Oscar 2014 pode ser reconhecimento da vida de Bruce Dern

Ator que já fez mais de 80 anos está indicado pela atuação em ‘Nebraska’

Cindy Pearlman, The New York Times

02 de março de 2014 | 03h00

"Quando eu era criança, passávamos o verão viajando de carro", lembra Bruce Dern, indicado ao Oscar 2014 de melhor ator por Nebraska. "Fazíamos um jogo para ver quem via as montanhas primeiros. Mas, para conseguir enxergá-las, era preciso passar por Nebraska primeiro."

O ator de 77 anos firma os olhos como se pudesse ainda ver aquelas montanhas no horizonte. "Quando era menino, me perguntava: Aquelas são nuvens ou montanhas? Essa era a verdadeira questão da viagem, e me deixava perplexo. Uma vez que passávamos da parte central de Iowa, achava aquelas pessoas monumentais. Elas eram enormes. As crianças naturalmente maiores, porque comiam muito trigo, mas eu via tanta honestidade e integridade delas… Se encontrasse alguém no posto de gasolina e parasse para conversar, em dois minutos perceberia algo especial", afirma.

''Pode soar como algo ruim, mas sempre achei que, uma vez que se passava de Illinois, todos eram mais justos. Essa é uma qualidade que tentamos captar neste filme. A honestidade que há em tudo que diz respeito a Nebraska."

No longa, que já lhe rendeu o prêmio de melhor ator no festival de Cannes, Dern é Woody Grant, um senhor de idade, pai de dois filhos, que tem os dias contados. Certo dia, recebe uma carta dizendo que venceu um prêmio de US$ 1 milhão, e decide ir até a sede da companhia, em Lincoln, para pegar o dinheiro. Seu filho caçula, David (Will Forte), insiste que é golpe, mas Woody não acredita.

"Ele não consegue crer que alguém mentiria para ele a respeito de tanto dinheiro. Se está escrito em um papel, ele acredita. Por que duvidaria?", explica Dern. Para impedir o pai, que não dirige mais, de ir andando até a outra cidade, David decide levá-lo de carro até lá. É neste ponto que o drama começa a se desenvolver.

"Se há um ingrediente que é essencial para a vida de Woody, é que ele é um homem justo. Ele acredita que todos deveriam ser assim. Quando as coisas não funcionam assim… Bem, é quando tem início o resto de nossa história."

Dern foi a primeira escolha do diretor Alexander Payne para o papel, algo inédito em sua carreira. "Vou ser honesto. Já fiz filmes que outras 14 pessoas tinham recusado. Era um desses casos em que tinham só US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões para fazer o filme, então me chamavam para entrar na produção. Já fiz o quinto cowboy a contar da direita, o que não significa que eu parei de sonhar em fazer um grande papel."

Antes de abordar Dern, Payne ligou para a filha do ator, Laura, que fez seu primeiro filme, Ruth em Questão, e com quem manteve-se amigo. "Ele ligou para a Laura e perguntou como eu estava. Ela disse que eu estava ótimo, que corria todos os dias." Foi quando o cineasta enviou uma cópia do roteiro escrito por Bob Nelson.

"Respondi para ele dizendo que entendia onde ele queria chegar, e que eu achava que eu daria conta. O material funcionava muito bem no papel. Daria para pegar alguns robôs e fazer uma versão robótica do que estava escrito ali, e ainda assim o filme iria sair", afirma Dern.

"É empolgante ter um diretor que está próximo de você durante as filmagens. Ele não está lá atrás olhando para a droga de um monitor. Eu podia sentir as batidas do coração dele. E ele acredita que 80% do que ele faz vem do casting, dos atores que ele contrata. É lindo saber que, mesmo no set, eu não estava mais sendo testado".

Preto e branco. É fora do comum um filme contemporâneo como Nebraska ser filmado em preto e branco, mas a escolha faz sentido para Bruce Dern. "Eu cresci nos subúrbios, onde tudo é preto e branco. Se você fosse até Chicago, encontraria cor. Mas todas as partes da minha vida sempre foram em preto e branco."

