Os velhos heróis do cinema estão cansados

A bandana, a velha faca de caça e a violência explícita de Rambo- Programado para Matar estão de volta hoje, às 22h15 para dar uns pontinhos ao Ibope do SBT. Faz 18 anos que o herói vivido por Sylvester Stallone chegou à cidadezinha de ... e virou aquele mundinho tranqüilo de pernas para o ar. As bilheterias de cinema também nunca mais foram as mesmas. Ação em estado puro, porradas, tiros, explosões passaram a ser sinônimo de dinheiro fácil.Na esteira de Stallone, surgiram os astros do gênero, Arnold Schwarzenegger, Steven Seagal, Chuck Norris, Jean-Claude Van Damme, Kurt Russell e outros mais obscuros como Rutger Hauer e Tom Berenger. O ancestral mais ilustre foi, claro, Operação Dragão, que tornou Bruce Lee um astro mundial. A partir daí, os anos 70 e 80 se divertiram com a festa de sangue, tiros e bombas durou enquanto seus heróis tiveram fôlego e o público conseguia ver novidade em roteiros e efeitos especiais cada vez mais repetidos. Finalmente, o gênero saturou.Os heróis estão cansados. O emblemático Arnold Schwarzenegger, que enfrentou as câmaras pela primeira vez em algo chamado Hercules in New York (o que mais poderia fazer um halterofilista que falava inglês como um austríaco?). Já em 1982, vivia o pré-histórico Conan. Em 1984, num papel feito à sua imagem e semelhança, batia recordes com o andróide de O Exterminador do Futuro. Mostrando que esse é um mundinho pequeno, foi um herói pau para toda obra chamado Matrix em Comando para Matar. Empunhou com talento um lança-foguetes em Jogo Bruto e encontrou um opositor à altura como o soldado Dutch Schaefer em O Predador. Alguém resolveu experimentar Arnie em filmes de outros gêneros, mas o público só o recebeu bem em paródias dos heróis fortões e infalíveis. Já eram os anos 90 e ele foi um super-herói em O Último Grande Herói e um super-agente secreto em Queima de Arquivo. De certa forma, Um Herói de Brinquedo também brinca com a mania de heróis.Ganhando US$ 5 milhões a menos por filme, em O Fim dos Dias ele era apenas um dos vultos em silhueta contra todas aquelas explosões e um roteiro absolutamente idiota. Em O Sexto Dia, é visível que o astro milionário, cuidando de suas pontes de safena e aos 53 anos, não tem a mesma disposição física de outros tempos.Chuck Norris também está com a carreira desabando. Carlos Ray Ryan compensou seu 1,75m de altura com uma agilidade notável e um golpe de pés que inventou em seus tempos de professor de caratê. Em 1968, tornou-se o campeão mundial profissional peso-leve de caratê . Por insistência de Steve McQueen, resolveu fazer filmes. Chamou a atenção numa luta de O Vôo do Dragão (1973) no Coliseu romano, contra Bruce Lee. Ele coreografou tudo e perdeu, já que era o vilão. A série Braddock e a Comando Delta eram imitações baratas de Rambo. Com a exceção de Código de Silêncio (1985), feito originalmente para Clint Eastwood, seus filmes eram todos parecidos, só que às vezes ele usava barba e bigode, em outras só bigode. Foi perdendo público, começou a fazer filmes para um público mais juvenil, daí passou para a TV, com bastante sucesso no seriado Walker, o Texas Ranger, desde 1993. Agora, com a audiência despencando à média de 2 milhões de espectadores por ano, Norris resolveu, aos 60 anos, pendurar a estrela e o cinturão do patrulheiro.Jean-Claude Van Damme, outro campeão de caratê e kickboxe, embora bem mais jovem, aos 40 anos, teve o problema de emplacar seus filmes nos Estados Unidos. Só depois que fez sucesso no mundo inteiro, o astro belga foi aceito lá. Seu primeiro filme de produção mais cuidada e ?americano? foi Soldado Universal, de 1992. Ele fez parte do filme O Predador, com Stallone, mas ninguém o viu, dentro da armadura do monstro extraterrestre que veio caçar na Terra; ninguém se lembra dele numa ponta ao lado de Chuck Norris, em Braddock -- o Super Comando. Depois, uma breve série de êxitos como Timecop, Street Fighter, Morte Súbita, A Colonia, bastou para o público americano. Agora, após confusões com drogas e conjugais, Van Damme está tão por baixo que seu projeto a longo prazo é em 2002 viver um guarda florestal em Abominable, cuja maior atração é o Pé Grande, um macacão peludo que, diz a lenda, vive nas florestas americanas. Steven Seagal tem 49 anos e uma carreira em declínio. Ele já virou piada pela total falta de capacidade de representar e por seu ego maior que a vida. Chega a inventar um passado misterioso que teria momentos como participação em ações secretas da CIA, o que nunca teve qualquer prova concreta. Campeão de artes marciais, sua marca registrada é o rabo-de-cavalo. Seu papel mais famoso é do cozinheiro Casey Ryback em A Força em Alerta, em que livra um porta-aviões de invasores praticamente sozinho. Antes, fez tiras leves no gatilho e pesados na porrada em Nico -- Acima da Lei e Difícil de Matar; depois, misturou pancadaria e ecologia em Em terreno Selvagem. E cansou.Quem viu O Implacável, o filme em cartaz de Stallone, deve ter percebido duas coisas: que o personagem dele era o mesmo de O Especialista, e que ele mal se mexia nas cenas de luta. Geralmente pegava um dos vilões e ficava socando-o. Será que até ele cansou? Stallone nunca foi de representar. Sempre que tentou, fracassou, nem sempre apenas por causa dos seus músculos faciais rígidos. Com 54 anos, ele dominou os anos 70 e 80 com as séries Rambo e Rocky. Numa, era uma força paramilitar de um homem só, na outra era o rei dos ringues. Mais tarde, foi se especializando numa série de papeis de durão, ora homem da lei, ora marginal de bons bofes, em cenários contemporâneos ou futuros. Tem dois filmes para estrear em 2001, num deles é um piloto veterano que segura o ímpeto de um jovem corredor, no outro é um tira que, significativamente, vai para uma clínica de reabilitação, por estar farto de violência. Talvez seja seu final de carreira, se a declaração que ele deu à revista alemã Amica for verdadeira. Disse que não quer mais fazer filmes, pois ficar com suas filhas é muito melhor do que filmar e "passar um tempo com, por exemplo, John Travolta".

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2001 | 18h29

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