistas de atores em geral, Russell sempre figuraria entre os favoritos, assim como seus filmes.

A tese, no entanto, não funcionou no ano passado, quando O Lado Bom da Vida apenas consagrou o incontrolável talento de Jennifer Lawrence. A Academia conta com cerca de 1.100 atores entre seus eleitores, a categoria mais numerosa, e a maioria é apegada às tradições hollywoodianas de se contar uma história com classe e sensibilidade.

É aí que entra no jogo 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen. No ano em que predominam adaptações literárias, o filme inspirado nas desventuras de Solomon Northup, transformado em escravo em pleno século 19, tem o desenho perfeito: uma dedicada reconstituição de época, atores categorizados (especialmente os ingleses), uma trama que defende os valores da liberdade.

Trata-se do mais americano filme de McQueen e, além disso, sua distribuidora, a Fox Searchlight, reforçou, durante a campanha promocional, o fato de jamais um diretor negro ter ganho a estatueta de diretor. É um argumento que deve refletir positivamente em alguma categoria de importância.

São vários os números a serem somados e, dependendo de como é feita a conta, surge um determinado vencedor. Tais incertezas garantem o sucesso da cerimônia, que terá ao menos um número conhecido: a apresentadora Ellen DeGeneres vai trocar de roupa quatro vezes.

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