A excitação em torno do Oscar, que será entregue no próximo dia 2 de março, tem sido especialmente boa para Dern, que só havia sido indicado uma outra vez em 1979 como coadjuvante por Amargo Regresso, de Hal Ashby. A estatueta seria o reconhecimento por uma carreira de mais de 80 filmes e incontáveis trabalhos para a televisão. "Significaria tudo!", diz o ator, empolgado.

Na melhor das hipóteses, Dern estaria lá durante a premiação para ser reconhecido, algo que não aconteceu em Cannes. "Fiquei chocado. Não sabia que tinha ganhado até um dia depois. Eu já tinha voltado para casa, mas Alexander ainda estava lá. Ele me ligou e deu a notícia. Eu sabia que estava concorrendo, mas não esperava por isso", explica. "Só três pessoas apareceram para a primeira entrevista coletiva que demos em Cannes. E duas delas eram gregas. De repente, todos queriam falar comigo sobre Nebraska, o que era maravilhoso."

Carreira. Bruce Dern cresceu em uma família de prestígio, embora não no mundo das artes cinematográficas. Seu avô foi governador, e depois foi secretário de guerra do presidente Franklin D. Roosevelt. Sua madrinha era Eleanor Roosevelt. O nome do meio de Dern é MacLeish por causa de seu tio, o poeta Archibald MacLeish. Em muitos sentidos, é uma herança intimidadora.

"Não sei se minha família lidava com a realidade do melhor jeito possível. Havia muita gravidade no ar. Estou falando de ter sido educado por gente com mais de 85 anos, e nunca superei a influência que tiveram sobre mim."

Ele chegou a começar a estudar jornalismo na Universidade da Pennsylvania, na Philadelphia, mas jamais seguiria a profissão. "Larguei a faculdade", diz, sorrindo. "Nunca esquecerei o dia em que me passaram uma pauta sobre um menino que perdeu o cachorro. Queriam que eu fizesse um título com quatro palavras. Fiz um com 11. O professor disse que eu estava no curso errado, e eu respondi que, na vida, eu precisava elaborar."

Dern começou a carreira com Rio Violento, e foi muitas vezes escalado como vilão. Entram nesta categoria clássicos como Marnie, Confissões de uma Ladra, de Alfred Hitchcock, O Dia dos Loucos, de Bob Rafelson, e Amargo Regresso. Em Os Cowboys, seu personagem mata o de John Wayne, e Dern recebeu ameaças de morte na vida real.

Os anos 1980 e 1990 foram cruéis. Dern continuou trabalhando, mas os melhores papéis lhe escapavam. No começo dos anos 2000, a sorte começou a mudar com papéis coadjuvantes melhores, como em Monster: Desejo Assassino, Sonhando Alto e Django Livre. Mais recentemente, obteve reconhecimento pela atuação na série Big Love, da HBO, como o pai abusivo de Bill Henrickson (Bill Paxton), Frank Harlow.

"Quando a plateia sai de um filme como Nebraska e dizem que não viram atores atuando, mas pessoas vivendo, esta é minha maior vitória. Entrei neste ramo para mostrar as pessoas reais." É por isso que, admite, pode colocar "pessoas demais" numa cena. "Eu sou o cara que coloca tudo o que pode para fazer um personagem parecer melhor."

Divorciado duas vezes, Dern está hoje casado com Andrea Beckett desde 1969. Teve duas filhas com a segunda mulher, a atriz Diane Ladd. Uma delas é Laura Dern, indicada ao Oscar em 1992 por As Noites de Rose.

"Aos 9 anos de idade, ela veio me dizer que queria ser atriz. Respondi que ela precisava saber apenas uma coisa: que precisava ficar na beira de um abismo e assumir riscos. Em metade das vezes, ela iria cair, e não haveria ninguém para pegá-la. Mas ainda assim ela deveria pular. Eu ainda faço isso, e nunca vou parar."

TRADUÇÃO DE CLARICE CARDOSO

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